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Vem cá. Fique à vontade. Se espalhe. Aqui você está sempre em casa, cê sabe né? Quer café? Eu faço agora. Forte. Adoro o preparo, apenas por exalar aquele cheiro de fazer esquecer tudo e pensar hmmmm. Vem cá, já vou sentar com você. Nem adianta balançar a cabeça, pois sim, eu vou te mimar. Fez boa viagem? Cê nunca faz né? Esses horários loucos que você arruma… Café tá pronto. Claro que não é dos melhores (não sou especialista em café) mas é de coração. Toma. E olha, surpresa!!! trouxe financiers! Viu? Eu sabia que você ia gostar. Adoro seus olhos brilhando. Já fiquei feliz. Deixa eu falar, não ia contar porque não deu certo, mas encomendei macarons. Não ficou bom. Acho que ninguém faz isso direito por aqui. Já comi alguns (andei experimentando por aqui, que agora tá cheio de “boulangerie”, nova moda) mas se nem entendo de café que bebo desde criança, vou entender de macarons que só conheço cópia? Isso, ria mesmo! Mas em setembro virarei especialista. Ah! Quem sabe até não aprendo a fazer. Tá bom, já tá rindo demais. Mas eu sabia que financiers era mimo garantido. Então estão aí. Todos seus.

Vem cá. Você sabe que pode vir sempre que precisar. Que aqui pode deixar a armadura fora da porta e virar menino. Tem pressa não. Se estique, isso. A armadura pesa. A sua então, sustenta um mundo. Aqui sou eu que te protejo (piscadela). Quer mais café? Ah! Vamos abrir uma cerveja? Tem uma Cacau Ipa na geladeira. Tava guardando pra beber contigo. Melhor cerveja, concorda (gargalhadas)? É, eu sei que tou tagarela. Vem cá. Pode chorar. Não liga se eu chorar contigo. Somos chorões. Dizem que do coração os chorões não morrem. E acho mesmo que chorar junto faz bem. Os corações se compassam (existe esse verbo?) e as perspectivas se afinam. Cê vê, eu tô aqui cheia das nóias e de repente elas perdem a importância porque é o teu choro que tem vez. Ninguém tá vendo. Nem eu (limpando os olhos).

Vem cá, respira fundo. Fica o tempo que quiser. Abra esses curativos improvisados. Deixe a ferida respirar. Aqui tá fresquinho. Aqui nada te machuca. Daqui a pouco elas ardem e se fecham. E vão doer ainda mais um pouco. As marcas podem ficar, deixa eu ver… Sim, certamente ficarão algumas cicatrizes. Cicatrizes são cruelmente sinceras. Basta olhar para ela e lembrar da dor, da ferida. E o que a provocou. E, se houve culpa, de quem era a culpa. Basta olhar para ela e lembrar da cura, da recuperação. E é aí ela vira retrato do quanto a gente cuidou da recuperação. Porque se para a ferida em si até podemos imputar a culpa a outro alguém, para a cicatriz não tem jeito: temos que cuidar, nós mesmos, todos os dias. Curativo após curativo. E se relaxamos ela fica feia, inchada e queloidada, justamente para nos lembrar que nem de nós mesmos soubemos cuidar. É, as cicatrizes são cruelmente sinceras… Tou me repetindo, desculpa. Mas é que quero repetir que eu te ajudo a cuidar. E sei que tem mais gente querendo te ajudar a cuidar. Não se preocupe. Seja menino. Se permita.

Vem cá, não precisa falar nada. Tá bom, prometo que vou me calar. Prometo só fazer o cafuné. Ficarei caladinha. Quer ouvir um som? Não? Tudo bem. Vem cá, deita no meu colo. Vamos ficar em silêncio. Sei que o silêncio é teu conselheiro. Um amigão meu disse uma vez: “O impiedoso e ensurdecedor oráculo do silêncio sempre expõe suas razões.” Nunca concorrerei com o silêncio (não sou besta). Mas de te mimar eu não abro mão. Você mima os seus lá. Zela pelos seus lá. Mas eu mimo você aqui. Zelo por você aqui. Porque lá ou aqui; ontem, hoje ou amanhã, nossos olhares sempre vão se cruzar. E sorriremos mesmo quando precisamos chorar, apenas por termos um ao outro. Palhaço. Vem cá.