{"id":2957,"date":"2019-06-29T18:14:30","date_gmt":"2019-06-29T21:14:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.cacau.me\/?p=2957"},"modified":"2020-04-15T18:35:59","modified_gmt":"2020-04-15T21:35:59","slug":"primeiras-impressoes-sobre-o-tratado-de-livre-comercio-ue-x-mercosul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacau.me\/?p=2957","title":{"rendered":"Primeiras impress\u00f5es sobre o Tratado de Livre Com\u00e9rcio UE x Mercosul"},"content":{"rendered":"\n<p>Ap\u00f3s 20 anos de negocia\u00e7\u00f5es, o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia enfim chegam a um consenso sobre o Acordo de Livre Com\u00e9rcio entre os dois blocos. Nunca foi uma negocia\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e a conclus\u00e3o dos trabalhos, anunciada ontem (28) em Bruxelas, traz a mensagem de que grandes negocia\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o poss\u00edveis. Em meio \u00e0 tensa e polarizada conjuntura atual, os dois lados da mesa tem estado \u00e0 margem das grandes negocia\u00e7\u00f5es protagonizadas entre a China e os Estados Unidos desde a posse de Trump e, para o Mercosul especificamente, a prefer\u00eancia dos europeus para o nosso mercado consumidor \u00e9 um claro recado de que o bloco n\u00e3o \u00e9 um&nbsp;participante in\u00f3quo no sistema internacional. Outros pa\u00edses devem passar a olhar para o bloco de forma diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Com n\u00fameros atuais, estamos falando de&nbsp;<strong>\u20ac88 bilh\u00f5es em mercadorias<\/strong>&nbsp;(com equil\u00edbrio bilateral) e&nbsp;<strong>\u20ac34 bilh\u00f5es em servi\u00e7os<\/strong>&nbsp;(70% favor\u00e1vel \u00e0 UE) num grande mercado econ\u00f4mico que representa&nbsp;<strong>25% do PIB mundial<\/strong>&nbsp;e envolve&nbsp;<strong>780 milh\u00f5es de pessoas<\/strong>. Al\u00e9m do agroneg\u00f3cio e da ind\u00fastria, o acordo abrange segmentos de servi\u00e7os, como comunica\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o, turismo, transportes, servi\u00e7os profissionais e financeiros e permitir\u00e1 que mais de 90% dos produtos sejam comercializados entre os blocos com tarifa zero, gerando uma&nbsp;<strong>economia estimada superior a \u20ac4 bilh\u00f5es por ano<\/strong>&nbsp;em impostos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"background-color:#fbd9d1\" class=\"has-background\">Acho importante salientar que n\u00e3o \u00e9 auspicioso se deslumbrar apenas com tais n\u00fameros ou com as manchetes que, obviamente, ressaltam que esse \u00e9 o maior acordo comercial que a Uni\u00e3o Europeia j\u00e1 concluiu e, no caso do Brasil, o impacto pode ser maior que as aberturas econ\u00f4micas alavancadas por Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Isso \u00e9 fato. Por\u00e9m, o fim de t\u00e3o longas negocia\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m reflete o cen\u00e1rio pol\u00edtico de cada um dos envolvidos: a proximidade do fim do mandato da atual Comiss\u00e3o Europeia, por exemplo, e at\u00e9 mesmo as elei\u00e7\u00f5es na Argentina. Em ambos os casos, numa eventual vit\u00f3ria das respectivas oposi\u00e7\u00f5es, este tratado estaria fadado a mais alguns muitos anos de discuss\u00e3o. As duas d\u00e9cadas de negocia\u00e7\u00f5es se justificam pela enorme assimetria entre os blocos, suas prioridades diferentes e pelos interesses pr\u00f3prios que at\u00e9 dentro do Mercosul eram complicados de serem equalizados. Logo, n\u00e3o se deve negar nem subestimar o peso de diversas press\u00f5es pol\u00edticas nas premissas concedidas pelas partes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora os grupos t\u00e9cnicos iniciar\u00e3o as tratativas legais para a devida reda\u00e7\u00e3o e necess\u00e1rias vincula\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas. \u00c9 preciso ter muito cuidado para n\u00e3o cair da tenta\u00e7\u00e3o da adivinha\u00e7\u00e3o do futuro mas, com base&nbsp;<a href=\"https:\/\/ec.europa.eu\/commission\/presscorner\/detail\/en\/qanda_19_3375?fbclid=IwAR0aw56bXru_lVLJdkkHP2fcFMi1QMVuVOmJejF76dCa57AM1WMlClQ-xTo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">no pouco que j\u00e1 foi liberado de oficial sobre o tratado<\/a>, \u00e9 poss\u00edvel sim fazer algumas considera\u00e7\u00f5es sem medo de leviandade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O agroneg\u00f3cio do Mercosul talvez seja um dos grandes beneficiados do tratado.<\/strong>&nbsp;Isso explica boa parte da festa por parte dos governistas, obviamente impulsionada pela bancada ruralista. No entanto, somente poderemos bater esse martelo depois de analisar dois pontos:<\/p>\n\n\n\n<p>1) O tratado deve seguir os padr\u00f5es europeus no que diz respeito \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria e fitossanit\u00e1ria al\u00e9m de adotar o \u201c<em>precautionary principle<\/em>\u201d. O princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o sempre foi inaceit\u00e1vel, um dealbreaker para os negociadores do Mercosul. Pelas regras atuais da OMC, o pa\u00eds importador precisa provar a exist\u00eancia de algum dano (seja no tocante \u00e0 sa\u00fade humana, animal ou ambiental) antes de restringir a importa\u00e7\u00e3o. Agora, com o princ\u00edpio de precau\u00e7\u00e3o, um governo poder\u00e1 impor barreiras &#8211; mesmo se baseando em estudos n\u00e3o conclusivos &#8211; e \u00e9 o exportador que deve provar que a respectiva exporta\u00e7\u00e3o n\u00e3o causa dano. Como disse o ex-negociador Pedro Camargo Neto: \u201c<em>h\u00e1 um importante car\u00e1ter simb\u00f3lico ao cedermos em uma quest\u00e3o de princ\u00edpio<\/em>&#8220;.<\/p>\n\n\n\n<p>2) A quest\u00e3o das cotas de produtos ainda n\u00e3o foi detalhada. O que sabemos hoje remete \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es de 2004, por exemplo, quando &#8211; tamb\u00e9m segundo o ex-negociador Pedro Camargo Neto &#8211; o Brasil exigia cota de no m\u00ednimo 300 mil toneladas de carne contra a oferta de 99 mil toneladas por parte da UE. Era um ponto t\u00e3o forte para as partes que paralisou a negocia\u00e7\u00e3o por anos. Em maio, o Chanceler Ernesto Ara\u00fajo fez a seguinte declara\u00e7\u00e3o em entrevista: \u201c<em>\u00c9 importante mencionar que do caso do Mercosul, e muito especificamente do Brasil, nesses \u00faltimos meses temos feito grandes esfor\u00e7os para renovar nossas posi\u00e7\u00f5es e atualiz\u00e1-las de uma maneira que permitam a conclus\u00e3o do acordo<\/em>\u201d. Isso indica que um dos esfor\u00e7os pode justamente ter sido o recuo no posicionamento relativo \u00e0s cotas (assim como recuamos na quest\u00e3o de abandonar o Acordo de Paris). Mesmo sendo o agroneg\u00f3cio um setor altamente rent\u00e1vel, com menor valor agregado e pouca utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, n\u00e3o sabemos o impacto das cotas nessa equa\u00e7\u00e3o. O tratado garante ao Mercosul o acesso preferencial para a exporta\u00e7\u00e3o de carnes bovina, su\u00edna e aves, a\u00e7\u00facar, etanol, arroz, ovos e mel, entre outros, mas ser\u00e1 que as cotas ser\u00e3o suficientemente satisfat\u00f3rias para compensar a as importa\u00e7\u00f5es que receberemos dos produtos industrializados europeus notoriamente mais competitivos do que os nossos?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que chegamos aos&nbsp;<strong>produtos industrializados<\/strong>, o sentimento inicial \u00e9 de que&nbsp;<strong>os industriais do Mercosul saem como os maiores prejudicados do tratado&nbsp;<\/strong>pois devem perder para os europeus o mercado latino-americano que tinham. Os parques industriais tanto do Brasil quanto da Argentina est\u00e3o longe do auge de suas sa\u00fades financeiras e apresentam um baix\u00edssimo n\u00edvel de competitividade. Al\u00e9m disso, um ponto important\u00edssimo tamb\u00e9m foi levantado pelo Daniel Rittner &#8211; do jornal Valor Econ\u00f4mico &#8211; sobre as&nbsp;<strong>regras de origem<\/strong>: \u201c<em>Para ser considerado original, um produto feito no Mercosul precisa ter no m\u00ednimo 60% de pe\u00e7as, insumos ou componentes locais. A UE costuma ser mais flex\u00edvel com esse percentual. Como ficou no acordo? Se a regra de origem for muito baixa, corremos o risco de importar produtos travestidos de \u2018europeus\u2019, com tarifa zero, que s\u00e3o na verdade japoneses, vietnamitas, eg\u00edpcios ou sabe-se l\u00e1 de onde<\/em>.\u201d E finalmente, para equalizar os diferentes padr\u00f5es t\u00e9cnicos, o tratado dever\u00e1 considerar apenas os padr\u00f5es internacionais &#8211; o que \u00e9 bom para o Mercosul &#8211; por\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o descartados o uso de&nbsp;<strong>medidas de salvaguarda&nbsp;<\/strong>que qualquer das partes pode lan\u00e7ar m\u00e3o quando achar conveniente. Ponto que tamb\u00e9m deve ser detalhado no futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro ponto de aten\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 quest\u00f5es de&nbsp;<strong>propriedade industrial\/intelectual<\/strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>indica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica<\/strong>. O acordo inclui disposi\u00e7\u00f5es que cobrem Direitos de Propriedade Intelectual sobre direitos autorais, marcas, desenhos industriais, indica\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas e variedades de plantas. A se\u00e7\u00e3o sobre Direitos de Propriedade Intelectual tamb\u00e9m cobrir\u00e1 a prote\u00e7\u00e3o de segredos comerciais. Teoricamente, nada mais justo.&nbsp;Mas como manteremos, por exemplo, a quebra das patentes que originou todo o programa de medicamentos gen\u00e9ricos do Brasil?&nbsp;Sobre a indica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, estamos falando daqueles produtos que, de t\u00e3o famosos, s\u00e3o batizados com sua denomina\u00e7\u00e3o de origem: champagne, queijo parmes\u00e3o, mortadela bologna, presunto de parma, queijo minas e at\u00e9 a nossa cacha\u00e7a (que foge \u00e0 regra do nome mas est\u00e1 nesse grupo) entre outros. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de export\u00e1-los ou import\u00e1-los apenas, mas pelo tratado, nenhum produto produzido fora de sua regi\u00e3o original poder\u00e1 levar esse \u201cnome\u201d na embalagem. Se seguir como est\u00e1 rascunhado, o Mercosul proteger\u00e1 357 Indica\u00e7\u00f5es Geogr\u00e1ficas Europeias para vinhos, destilados, cervejas e produtos aliment\u00edcios. Ser\u00e1 uma enorme dor de cabe\u00e7a para brasileiros e argentinos e seus muitos imigrantes europeus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O tratado possibilita tamb\u00e9m que empresas dos blocos participem de licita\u00e7\u00f5es e concorr\u00eancias para o&nbsp;<strong>fornecimento de mercadorias e servi\u00e7os para compras governamentais<\/strong>. Nesse caso, estima-se que empresas do Mercosul ter\u00e3o acesso ao mercado de licita\u00e7\u00f5es da UE, estimado em US$ 1,6 trilh\u00e3o, segundo os negociadores brasileiros. Por contrapartida, governos do Mercosul tamb\u00e9m dever\u00e3o abrir suas concorr\u00eancia para empresas europ\u00e9ias. Todos dever\u00e3o competir em p\u00e9 de igualdade e todos os processos devem zelar pela total transpar\u00eancia e cada pa\u00eds membro (no caso do Mercosul) dever\u00e1 garantir que todos os processos poder\u00e3o ser acessados em um \u00fanico ponto de acesso. Como isso ser\u00e1 feito na pr\u00e1tica &#8211; considerando todas as inst\u00e2ncias envolvidas &#8211; eu n\u00e3o consigo imaginar no curto prazo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns n\u00fameros j\u00e1 foram estimados e est\u00e3o sendo comemorados pelo governo Brasileiro:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>At\u00e9 2035 as exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para a UE devem ter ganhos de US$100 bilh\u00f5es.<\/li><li>O PIB brasileiro deve crescer US$87,5 bilh\u00f5es em 15 anos, podendo chegar a US$125 bilh\u00f5es.<\/li><li>O aumento de investimentos no Brasil ser\u00e1 da ordem de US$ 113 bilh\u00f5es no mesmo per\u00edodo.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Volto a ressaltar que o an\u00fancio do tratado \u00e9 apenas o primeiro passo de uma caminhada que pode ser t\u00e3o longa quanto foram as negocia\u00e7\u00f5es. Agora vem o esfor\u00e7o de reda\u00e7\u00e3o e vincula\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, as tradu\u00e7\u00f5es e a ratifica\u00e7\u00e3o em cada um dos Parlamentos envolvidos. Lembrando de como o Parlamento Europeu quase derrubou o acordo UE-Canad\u00e1, a ratifica\u00e7\u00e3o deste pode vir a enfrentar obst\u00e1culos pol\u00edticos muito maiores, principalmente se a bancada verde aliar-se com a bancada nacionalista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para os brasileiros. Bom, estamos todos testemunhando a euforia governista, por\u00e9m eu creio que o uso pol\u00edtico do acordo pelo Presidente e sua base de apoio n\u00e3o deve durar muito. O tratado deve fazer com o que o midi\u00e1tico pol\u00edtico retraia seu discurso liberal em pontos que ele vendeu como promessa de campanha ou mesmo como barganha para aliados. Quest\u00f5es como prote\u00e7\u00e3o ao meio ambiente, libera\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos, rela\u00e7\u00f5es trabalhistas (incluindo a liberdade de associa\u00e7\u00e3o), transpar\u00eancia, entre outros s\u00e3o temas que n\u00e3o poder\u00e3o ser tratados levianamente ou provocar\u00e3o as devidas san\u00e7\u00f5es aos envolvidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00f3prio tratado indica que caber\u00e1 \u00e0 sociedade civil &#8211; atrav\u00e9s de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais ou mesmo sindicatos &#8211;&nbsp;uma participa\u00e7\u00e3o fundamental: tais grupos poder\u00e3o expressar seus pontos de vista e fornecer contribui\u00e7\u00f5es e discuss\u00f5es sobre como o tratado ser\u00e1 implementado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que n\u00e3o \u00e9 dessa vez que o Presidente conseguir\u00e1 \u201cacabar com o ativismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>[Texto publicado originalmente no <\/em><a href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/pulse\/primeiras-impress%C3%B5es-sobre-o-tratado-de-livre-com%C3%A9rcio-claudia-simas\/\"><em>LinkedIn<\/em><\/a><em>]<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s 20 anos de negocia\u00e7\u00f5es, o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia enfim chegam a um consenso sobre o Acordo de Livre Com\u00e9rcio entre os dois blocos. 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