{"id":3293,"date":"2020-01-02T10:54:00","date_gmt":"2020-01-02T13:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacau.me\/?p=3293"},"modified":"2026-02-27T11:07:19","modified_gmt":"2026-02-27T14:07:19","slug":"reviews-hybrido-you-1a-e-2a-temporadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacau.me\/?p=3293","title":{"rendered":"[Reviews Hybrido] You \u2013 1\u00aa e 2\u00aa temporadas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A narrativa em primeira pessoa n\u00e3o \u00e9 novidade mesmo quando o protagonista \u00e9 o vil\u00e3o. Fugir da empatia que uma narrativa assim acaba por nos impor \u00e9 um grande desafio. E \u00e9 justamente no complexo exerc\u00edcio de uma controversa empatia que reside o principal trunfo de\u00a0<strong>You<\/strong>. A trama gira em torno de <em>Joe Goldberg<\/em> (<strong>Penn Badgley<\/strong>), um carism\u00e1tico gerente de livraria que retroalimenta sua sociopatia com o que ele entende por amor e prote\u00e7\u00e3o, a partir de seu primeiro encontro com com <em>Guinevere Beck<\/em> (<strong>Elizabeth Lail<\/strong>), aspirante a escritora e repleta de frustra\u00e7\u00f5es pessoais majoritariamente femininas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>You<\/strong> \u00e9 uma das s\u00e9rias s\u00e9ries mais provocativas que eu j\u00e1 vi. Isso se deve \u00e0 soma de um roteiro poderoso, uma dire\u00e7\u00e3o caprichada, uma fotografia folhetinesca e atua\u00e7\u00f5es impec\u00e1veis, tudo baseado no livro hom\u00f4nimo de\u00a0<strong>Caroline Kepnes<\/strong>. Joe nos mostra aos poucos sua personalidade, sua frieza, sua intelig\u00eancia e, principalmente, seu senso de superioridade, que define sua rela\u00e7\u00e3o com os outros \u00e0 sua volta. Conhecemos em primeira m\u00e3o a sua bela ret\u00f3rica, que funciona como armadilha moral para julgarmos suas a\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m do carisma do personagem (gra\u00e7as \u00e0 maravilhosa constru\u00e7\u00e3o e atua\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong>Penn Badgley<\/strong>), tamb\u00e9m entram na equa\u00e7\u00e3o uma poss\u00edvel capacidade de se importar com jovens que sofrem abusos de outrem \u2013 caso de <em>Paco <\/em>na primeira temporada e de <em>Ellie<\/em> (<strong>Jenna Ortega<\/strong>), na segunda. O roteiro parece cair na tenta\u00e7\u00e3o de colocar o comportamento de Joe sempre em perspectiva quando retrata o padrasto espancador de Paco ou mesmo o predador sexual Henderson. Ao mesmo tempo, o roteiro tamb\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel por chamar os mais distra\u00eddos de volta \u00e0 Terra e mostrar que, independente das \u201cboas\u201d inten\u00e7\u00f5es, Joe \u00e9 um assassino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se na primeira temporada Joe se v\u00ea torturado pelo objeto de sua obsess\u00e3o. que pode tra\u00ed-lo a qualquer momento, e ele tem uma antagonista \u00e0 altura na tamb\u00e9m abusiva <em>Peach Salinger<\/em> (<strong>Shay Mitchell<\/strong>) \u2013 melhor amiga de Beck \u2013, na segunda temporada ele n\u00e3o chega a ser efetiva e psicologicamente desafiado. Mesmo tornando-se ca\u00e7a em determinado ponto da narrativa, Joe lida apenas com traumas pessoais e com a pr\u00f3pria ansiedade para prosperar com seu novo \u201camor\u201d, <em>Love <\/em>(<strong>Victoria Pedretti<\/strong>). Os flashbacks ganharam espa\u00e7o para explicar a rela\u00e7\u00e3o de Joe com as mulheres, o poder e o sexo. Infelizmente, perde-se a chance de dar o mesmo destaque para o sofrimento que o vil\u00e3o causara a <em>Candance <\/em>(<strong>Ambyr Childers<\/strong>), sua ex-namorada. Um arco que poderia ser melhor explorado para evitar poss\u00edveis acusa\u00e7\u00f5es de romantiza\u00e7\u00e3o da sociopatia, mas mal percebemos porque estamos fascinados com a din\u00e2mica da complexa codepend\u00eancia dos g\u00eameos Love e <em>Forty <\/em>(<strong>James Scully<\/strong>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada temporada tem dez epis\u00f3dios e ambas s\u00e3o muito bem finalizadas com\u00a0<em>cliffhangers<\/em>\u00a0surpreendentes e bem lan\u00e7ados que deixam o futuro aberto ao mesmo tempo que concluem as respectivas tramas com um pitadas oportunas de sadismo. Tenho d\u00favidas se uma terceira temporada seria bem sucedida depois desta conclus\u00e3o ou se seria necess\u00e1rio um malabarismo exagerado para manter a alta expectativa. Esta segunda alternativa pode se mostrar um grande erro pois, para mim, o mais interessante da s\u00e9rie est\u00e1 nos personagens cr\u00edveis, honestamente fal\u00edveis (nem com toda sua intelig\u00eancia os crimes de Joe podem ser considerados \u201cperfeitos\u201d) e que est\u00e3o \u2013 como nossa gera\u00e7\u00e3o \u2013 sujeitos \u00e0s novas rela\u00e7\u00f5es sociais constru\u00eddas via web e sob os holofotes individuais da cultura do\u00a0<em>self exposure<\/em>. Arrisco at\u00e9 a dizer que o\u00a0<em>stalking<\/em>\u00a0ganhou um lament\u00e1vel conceito el\u00e1stico de acordo com as experi\u00eancias de cada um o que faz com que cada rea\u00e7\u00e3o seja praticamente \u00fanica frente \u00e0s provoca\u00e7\u00f5es da s\u00e9rie que aposta claramente na atra\u00e7\u00e3o que temos por certos aspectos da escrotid\u00e3o humana. Enquanto alguns podem achar a s\u00e9rie um desservi\u00e7o pela sociopatia, acredito que o debate dessa vol\u00e1til linha de valores vale a audi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu fiquei t\u00e3o impactada com a primeira temporada, no in\u00edcio de 2019, que eu sequer queria conversar sobre a s\u00e9rie. Parecia errado ter gostado tanto. Como essa trama sobre relacionamentos abusivos em tantas camadas podia ser t\u00e3o fascinante? Como esse vil\u00e3o poderia soar t\u00e3o cr\u00edvel e, pior, como suas crueldades podiam suscitar qualquer empatia? Como eu poderia admitir publicamente que, se o encontrasse, eu certamente cairia de amores por esse cara machista e manipulador que parecia t\u00e3o normal? Sentiu o drama? Ponto para&nbsp;<strong>Voc\u00ea<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">[publicado originalmente no <a href=\"https:\/\/web.archive.org\/web\/20241202221902\/https:\/\/hybrido.com.br\/analise-you-netflix-hybrido\/\">Hybrido<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A narrativa em primeira pessoa n\u00e3o \u00e9 novidade mesmo quando o protagonista \u00e9 o vil\u00e3o. Fugir da empatia que uma narrativa assim acaba por nos impor \u00e9 um grande desafio. E \u00e9 justamente no complexo exerc\u00edcio de uma controversa empatia que reside o principal trunfo de\u00a0You. 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