Quero escrever. Quero muito escrever, mas não sei o que. Falar das minhas paranóias, da minha inquietude e da minha paixonite. Mas a primeira é imprecisa, a segunda é momentânea (espero) e a terceira é indescritível e, sinceramente, acho que prefiro mesmo não falar nela. O que eu queria mesmo é escrever fácil, como aquelas pessoas que têm o pensamento ordenado e simples e basta um tema para desencadear o raciocínio e a redação. Ou como os músicos que dedilham facilmente os instrumentos mal olhando para as cordas enquanto eu me esforço para respirar compassadamente. Quero rascunhar um poema, compor uma canção, contar um conto, expor uma teoria, destrinchar a filosofia. Nada. Nada sai dessa cabeça de vento. Assuntos vêem e vão enquanto os vejo passar na janela tal qual a Carolina de Chico. A crueldade da minha total inaptidão criativa não só me frustra, mas me corroe de tanta inveja alheia. Que feio. Que vergonha.


O que será que me falta? Um muso? Não. Disciplina. Provavelmente. Experiências contáveis? É possível. Talento? Com certeza.


Quero escrever sobre os livros que li e sobre os que quero ver. Falar dos filmes que amo e dos que ainda não amo porque simplesmente ainda não os vi. Enumerar as canções que montam a trilha sonora de uma pessoa viciada em sonoridade. Relatar o cotidiano de um escritor que não sabia que escritor era profissão e acabou se tornando outra coisa. Apresentar a família muito única e muito ouriçada. Daquele tipo até bem normal, que briga aqui, reconcilia acolá, mas não tem nenhum dramalhão para contar além da luta para pagar as contas no fim de cada mês. Já sei! A culpa é da escola que não deu livros suficientes para ler ou não me demandou um razoável número de redações na infância. Não. Desculpa canastrã demais até mesmo para mim (a rainha das justificativas injustificáveis).

Quero homenagear meus ídolos, meus heróis, minha geração. Quero citar meus amigos. Os velhos e os novos. São tantas figuras, tantas presenças, tantos presentes. Mas isso me apavora ainda mais porque não me atrevo a restringir o brilhantismo de suas personalidades fantásticas ao meu texto limitado. Falar impulsivamente, sem temer o assunto, a polêmica ou mesmo a luxúria. Mas me sinto cada vez mais incapaz. O que me resta? Pensar em parar. Não, não me conformo. E também não sei o que fazer. Ai que angústia sufocante e gelada.