Há quem acorde e escolha a roupa do dia. Ela acorda e escolhe o tom.
O tom da aula, o tom da correção, o tom da reunião, o tom da… O tom. Aparentemente sua vida se resume a isso: calibrar atmosferas antes mesmo do primeiro “bom dia”.
Ainda é cedo quando as primeiras mensagens chegam. Alguém avisando que vai chegar atrasado — ou mesmo que não vai trabalhar. Um outro alguém pedindo link de aula — que já devia ter recebido. Mensagens perdidas da noite anterior, normalmente 22h47 quando ela já apagou de cansaço. Ela responde. Ajusta. Orienta. Sustenta. Pensa que já está cansada, mas respira e vai. Desistiu de anotar coisas que podem melhorar. Anotações mentais bastam por enquanto.
É sobre manter o ritmo.
Parte para a primeira aula do dia. E ali, quando está frente a frente com os alunos, o dia ganha brilho. A precisão entra em cena. O olhar atento versus o olhar sedento. O cuidado com o detalhe versus a urgência de libertar a fala — ainda que imperfeita. “Preposições são um pesadelo em qualquer idioma” repete para o aluno e para si mesma.
Segue escutando atentamente, intervém no momento exato, ajusta um pronome aqui, reposiciona uma ideia ali. Ensinar não é despejar conteúdo. É organizar coragem. Há algo de silenciosamente revolucionário em ver um adulto aprendendo o básico. E ela sabe disso.
Corrigir sem diminuir.
Exigir sem esmagar.
Conduzir sem aparecer demais.
Repetir.
Num intervalo, abre o material de italiano. Estuda. Nem sempre com a leveza que gostaria. Às vezes com a cobrança de quem ensina e acha que já deveria saber mais. Mesmo assim, continua.
Passam as aulas e a cabeça é um furacão. Ela pensa no coletivo antes do individual. Pensa na experiência do aluno antes do conforto do professor. Pensa na qualidade antes da pressa. Pensa — e não para. E, quase sem perceber, o dia já atravessou a tarde.
Quando a noite chega, o silêncio da casa contrasta com o ruído interno que ainda não desligou. Há mensagens para responder, deveres para corrigir, notas para lançar, casa para cuidar.
Às vezes, nesse ponto do dia, a frustração aparece — discreta, mas firme. A vida pessoal ficou espremida entre tudo o que foi investido até aqui e as contas para pagar. O cinema foi adiado. O encontro virou “quem sabe semana que vem”. O tempo, que ensina tanta coisa nas aulas, parece escasso fora delas.
Ela sente falta de desligar sem culpa.
Dizem que nossa profissão não nos define. Mas ela não vê mais a linha que separa o que ela faz e quem ela é. E, no silêncio que ninguém vê, surge a pergunta que evita formular em voz alta: é suficiente?
No fim do dia, ela não celebra grandes feitos. Celebra pequenas vitórias silenciosas. Porque é assim: as derrotas fazem barulho; as vitórias acontecem baixinho — um pagamento em dia, um aluno que ousa falar, um erro que vira aprendizado.
Entre verbos e silêncios, ela segue.
Não porque seja simples.
Mas porque faz sentido.






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