A eleição da deputada Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados provocou um tipo de reação que já se tornou padrão: uma mistura de apreensão performática com argumentos que tentam soar técnicos, mas que raramente sobrevivem a dois minutos de realidade concreta. Detalhe pouco mencionado em meio ao escândalo: não havia outra chapa concorrendo.
Não gastei nem cinco segundos no google porque o Diadorim já fez o levantamento por mim: Erika Hilton acumula 26 propostas legislativas voltadas às mulheres. Não se trata de retórica, presença digital ou capital simbólico. Trata-se de produção política mensurável. E aqui está um ponto que vem sendo deliberadamente embaralhado: essas propostas não se restringem a um grupo específico. São iniciativas voltadas à redução da violência de gênero, ampliação do acesso à saúde, fortalecimento de mecanismos de proteção social e garantia de direitos básicos. Em outras palavras, incidem diretamente sobre a vida de mulheres cis e trans, sobretudo aquelas que se encontram nas camadas mais vulneráveis.
A crítica de que haveria um “risco de agenda identitária”, como sugerido por paralamentares, influencers e outros papagaios afins, parte de uma premissa discutível: a de que políticas públicas funcionariam como um jogo de soma zero. Como se reconhecer a existência de grupos historicamente marginalizados implicasse, automaticamente, reduzir a proteção de outros. Muito pelo contrário, políticas desenhadas a partir das situações mais vulneráveis tendem a ampliar cobertura e eficiência para o conjunto.
Um exemplo simples ajuda a sair da abstração. Pense em protocolos de atendimento no Sistema Único de Saúde. Quando o SUS começa a estruturar atendimentos levando em conta populações historicamente negligenciadas — com formação específica de profissionais, revisão de linguagem, redução de barreiras no acesso — ele não cria um sistema “para um grupo só”. Ele melhora o padrão geral. Uma mulher cis que chega a um atendimento mais humanizado, com profissionais mais preparados para lidar com diferentes realidades, também se beneficia diretamente disso. O tempo de resposta melhora, o acolhimento melhora, o diagnóstico melhora.
Outro exemplo: políticas de acesso a serviços públicos digitais. Quando o Estado simplifica linguagem, reduz burocracia e pensa em quem tem mais dificuldade de navegação — gente com menor escolaridade, menos familiaridade com tecnologia —, o resultado não é um serviço “segmentado”. É um serviço mais eficiente pra todo mundo. No fim, a lógica é bem menos ideológica do que tentam vender: quando você projeta políticas considerando quem está na base, você não exclui quem está acima. Você só evita que o sistema continue funcionando mal para a maioria.
Nesse contexto, o argumento da chamada “socialização masculina” aparece como um atalho explicativo, especulativo e caça-likes, que ignora a complexidade das trajetórias reais. Ele desconsidera, por exemplo, os níveis documentados de exclusão social, violência e precariedade enfrentados por mulheres trans, especialmente no Brasil. Transformar essa experiência em uma espécie de capital de vantagem não apenas simplifica o debate, como o distorce.
Mas talvez o ponto mais revelador dessa controvérsia esteja menos no conteúdo dos argumentos e mais no tipo de incômodo que eles expressam. Há, em parte das críticas, uma confusão recorrente entre visibilidade e poder político. A presença constante de Erika Hilton no debate público é frequentemente tratada como se fosse, por si só, um problema — quando, na prática, ela decorre de um fator bastante mais prosaico: atuação consistente.
Em política institucional, visibilidade raramente se sustenta sem lastro. Ela costuma ser resultado de articulação, clareza de posicionamento e capacidade de produzir e defender propostas. A trajetória recente da deputada indica precisamente isso. Reduzir esse processo à ideia de “aproveitamento” não apenas enfraquece a crítica, como revela certa dificuldade em reconhecer critérios objetivos de relevância política. Esse deslocamento do debate — da análise de propostas para a contestação de quem as apresenta — acaba produzindo um efeito curioso. Discute-se intensamente quem pode ou não pode representar determinadas pautas, enquanto o conteúdo dessas pautas permanece em segundo plano. No caso específico da Comissão da Mulher, isso significa deixar de lado questões concretas que afetam cotidianamente milhões de brasileiras em favor de uma disputa mais simbólica do que substantiva.
No fim, a questão central é menos controversa do que parece. Se há um conjunto expressivo de propostas voltadas à proteção e ampliação de direitos, o critério de avaliação deveria recair sobre sua qualidade, alcance e viabilidade. Quando o foco se desloca para a legitimidade da presença de quem as propõe, o debate deixa de ser sobre política pública e passa a ser sobre delimitação de espaço. E é justamente aí que a controvérsia se esclarece. Não se trata, fundamentalmente, de uma divergência sobre prioridades ou desenho institucional. Trata-se de uma disputa sobre quem é reconhecido como interlocutor legítimo dentro desse campo.
Eu, como mulher cis, não me sinto ameaçada, apagada ou substituída por essa presença. Muito pelo contrário. Diante de um cenário político em que tantas vezes falta preparo, consistência e compromisso, me sinto representada — e, honestamente, até bem representada — por alguém que demonstra capacidade de formular, articular e sustentar políticas que impactam a vida de mulheres de forma concreta.
O problema, portanto, não está nas propostas.
Está no desconforto que certas presenças ainda provocam quando deixam de ser exceção e passam a ocupar posições de direção.
P.S. Curioso como não houve a mesma comoção quando uma Comissão da Mulher foi formada apenas por homens na Câmara Municipal de São Paulo. Pelo visto, o problema não é exatamente quem ocupa o espaço — depende de quem.
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