Bom dia, Minha Querida!

Nem preciso dizer o quanto sinto de saudade, né? Sei que você acompanha tudo por aí. Sei que você zela por todos nós de alguma forma. E por isso sei que você sabe que minha vida se ajeitou, pois no fim tudo se ajeita e os giros do mundo não me enjoam mais.

Imagino seus olhinhos brilhando e viajando comigo pelo mundo. Sim, Mãezinha, finalmente viajo pelo mundo! Sassariquei (friorenta como você) pelas ruas de Nova York. Foi bem inusitado e, não fosse assim, era bem capaz de eu não ter ido. Mas foi lindo! Cheguei lá no dia de Natal (espero que não tenha ficado brava por não ter ficado com a família) e passei o réveillon na capital do mundo. Sei que você teria se orgulhado. Cores, lugares e sabores que eu queria muito poder ter dividido com você. E agora vou para a Europa, Mãezinha! Imagina o deslumbramento? Tá tudo sendo combinado ainda mas vai acontecer. Te conto tudo depois. Apenas peço por ora que abençoe meus planos.

E meu trabalho? Você tem visto? Também imagino sua carinha de orgulho contando para as pessoas o quão perto estamos de participar de um momento histórico. Estou muito feliz, como há muito não me sentia em minha vida profissional. Em desafio enorme, muitos percalços. Mas eu sigo confiante de existe um trabalho bárbaro sendo feito a despeito do que os sabichões acham que sabem. Sei que você me entederia.

Estou no ônibus, indo passar o dia das mães com a Vi, as crianças e com o seu bisnetinho. Dessas coisas abençoadas que a vida apronta com a gente, Mãezinha, o seu bisnetinho chegou pouco depois da sua partida. Impossível não montar a imagem dele em seus braços e você (que nunca foi lá muito chegada a fotos) não saberia se sorriria ou faria uma careta. Ele iria te nocautear de amores, como fez a cada um de nós e você se surpreenderia com a mãezona que sua neta se tornou.

E a tarefa dela é dificílima! Ele vai crescer num mundo complicado, mais imediatista do nunca. Um mundo onde as pessoas têm achado bonito “fazer justiça com as próprias mãos”. Onde se condena antes de julgar. Onde se julga antes de conhecer e onde o direito de um não acaba onde começa o do outro. Um mundo onde respeito ao outro ficou demodé. Vai ser difícil ensiná-lo essas coisas simples que você nos ensinou.

Vamos tentar, Mãezinha. Não vamos desistir. Sim, porque você sempre ensinou que não devemos ser “fogo de palha”. Vamos estar sempre por perto, lhe enchendo de amores e honrando a sua memória a cada lição que passarmos. Mostrando como usar essa bússola frenética do certo e errado como você nos ensinou.

Por fim, saiba que estamos bem. A saudade não passou. Só parou de machucar. Fique com meu abraço forte, recheado das melhores e mais belas lembranças.

Sua Cacau.