Uma noite sem dormir

Passei grande parte da noite em claro. Ouvindo rajadas de tiros que vararam a madrugada. Moro a menos de um quilômetro da Comunidade da Formiga. Os tiros pareciam estar acontecendo na minha porta. Foi uma sensação angustiante. Mesmo sabendo que era muito improvável que meu quarto fosse atingido por uma bala perdida, não vou negar que, por momentos, a noite foi assustadora.
É triste testemunhar de dentro de nossa casa a guerra que assola meu Rio de Janeiro. É triste ver os cariocas reféns de criminosos que são os únicos que tem pleno o direito de ir e vir. É triste saber que, com muita sorte, talvez apenas os meus netos venham a conhecer a Cidade Maravilhosa tal como ela merece.
Não sou especialista em políticas públicas. Não sei o que fazer de imediato para acabar com esse pesadelo. Uma coisa é certa: na ausência do Estado, alguém sempre se aproveita para “vender” serviços que ele, o Estado, deveria suprir. Podem ser candidatos políticos com suas ambulâncias e seus centros de assistência sociais, ou milicianos vendendo gás e segurança, ou mesmo traficantes oferecendo “trabalho” para as nossas crianças. E, depois de estabelecidos estes “domicílios”, removê-los é uma tarefa hercúlea e ingrata. Em horas como essas, chego a achar que é praticamente impossível.
O momento é de tamanha desesperança que eu nem sei direito qual é o objetivo deste post. Um desabafo talvez. Gostaria de saber o que cobrar de quem. Como cobrar uma solução? Com voto? Com carta? Email? Greve de fome? O que faço eu, cidadã, contribuinte, para ajudar a transformar essa situação? Sinceramente não sei…
Eu espero ter forças para resistir à tentação de me mudar da cidade ou de transformar minha casa num bunker. Quero continuar a sair de casa todos os dias e torcer para que nem eu nem alguém querido acabemos virando mais um número na tosca estatística da violência na cidade. Torço também para que mais pessoas de bem pensem como eu e não abandonem meu Rio de Janeiro, deixando-o de presente para os criminosos. Eles não merecem minha cidade.

Sobre Cacau

Carioca. 38 anos. Analista de Relações Internacionais. Flamenguista (herança do S.Beleza). Manqueirense (sambista sempre). Taurina. Soprano. Ruiva (quase sempre, por insistência). Chorona. Apaixonada pela sua família. DVDmaníaca. Fã de MPB, Rock, BRock, Samba e 70's songs. Viúva do Vinícius. Órfã da Maldita. Cantora sem talento. Lamenta não ser contemporânea do Elvis ou Elis. Quer aprender Tango. Viciada em Big Mac e Pinball no PC. Adora futebol E football. Troca facilmente um longo telefonema pela mesa do bar mais próximo. Vive bancando a ostra. Está sempre atrasada. Karateca cuja promissora carreira foi interrompida por uma fratura na mão direita. Lê mais que a média e menos do que deveria (ou gostaria) assim como viaja menos do que merece. É um fracasso em finanças pessoais. Quer ganhar qualquer grana na raspadinha, mas nunca as compra. Curte noitadas de Quizz e Karaokes. Tem insônia semanalmente. Adora dar presentes. Odeia sentir-se impotente. Devotada aos amigos e aos amores.
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2 Responses to Uma noite sem dormir

  1. Estava Perdida no Mar disse:

    Uhuuu. Até q enfim eu vim aqui. Morri de rir com sua descrição. Voltarei sempre. Beijos @jaqueporto

  2. Alexandre Carvalho disse:

    Ainda bem que em 2005 tomei uma descisão radical, da qual não me arrependo: mudei-me para São Paulo. Rio de Janeiro NUNCA MAIS! A questão da violência aí é apenas a ponta do iceberg.

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