Os admiráveis e o inusitado

Um cafezinho com um amigo no início da noite e novamente a impagável e deliciosa sensação de estar com uma pessoa admirável. Posso reclamar de muita coisa na vida mas uma coisa tenho que reconhecer: ela, a vida, é extremamente generosa comigo me cercando de inúmeras pessoas admiráveis.

O admirável Millôr dizia que “são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”. Mas eu não consigo acreditar que sou apenas uma deslumbrada (não que eu não o seja, mas isso não vem ao caso agora). O fato é que não posso estar assim tão enganada acerca de tantas pessoas. Eu adoro admirar. Simplesmente saltam aos meus olhos as virtudes destas pessoas: inteligência, generosidade, lealdade, responsabilidade, alegria, a simples (e dificílima) capacidade de amar, a (mais difícil ainda) capacidade de se deixar amar ou, em alguns casos até, a sua invejável capacidade de seguir seus sonhos e o seu coração (sim, eu conheço pessoas assim!). Isoladas ou combinadas entre si, eu vejo essas virtudes em vários rostos à minha volta. E agradeço todos os dias por isso.

Diz o clichê que amor sem admiração é amizade. Para mim nem um nem outro existem sem admiração. É como uma paixão – mesmo que um tanto abstrata – mas que uma hora, do nada, vira respeito sólido e indissolúvel. Como adoro sentir orgulho das conquistas e da conduta de quem está ao meu redor. E como é delicioso perceber que são pessoas que não precisam, melhor, que não fazem a menor questão de terem admiradores. Simplesmente são assim: admiráveis, inspiradores. E, mesmo não me sentindo em nenhum momento inferiorizada por nenhuma delas, elas sempre me inspiram a tentar o melhor de mim, a ser sempre alguém melhor.

Também insisto no exercício da simples admiração gratuita, despretensiosa. O deixar os objetos da minha admiração desobrigados da perfeição, simplesmente porque é injusto esperar perfeição de um ser humano (por mais que eu acredite que meus amigos são super-humanos) e mais ainda porque acredito que a estrada para o respeito passa pela tolerância às imperfeições. E aí vem a crueldade da coisa porque, por conta disso, minhas decepções costumam ser traumáticas, dramáticas e torturantes.

Tudo isso explica um bocado o por que hoje me tortura o inusitado: a imperativa necessidade de um específico desamar. Mas como, se ainda sou toda admiração? Não há (nem haverá) decepção para, curiosamente, “ajudar” nesse processo. Só existe a certeza de que outras pessoas também admiráveis satelitam esse meu amor. E isso me conforta, ainda que controversa e timidamente. Uma trilha misteriosa se mostra à minha frente. Temo que me resta esperar um outro clichê: a ajuda do tempo.

Sobre Cacau

Carioca. 38 anos. Analista de Relações Internacionais. Flamenguista (herança do S.Beleza). Manqueirense (sambista sempre). Taurina. Soprano. Ruiva (quase sempre, por insistência). Chorona. Apaixonada pela sua família. DVDmaníaca. Fã de MPB, Rock, BRock, Samba e 70's songs. Viúva do Vinícius. Órfã da Maldita. Cantora sem talento. Lamenta não ser contemporânea do Elvis ou Elis. Quer aprender Tango. Viciada em Big Mac e Pinball no PC. Adora futebol E football. Troca facilmente um longo telefonema pela mesa do bar mais próximo. Vive bancando a ostra. Está sempre atrasada. Karateca cuja promissora carreira foi interrompida por uma fratura na mão direita. Lê mais que a média e menos do que deveria (ou gostaria) assim como viaja menos do que merece. É um fracasso em finanças pessoais. Quer ganhar qualquer grana na raspadinha, mas nunca as compra. Curte noitadas de Quizz e Karaokes. Tem insônia semanalmente. Adora dar presentes. Odeia sentir-se impotente. Devotada aos amigos e aos amores.
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2 respostas para Os admiráveis e o inusitado

  1. EU disse:

    Escreve um livro !!

  2. Roney disse:

    Olha… Acho que vários desses seus amigos poderiam escrever uma crônica igual para vc, viu? Eu pelo menos tive vontade de ter escrito exatamente issopensando em vc e outros amigos preciosos.

    A decepção…

    Ainda outro dia comentei em algum lugar que eu era uma fortaleza intocável até os meus 16, 18 anos.

    Jamais me entregava às emoções, jamais me abria, jamais corria o risco de me decepcionar.

    Descobri que também não corria o risco de amar e ser amado…

    Aí me abri! 🙂

    Só sei que valeu o risco. Sofro de vez em quando, mas me surpreendo com muito mais frequencia do que me decepciono!

    Ah! E vc devia escrever um livro sim!

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