100 Anos de Rivalidade – Um Olhar Bear

Eu amaria começar esse relato com o glamour do cronista romântico que pode escrever no título “Meu primeiro Bears x Packers foi…”, mas não posso. E o motivo é simples: eu não lembro. Não lembro ao certo quando comecei a curtir o futebol americano com mais afinco. Eu lembro que a assiduidade aumentou entre 2005 e 2006, quando morava sozinha e, vira e mexe, esbarrava com alguma transmissão. Mas não lembro o primeiro jogo que me chamou atenção. Não fui arrebatada pelo esporte: fui cortejada. 

Conclusão: eu posso ter assistido a algum clássico nesse período sem me dar conta, afinal os dois times se encontram religiosamente duas vezes por ano. Naquele tempo, eu não fazia ideia da rivalidade entre as duas equipes. Na verdade, eu sequer tinha noção de que a história do esporte que eu começava a acompanhar estava totalmente atrelada a estas duas palavras: Bears e Packers. Tola. 

Mas eu me lembro que não demorou muito para que eu me deixasse hipnotizar pela onda Orange & Blue. Talvez pela familiaridade de vê-la sempre representada na cultura pop, talvez a memória afetiva com o impactante Chicago Bulls dos anos 90. Mas o fato é que o Chicago Bears me seduziu aos poucos, como quem não quer nada. No início eu achava que era apenas simpatia, que seríamos amigos com benefícios. Imagina se eu gastaria energia torcendo para time gringo? Logo eu! 

Eu imagino que, se foi televisionado aqui na terrinha, o CHI 26 x 0 GB de setembro de 2006 – coincidentemente o jogo de abertura daquela temporada para as duas equipes – possa ter sido um dos responsáveis por me conquistar. Afinal os locutores e comentaristas devem ter pirado ao ver, ou melhor, não ver Brett Favre marcar ponto algum era algo inédito. Se eu assisti essa partida, provavelmente testemunhei Devin Hester marcar seu primeiro touchdown retornando um punt como atleta profissional. Céus, como odeio minha memória fraca! 

E assim seguiram-se minhas noites de domingo e segunda, vendo o jogo que estivesse passando e torcendo para os Bears quando eles apareciam. As regras iam perdendo o mistério e a fascinação pelo esporte começava a transparecer. Brian Urlacher, Charles Tillmann, Desmond Clark, Alex Brown, Lance Briggs e Devin Hester deixaram de ser nomes aleatórios e eu comecei a perceber que os outros times não importavam tanto. E quando veio a certeza? Nos Playoffs daquela temporada. Acho que mais precisamente no divisional contra o Seattle Seahawks, numa virada que só foi concluída com um field goal (quem diria? mas na época tínhamos Robbie Gould!) e onde precisamos do time como um todo para vencer: ataque, defesa, especialistas e o barulho insuportável da torcida! O Troféu George Halas veio com uma vitória razoavelmente tranquila sobre o New Orleans Saints, do novato Sean Payton e voilà: eu veria as cores azul e laranja no Super Bowl. Sim, é verdade que Peyton Manning colocou os Bears no bolso naquela noite, mas o retorno (mais um) do Devin Hester para touchdown logo no kickoff da partida ninguém tira de mim!

Vince Lombardi e George Halas no Wringley Field.

Voltando à rivalidade desta noite, depois disso eu sei que não perdi mais nenhum clássico. Entendi a relação entre as duas histórias. Descobri que foi George “Papa Bear” Halas que, em 1922, disse que o nome “American Professional Football Association” não era forte o suficiente para o esporte e o mudou para “National Football League”. Ao conhecer Papa Bear mais a fundo foi inevitável conhecer Vince Lombardi. “Só existe um homem a quem eu abraço quando nos encontramos e a apenas um eu chamo de Coach” teria dito Lombardi sobre Halas. Papa Bear foi incansável na defesa da importância dos Packers para a comunidade de Green Bay. Sem a comunidade – que futuramente financiaria o Lambeau Field – não haveriam os Packers. E sem Packers, não existiriam os Bears. Papa Bear dizia os Packers eram nossos rivais mais “felizes”. Nunca entendi bem o que ele queria dizer com isso, mas o legado da rivalidade passou a ser levado muito a sério, em todos os níveis. Ao mesmo tempo que respeitava Lombardi, ele sequer apertava as mãos de Curly Lambeau. Se não havia controvérsia, Papa Bear não estava feliz.

A competitividade e a combatividade foram inseridas e motivadas sistemicamente na centenária história do Chicago Bears. Naqueles tempos os jogadores tinham seus empregos, mas em semana de jogos contra os Packers, Papa Bear marcava treinos extras e pagava qualquer quantia que os jogadores perdessem pelas faltas ao trabalho. Formava-se um time de Monstros, um time de defesas lendárias. Tudo começava a fazer sentido pra mim.

Bears e Packers são os dois times que mais se enfrentaram nesses cem anos e não existe “cumprir tabela”. Todo jogo significa alguma coisa. Em 1999, por exemplo, vencemos os Packers no dia seguinte ao funeral de Walter Payton ao bloquear, milagrosa e inexplicavelmente, o field goal que lhes daria a vitória quando faltavam 7 segundos para o fim do jogo e acabando, assim, com a sequência de dez derrotas para os rivais. “Acho que Walter Payton me levantou porque eu sei que não pulo tão alto assim” disse Bryan Robinson ao fim da partida.

Bryan Robinson no momento do bloqueio mágico que evitou o field goal da vitória do GB Packers.

Não seria honesto falar do que representa essa rivalidade para mim sem falar das derrotas dolorosas. Os tempos não estavam generosos com o torcedor do Chicago Bears. Virginia McCaskey uma vez disse: “Cresci esperando pela aposentadoria do Don Hutson. Depois passei a esperar pela aposentadoria do Brett Favre e agora eles têm Aaron Rodgers. Isso não acaba!” E isso resume bem a doce agonia de torcer pelos Bears. Enquanto somos defesa, eles são puro ataque. A final da Conferência Nacional em 2010 refletiu bem o drama. O primeiro encontro dos rivais em playoffs desde 1941 e nossa primeira aparição em playoffs desde o Super Bowl XLI. Por três períodos da partida, foi jogo de um time só: os Packers. Olin Kreutz jogando machucado porque não tínhamos quem jogasse de center, Jay Cutler saindo no terceiro quarto com uma lesão no joelho e o placar 14×0 para eles em nossa casa. Pra encurtar a tortura desta cronista, os Bears reagiram, Earl Bennett conseguiu uma recepção de 35 jardas e o placar mostrava GB 21×14 CHI mas Sam Shields interceptou Caleb Hanie faltando segundos para o fim da partida. Fim do sonho. Pulando para 2014, na última partida da temporada regular, precisávamos apenas vencer para voltar aos playoffs. Aaron Rodgers também não deixou e perdemos por 55×14.

Vencemos uma partida de Thanksgiving em 2015 no Lambeau Field apenas para estragar o momenttum de Brett Favre, que entrava naquele dia no Ring of Honor. Em 2017 os “cabeça-de-queijo” finalmente viraram o placar geral da rivalidade. Hoje estão com duas vitórias à frente (97, contra 95 vitórias dos Bears e 6 empates). Chegamos a 2018 abrindo a temporada mais uma vez contra os rivais, no Lambeau Field, como parte das comemorações de 100 dos Green Bay Packers. Roy Robertson-Harris tirou Rodgers do jogo e, no susto, abrimos uma vantagem de 20×0. Uou! Teve pick six de Khalil Mack sobre DeShone Kyzer e eu estava em casa apenas curtindo os ventos de Chicago arrasando Green Bay. Foi quando Rodgers resolveu voltar e nossos ventos viraram brisa. O cara com meia perna conseguiu virar o jogo (23×24) e jogar dúvidas sobre a nossa temporada. Ledo engano. Respondemos vencendo o segundo jogo, em nossa casa, protegendo o Soldier Field e, de quebra, garantindo nosso lugar nos playoffs e eliminando as chances de redenção da temporada perdida: Green Bay estava fora dos playoffs pelo segundo ano consecutivo. 

Aaron Rodgers e Khalil Mack no Lambeau Field, Semana 1 da temporada 2018.

O jogo de hoje não é apenas o kickoff de uma temporada festiva. Ele traz toda essa carga histórica. São 22 títulos e 65 membros do Hall of Fame. Todas as cartas estarão na mesa. Rodgers com aquele olhar de “vou estragar sua festa” e Matt Nagy de viseira respondendo com olhar de “manda ver”. Nesses quase quinze anos acompanhando o Chicago Bears, eu nunca os vi tão prontos, tão motivados, tão monstros. Pela primeira vez Aaron Rodgers teve que estudar um playbook e se preparar de fato para nos enfrentar como um adversário que não pode ser subestimado. Estaremos mais uma vez com as quatro unidades no Soldier Field hoje: ataque, defesa, especialistas e a Nação Bears e todo a sua paixão e gritaria e camisas do Dick Butkus, Walter Payton, Gale Sayers, Mike Ditka, Bryan Urlarcher, Matt Forte, Devin Hester. Chicago pulsa por esse jogo e por essa temporada. E esse jogo começou 100 anos atrás. 

BEAR DOWN!

Obs: Post originalmente publicado no NFL de Bolsa.

Sobre Cacau

Carioca. 38 anos. Analista de Relações Internacionais. Flamenguista (herança do S.Beleza). Manqueirense (sambista sempre). Taurina. Soprano. Ruiva (quase sempre, por insistência). Chorona. Apaixonada pela sua família. DVDmaníaca. Fã de MPB, Rock, BRock, Samba e 70's songs. Viúva do Vinícius. Órfã da Maldita. Cantora sem talento. Lamenta não ser contemporânea do Elvis ou Elis. Quer aprender Tango. Viciada em Big Mac e Pinball no PC. Adora futebol E football. Troca facilmente um longo telefonema pela mesa do bar mais próximo. Vive bancando a ostra. Está sempre atrasada. Karateca cuja promissora carreira foi interrompida por uma fratura na mão direita. Lê mais que a média e menos do que deveria (ou gostaria) assim como viaja menos do que merece. É um fracasso em finanças pessoais. Quer ganhar qualquer grana na raspadinha, mas nunca as compra. Curte noitadas de Quizz e Karaokes. Tem insônia semanalmente. Adora dar presentes. Odeia sentir-se impotente. Devotada aos amigos e aos amores.
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