Como se desenvolveu todo o aparentemente complexo plano de sequestrar aviões e transformá-los em mísseis que atingiriam em cheio o orgulho dos Estados Unidos da América? Essa é a questão que The Looming Tower se propõe a responder. Diferente de The Report e A Hora Mais Escura – que retratam investigações iniciadas após os atentados – The Looming Tower se passa nos meses que antecedem o fatídico 11 de Setembro de 2001. O título não se refere apenas às óbvias torres gêmeas do antigo complexo do World Trade Center, mas também a uma passagem específica do Alcorão citada pelo próprio Bin Laden pouco tempo antes dos ataques: “onde quer que você esteja a morte o encontrará, mesmo se você estiver em torres elevadas”.
A série é baseada em uma parte do livro homônimo e vencedor do Pulitzer escrito por Lawrence Wright, uma complexa obra jornalística que explora detalhadamente não apenas as relações do EUA com o resto do mundo desde a ocupação soviética no Afeganistão mas toda a evolução da conjuntura geopolítica que origina o tácito sentimento antiamericano. Deixando de fora boa parte desta contextualização histórica e cultural e mudando o protagonismo de Bin Laden e Zawahri para os agente do FBI, a série foca apenas na linha do tempo rumo aos atentados e na paradoxal simplicidade da empreitada. Em dez episódios, mostra como o FBI e a CIA se sabotaram mutuamente entre vaidades e prioridades equivocadas a ponto de colapsarem burocrática e institucionalmente em um estado de inanição frente aos fatos que foi vital para o sucesso do atentado.
A belíssima direção de arte nos conduz com facilidade à estética dos anos 90. Além do autor do livro, Dan Futterman (Capote, Foxcatcher) e o documentarista Alex Gibney estão à frente do roteiro que, mesmo desprovido de comprovação testemunhal e com um arco dramático cujo desfecho já é conhecido, se vale justamente da previsibilidade para contar uma narrativa bem amarrada e contextualizada com espaço até para menções sarcásticas sobre o escândalo Clinton-Lewinsky. O elenco é afiado e o antagonismo de Jeff Daniels (The Newsroom), como John O’Neill do FBI, e Peter Sarsgaard (The Killing), como Martin Schmidt da CIA, solta faíscas. Também impressionam Michael Stuhlbarg (Fargo, Boardwalk Empire) como o consultor de contra terrorismo do Presidente Clinton, e Tahar Rahim como o agente líbano-americano Ali Soufan que é, inclusive, um dos produtores da série e que também é retratado em The Report.
The Looming Towers tenta suavizar a constante tensão com doses alopáticas da atribulada vida romântica e sexual de O’Neill. Com exceção da brilhante Wrenn Schmidt como a agente Diane Marsh, relega-se a este núcleo as tramas subdesenvolvidas das personagens femininas. Em contraponto a esta pequena falha, a obra apresenta uma generosa abordagem das missões de campo, sejam elas em Nairobi, Dar es Salaam, Tirana ou Khost e alçam Soufan – o interrogatório do último episódio, inclusive, é antológico – ao status de árabe mais querido da América, graças a Tahar Rahim que conseguiu retratar um homem que reencontra sua fé no Islã sem perder sua lealdade aos EUA.
A relativa proximidade temporal da narrativa com a realidade poderia comprometer um pouco o resultado mas, de forma geral, a impressão que fica é que houve uma certa preocupação com o distanciamento emocional e tal esforço parece sim ter valido a pena. O artifício de usar cenas reais dos testemunhos de alguns envolvidos assim como de Bin Laden ajuda bastante. A lição que fica é que inteligência sem cooperação é burrice. Não se reprima se em algum momento você se pegar exasperado com tanta estupidez.
[publicado originalmente no Hybrido]
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