[Reviews Hybrido] The Undoing

Do mesmo criador de Ally McBeal e Big Little LiesDavid E. KelleyThe Undoing também é um drama sobre assassinato e casamento na alta sociedade. Menos densa e mais arrastada que o drama na costa da Califórnia, The Undoing se passa na Manhattan dos ricos. Muito ricos. A primeira impressão que fica é que a série se perde um pouco no apelo por empatia pela pobre menina rica que tem sua vida destruída pela mídia que invade sua rotina e seu casamento por conta do assassinato em questão. E não, essa impressão não se desfaz mesmo depois do fim da minissérie, que se contorce para esticar e esgotar ao máximo a dúvida sobre a inocência ou não de Jonathan (Hugh Grant, em uma atuação praticamente impecável), de Grace (Nicole KIdman), ou mesmo sobre uma possível sobrevivência do casamento dos dois, pós tamanho turbilhão.

A minissérie em seis episódios é baseada no romance You Should Have Known, de Jean Hanff Korelitz (2014) onde a protagonista, a renomada terapeuta Grace Fraser, escreve um livro de autoajuda onde conta os erros e acertos de sua própria experiência. É difícil não condenar The Undoing por desperdiçar uma ótima oportunidade de ser uma efetiva crítica social ao privilégio branco (e rico) ao preterir o drama da família latina envolvida na trama e mostrar apenas o “lado” dos brancos. Claro que pode ser explicado por basear-se na perspectiva de Grace conforme a adaptação do livro, mas quando os showrunners optam por ignorar totalmente a contraparte do drama, podemos concluir que houve no mínimo uma preguiça narrativa. O roteiro também peca por algumas escolhas estranhas, como focar boa parte da trama na escola particular onde estudam as duas crianças “antagonistas”, Henry (vivido por Noah Jupe, de Um Lugar Silencioso e Ford vs Ferrari) – o filho de Grace e Jonathan – e Miguel (Edan Alexander, o Pequeno Louis da última temporada de Two and a Half Men) – o filho bolsista da artista plástica assassinada. Menção honrosa para a participação especial de Douglas Hodge (Black Mirror, The Great) como o defensor público.

O malabarismo narrativo é nítido e visível a ponto de se tornar um tanto entediante e muita coisa mesmo acaba sendo revelada no próprio trailer (sintomático de um roteiro, no mínimo, questionável), mas as estrelas de Nicole Kidman e Hugh Grant acabam por nos seduzir (nunca neguei que sou fácil de agradar). Juntam-se aos dois e às duas crianças (que também dão show), três protagonistas de luxo: Lily Rabe (American Horror Story) numa óbvia tentativa de ser a Laura Dern da vez, o convincente Edgar Ramirez (Joy, A Garota do Trem, American Crime Story – Versace) e Donald Sutherland que traz toda sua credibilidade em uma minimalista e poderosa interpretação do magnata, pai da protagonista. 

Num determinado momento, passou pela minha cabeça que os brasileiros devem imaginar estar vendo algo manuelcarlesco, com seus ricaços que tratam bem os empregados e criam ótimos filhos burgueses não mimados (parabéns por fazerem o mínimo) fazendo de Nicole Kidman mais uma Helena, blasé e poderosa que está sempre entre uma caminhada para espairecer ou, pelo bem da narrativa, no limiar de colapsar frente a seus algozes. E o roteiro também não lhe faz jus, pois lhe apresenta como uma renomada e experiente psicóloga que em determinado momento recorre a um dos advogados para conseguir “ler” o papel de seu marido em todo o processo. Tudo isso sob a direção de Suzanne Bier (The Night Manager) e, devo reconhecer, alguns com bons cliffhangers ao fim de cada episódio que dão fôlego à minissérie dividindo a responsabilidade da obra com um elenco estelar. Definitivamente, The Undoing está muito aquém de seu potencial como um todo, mas na onda da chegada da HBO Max, pode agradar a uma parcela desinteressada de profundidade.

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