Entre a aula de filosofia e o drama de dormitório
Eu tenho uma teoria meio simples que vale tanto para Star Trek quanto para Star Wars: toda nova obra (série ou filme) precisa passar pelo mesmo ritual de iniciação. Primeiro, os fãs reclamam. Então tentam entender que diabos aquela série quer ser. E só depois de algum tempo decide-se se aquilo é bom ou é um desastre… ou ainda se é apenas uma fase estranha em desenvolvimento.
Na minha humilde e não solicitada opinião, Star Trek: Starfleet Academy ainda está nessa última etapa.
Finalmente dentro da Academia
O grande barato da premissa de Starfleet Academy é relativamente simples: finalmente temos uma série passada dentro da famosa Academia da Frota Estelar, acompanhando uma nova geração de cadetes tentando descobrir quem são — e que tipo de oficiais querem se tornar. A tal Academia era citada aqui e ali, mas não tinha aparecido de fato (ou eu que deixei passar alguma coisa?). Na teoria, isso parece perfeito para o universo de Star Trek. Na prática… bom, digamos que o resultado é curioso.
Capitães salvam planetas. Estudantes cometem erros.
Eu honestamente penso que é muito interessante tentar fazer algo diferente dentro da franquia que agrade e tente surpreender antigos fãs ao mesmo tempo que tenta angariar toda uma nova geração. Ao invés de capitães experientes salvando planetas, temos estudantes cometendo erros, competindo, se apaixonando e tentando sobreviver a aulas que misturam ciência, política e ética espacial. E essa dinâmica realmente gera momentos genuinamente interessantes. Temos episódios que conseguem capturar aquele espírito clássico de Star Trek: dilemas morais, debates sobre empatia, decisões difíceis sobre como lidar com conflito sem simplesmente disparar um phaser.
Só que isso complica um pouco as coisas. Porque Starfleet Academy também é, essencialmente, um drama juvenil. Rivalidades entre colegas, romances meio desajeitados, conflitos familiares, professores tentando transformar caos em aprendizado. O arco do herói é seguido à risca no desenvolvimento do jovem Caleb Mir — talvez até demais. A trajetória do cadete segue tão fielmente o manual da jornada do herói que em alguns momentos tudo fica previsível e um pouco estereotipado. Resumindo: é um drama adolescente, metade ficção científica, metade série de campus. Às vezes essa mistura funciona. Às vezes parece que duas séries diferentes estão brigando pela mesma sala de aula.

Uma temporada um tanto irregular… mas o elenco!
Na prática temos uma temporada legal, mas irregular, com episódios que oscilam entre ideias muito boas e execução um pouco desajeitada. Há humor que não funciona, arcos e subtramas que parecem infladas demais e um tom que nem sempre sabe se quer ser aventura espacial ou novela adolescente. Mas eu não consegui parar de assistir. Há algo intrigante ali.
Destaque obviamente para Holly Hunter, como a chanceler Nahla Ake, e Paul Giamatti, como o grande vilão Nus Braka para quem ambos os papéis parecem ter sido escritos meticulosamente de tão perfeitos que são. Salve para a volta de Robert Picardo como o Doctor (papel que interpretou na Voyager) e da maravilhosa Tig Notaro como a espirituosíssima oficial Jett Reno, da Discovery e muitas para Tatiana Maslany que vive a enigmática Anisha Mir. O restante do elenco é formado principalmente por atores mais jovens interpretando os cadetes — exatamente o tipo de energia que a proposta da série pede. A dinâmica entre professores (e atores) experientes e cadetes (jovem atores) ainda tentando descobrir o próprio lugar acabam acrescentando uma camada curiosa a essa nebulosa (trocadilho intencional) colcha de retalhos dramática.

Pequenos presentes para fãs antigos
Há também pequenas referências espalhadas que fãs atentos provavelmente vão reconhecer: nomes de salas e laboratórios homenageando figuras históricas da Frota Estelar, menções a episódios clássicos e detalhes de uniformes e insígnias que lembram diferentes eras da cronologia da franquia. Nada disso é essencial para entender a história (quem sabe um dia eu volte com um post só sobre os easter eggs) — mas funciona como aquele tipo de detalhe carinhoso que mostra que os roteiristas sabem exatamente com que universo estão lidando.
Talvez seja justamente isso que mantém a série interessante mesmo quando ela tropeça. Porque Starfleet Academy parece estar tentando homenagear não apenas a viagem ao desconhecido mas outra coisa tão cara quanto isso para a franquia: o idealismo. A ideia de que aprender, discutir e até falhar faz parte de construir um futuro melhor. E que a Frota Estelar não nasce pronta; ela começa em uma sala de aula cheia de gente confusa. No fundo, Starfleet Academy parece menos interessada em heróis e mais interessada no processo de virar um.
Não é a série mais elegante de Star Trek. Mas talvez seja uma das mais curiosas.






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