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Perdas e danos

~me disseram que você estava chorando~

claro que estava

feliz

olhos brilhantes

quase ~vi~

mas ~me disseram~

e por isso eu chorei

e morri

mais uma vez

no processo de destruir o meu ideal de nós dois

perdi o seu ideal de nós dois

perdi

 

Sinais

Você deve ser uma pessoa muito errada se a plena felicidade de alguém te faz infeliz. Pior, te deixa em um estágio miserável de tristeza. Você pede que te deixem ir e depois os odeia por terem deixado. Pior, você se odeia por odiar. Você quer gritar por socorro mas não quer que ninguém escute – mentira, você quer que uma pessoa apenas escute e faça alguma coisa, mas você sabe que é impossível – por que é embaraçoso. Você é do tipo de pessoa que escuta, nunca que fala e não há mal nenhum em falar ou mesmo gritar de vez em quando. Mas você não consegue. E quer que adivinhem. Não dá. Não dá. Acorda pra vida: não dá pra ser assim, gata.

Os sinais estavam espalhados por aí. A vida, essa irônica, que estava sempre decidindo por vocês. Você já não fazia parte da vida dele. Sem culpa daqui ou dali, mas o fato é os olhos não brilhavam mais, os códigos sumiam aos poucos, as músicas não tocavam mais e, por mais que você procurasse, não havia mais entrelinhas. Cada vez menos até não haver mais… Fim.

E é isso. Eu sei que hoje a sua vontade é chorar até sumir. Mais uma dor absurda. Mais uma pessoa que vive sem você. Mais uma morte mesmo. Mais um fundo do poço e mais um longo caminho sabe lá para onde, mas que precisa ser percorrido. Mas é só isso. A vida é cíclica. Você já passou por isso antes. Mas também sei que passa. Você sabe que passa. Justamente porque já passou em outras tantas vezes. E porque você já passou por isso outras tantas vezes. É isso.

Chore. E durma. Você precisa dormir.

Somewhere (back) in time

Um ano. Não foi bem o momento onde tudo começou, mas foi crucial. Ô! Daqueles momentos que você não quer que passe nunca. De certa forma não passou. Só mudou. Muito. Fica a saudade e uma vontade que aparentemente não tem data para se resolver. Vida que segue.

Eponine

And now I’m all alone again
Nowhere to turn, no one to go to
Without a home, without a friend
Without a face to say hello to
But now the night is near
Now I can make-believe he’s here…

Sometimes I walk alone at night
When everybody else is sleeping
I think of him, and then I’m happy
With the company I’m keeping
The city goes to bed
And I can live inside my head…

On my own
Pretending he’s beside me
All alone
I walk with him ‘til morning
Without him
I feel his arms around me
And when I lose my way I close my eyes
And he has found me

In the rain
The pavement shines like silver
All the lights
Are misty in the river
In the darkness
The trees are full of starlight
And all I is see
Is him and me
Forever and forever

And I know
It’s only in my mind
That I’m talking to myself
And not to him
And although
I know that he is blind
Still I say
“There’s a way for us!”

I love him
But when the night is over
He is gone
The river’s just a river
Without him
The world around me changes
The trees are bare
And everywhere the streets
Are full of strangers

I love him
But everyday I’m learning
All my life
I’ve only been pretending
Without me
His world will go on turning
The world is full of happiness
That I have never known

I love him
I love him
I love him
But only on my own

Vestindo a carapuça

“Resolvi que hoje vamos falar sobre felicidade”, disse a elegante senhora em tom professoral. Naquele momento estremeci. Eram umas trinta pessoas na sala e eu estava certa que era para mim que falava aquela senhora. Justamente porque tudo o que não quero falar é sobre felicidade mas principalmente porque sei que, quando se fala em felicidade, fatalmente se fala de escolhas. Não é uma boa época para me fazer encarar minhas escolhas. Esbarro com elas todos os dias. Um companhia incômoda que faço questão de menosprezar, a despeito da insistência daquilo que acredito ser a minha tal implacável consciência.

Nada me assusta mais do que a plena consciência das minhas fraquezas. Porque a maior delas parece ser a total incapacidade de reagir ou superá-las. Inception. Areia movediça. Covardia de reconhecer que encaixotei minha gana e a deixei em alguma curva do caminho? Não sei. Parece tudo o mesmo. E, enquanto a voz baixa daquela senhora falava em filósofos, estudiosos e nos conceitos de felicidade dos povos e através dos tempos, eu revisitava minhas escolhas, sem conseguir mais discernir o que tinha me levado aonde e assitindo o desfazer da conveniente certeza de que sempre algo de bom sobressaiu ao que parecia ser alguma iminente catástrofe.

A voz era de uma desconhecida mas era meu próprio dedo que se sacudia acusador à frente do meu rosto. Não precisava daquela senhora para me dizer quem sofreria as consequências das minhas escolhas. Eu sempre soube, só preferi nunca falar disso (aquela solução mágica de fazer o problema desaparecer simplesmente por não lhe fazer menção). Agora estou aqui escrevendo. Deve significar alguma coisa. Espero que signifique.

Nos espelhos

Para qualquer casal aquele podia ser apenas mais um quarto acarpetado, com cheiro de amaciante e espelhos por todos os lados. Não para nós dois. Não tínhamos tempo para isso. Demoramos muito para chegar até ali. Quilômetros de desencontro e anos de inacreditável distância. Alguns passos e o chão virou armário e a parede virou cama. Só os espelhos de testemunha. De alguma forma sempre haviam espelhos. Nas fotos codificadas, nos olhos que sorriem e, invariavelmente, nas paredes destes quartos possíveis. Estão ali, multiplicando na rara realidade o que a imaginação e a lembrança arquitetam nas contagens regressivas, entre elucubrações que surgem do nada ou vão de Elba a Piaf. A grande verdade é que tudo some diante dos espelhos. Eu nunca mais fui a mesma depois daqueles espelhos. Melhor, eu nunca mais fui a mesma depois daquele olhar que só conheci porque havia um reflexo no espelho. Reflexos além da cumplicidade. Reflexos da fome, da sede, da vontade, do suor e, sobretudo, do segredo.

O que leio

Leio o que ele escreve com fome de criança na hora da sobremesa. Tão intensa e rapidamente que mal se percebe o gosto. Infeliz é a criança, coitada, que não tem como reviver a experiência além da lembrança. Eu redevoro cada palavra uma segunda vez. Re-sinto cheiros, ressaboreio os gostos. Busco as entrelinhas e me atenho a cada sílaba, cada letra, cada vírgula, cada espaço. Cada novo sentido que descubro mexe com meus sentidos. Às vezes acho que tem um tanto de mim ali emaranhado. Uma pretensão inocente autopermitida pelo encantamento. Revisito cenários e reconheço olhares e repercebo aquela respiração que, descompassada no meu pescoço, me tira o fôlego mais uma vez. A aventura pseudogastronômica me inebria e sou obrigada a reler. Assim, e só assim, com os sentidos confusos e a mente entregue, é que o que leio ganha a profundidade e a leveza certamente pretendidas lá no início, quando a despretensiosa ideia se fez mensagem. Intenso. Sempre intenso.

Off

Tem vez que tudo fica tosco, fosco
E a vontade que era pra ser alavanca é só inércia
Até vai, mas só se alguém chamar,
Até fica, mas só se alguém pilhar
E iniciativa é só vocabulário digno de cargos de chefia
Difícil explicar
Tem vez que tudo é circo, um mico
E a vontade é de dormir sem mesmo apagar a luz
Ou desligar a TV
Quando queria mesmo desligar você.

Welcome, Butterflies

Imagem original aqui.

Certo ou errado

Dia desses tava tudo errado. Deliciosamente errado. Quando vi, tinha ganhado novo pensar vagante. Daqueles que já tive e perdi várias vezes. Mas, principalmente, daqueles que eu adorava não fazer questão porque tava ocupada desocupando a mente, apinhando os dias e frequentando as camas. E foi fácil me deixar errar assim. A cada sábado e domingo. Foi indo, foi indo, foi vindo. A estrada nem cansava, porque tinha o cansar arfante que eu queria durante a breve estadia. Tinha muita risada e ranzinzice. E tinha a porcaria do bolinho de chuva que nunca comi. E aí eu errei. Acho que porque eu nem sei errar direito. Perguntei se tava errada. Não, beibe. Mas a resposta mesmo, certa ou errada, não sei até agora. O certo é que o acerto vai se acertando, se ajeitando. E certos e errados voltam a se ajeitar nas minhas coxas erradamente grossas porque esse é o meu certo. Mas, no fundo, pra mim – ainda – tá tudo errado.

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