{"id":1737,"date":"2005-10-21T12:57:00","date_gmt":"2005-10-21T15:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.olheagora.com.br\/novidades\/viva-a-lingua-portuguesa\/"},"modified":"2019-06-15T17:14:52","modified_gmt":"2019-06-15T20:14:52","slug":"viva-a-lingua-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cacau.me\/?p=1737","title":{"rendered":"Viva a L\u00edngua Portuguesa!"},"content":{"rendered":"<p>Recebi este texto por email, atribu\u00eddo a uma aluna do curso de Letras da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco):<\/p>\n<p>&#8220;Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposi\u00e7\u00f5es da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas comum maravilhoso predicado nominal. Era ing\u00eanua, sil\u00e1bica, um pouco \u00e1tona, at\u00e9 ao contr\u00e1rio dele: um sujeito oculto, com todos os v\u00edcios de linguagem, fan\u00e1tico por leituras e filmes ortogr\u00e1ficos. <br \/><br \/>O substantivo gostou dessa situa\u00e7\u00e3o: os dois sozinhos, num lugar sem ningu\u00e9m ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, come\u00e7ou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as retic\u00eancias de lado, e permitiu esse pequeno \u00edndice. De repente, o elevador p\u00e1ra, s\u00f3 com os dois l\u00e1 dentro: \u00f3timo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sin\u00f4nimos. Pouco tempo depois, j\u00e1 estavam bem entre par\u00eanteses, quando o elevador recome\u00e7a a se movimentar: s\u00f3 que em vez de descer, sobe e p\u00e1ra justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flex\u00e3o verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em sil\u00eancio, ouvindo uma fon\u00e9tica cl\u00e1ssica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele come\u00e7ou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os voc\u00e1bulos diziam que iriam terminar num transitivo direto. Come\u00e7aram a se aproximar, ela tremendo de vocabul\u00e1rio, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abra\u00e7aram, numa pontua\u00e7\u00e3o t\u00e3o min\u00fascula, que nem um per\u00edodo simples passaria entre os dois. <br \/><br \/>Estavam nessa \u00eanclise quando ela confessou que ainda era v\u00edrgula. Ele n\u00e3o perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu ap\u00f3strofo. \u00c9 claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente ox\u00edtona \u00e0s vontades dele, e foram para o comum de dois g\u00eaneros. Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, car\u00edcias, par\u00f4nimos e substantivos, ele foi avan\u00e7ando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa pr\u00f3clise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta. Estavam na posi\u00e7\u00e3o de primeira e segunda pessoas do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo parox\u00edtono, sentindo o pronome do seu grande travess\u00e3o for\u00e7ando aquele h\u00edfen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edif\u00edcio. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjun\u00e7\u00f5es e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposi\u00e7\u00f5es, locu\u00e7\u00f5es eexclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentua\u00e7\u00e3o t\u00f4nica, ou melhor, subt\u00f4nica, o verbo auxiliar diminuiu seus adv\u00e9rbios e declarou o seu partic\u00edpio na hist\u00f3ria. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma met\u00e1fora por todo o edif\u00edcio. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo n\u00e3o era nem comparativo: era um superlativo absoluto. Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa mai\u00fascula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mes\u00f3clise-a-trois. S\u00f3 que as condi\u00e7\u00f5es eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao ger\u00fandio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo,resolveu colocar um ponto final na hist\u00f3ria: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel \u00e0 l\u00edngua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjun\u00e7\u00e3o coordenativa conclusiva.&#8221;<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi este texto por email, atribu\u00eddo a uma aluna do curso de Letras da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco): &#8220;Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposi\u00e7\u00f5es da vida. 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