Na cadência bonita do samba

O samba tem um poder inexplicável. Renova forças, traz energia, traz esperança. Não consigo traduzir em palavras a alegra de ouvir um dedilhado no violão acompanhado por uma batucada por mais simples que seja. Me provoca um torpor totalmente ímpar. Não há nada parecido. É como se os problemas acabassem. Se a insegurança não existisse. Se a saudade não tivesse razão de ser. Alienação? Claro que não! E não sou eu quem afirma. Veja só: “Com os sambistas eu aprendi muita coisa. O samba é uma lição de vida. A alegria do brasileiro, que muita gente chama de alienação, não é alienação. É vontade de dar a volta por cima. É resistência. Isso é samba.” Disse Beth Carvalho em entrevista para a MTV. Não precisa procurar muito. Vinícius musicado por Baden também declara que “há sempre um novo amor em cada novo amanhecer”. É tem ainda o clássico “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” que ouvimos há muitos anos e duvido que não seja o deseja profundo de alguém num momento de dificuldade.

Os primeiros registros sobre o samba no Brasil vêm do século 19 e obviamente estão relacionados aos ritmos introduzidos por escravos praticamente em todo o território. Para chegar ao que o conhecemos hoje, o samba deixou-se influenciar por temperos baianos e malícias cariocas. Uma das características deste novo mestiço tupiniquim é que ele nunca perde a contemporaneidade. Pelo que se tem notícia, o primeiro samba gravado é o célebre Pelo Telefone de Donga que data de alguma data entre 1903 e 1917 (cada site diz uma coisa).

O chefe da polícia
Pelo telefone manda lhe avisar

Que na Carioca
Tem uma roleta para se brincar

Gilberto Gil fez um upgrade e gravou Pela Internet:

Que o chefe da polícia
Carioca, avisa Pelo celular
Que lá na Praça Onze
Tem um videopôquer para se jogar

Quer outro exemplo? Que me perdoem as feministas de plantão, mas toda vez que toca Amélia, o povo se esgoela pra cantar. Homens e mulheres. Vai entender? Acho que a mulherada está um tanto cansada da jornada dupla casa/trabalho e não acha mais tão má idéia assim, ser uma boa dona de casa. Tudo bem que “não tinha a menor vaidade” e “achava bonito não ter o que comer” não são nada inspiradores, mas que o povo canta, canta. E samba muuuuito. Quer mais? Até a Liga das Escolas de Samba passou a autorizar a reedição de sambas-enredos. Por quê? Ora, porque eles não se desatualizam nunca. Fazer o quê, né?…

Não imagino um mundo sem samba. Quando eu era pequena eu acreditava piamente que samba era “coisa de velho”. Hoje, eu já prefiro dizer que, se é assim, então eu sempre fui velha. Tudo bem. Bom, o fato é que este post não tem a menor intenção de ser uma ode ao samba. Ele não precisa disso. Mas para mim é fonte de inspiração certeira. Sempre. Revigora. Encoraja. Anima.

O samba é companheiro e é conselheiro. É mãe e pai. É democrático. É sofista e socrático. É poético e melodioso. Mas acima de tudo é harmonioso. O samba é ritmo. É coração. E assim, sem ele não há pulsação, não há vida. Se houver, é insossa e, definitivamente, arrítmica.

Sobre Cacau

Carioca. 38 anos. Analista de Relações Internacionais. Flamenguista (herança do S.Beleza). Manqueirense (sambista sempre). Taurina. Soprano. Ruiva (quase sempre, por insistência). Chorona. Apaixonada pela sua família. DVDmaníaca. Fã de MPB, Rock, BRock, Samba e 70's songs. Viúva do Vinícius. Órfã da Maldita. Cantora sem talento. Lamenta não ser contemporânea do Elvis ou Elis. Quer aprender Tango. Viciada em Big Mac e Pinball no PC. Adora futebol E football. Troca facilmente um longo telefonema pela mesa do bar mais próximo. Vive bancando a ostra. Está sempre atrasada. Karateca cuja promissora carreira foi interrompida por uma fratura na mão direita. Lê mais que a média e menos do que deveria (ou gostaria) assim como viaja menos do que merece. É um fracasso em finanças pessoais. Quer ganhar qualquer grana na raspadinha, mas nunca as compra. Curte noitadas de Quizz e Karaokes. Tem insônia semanalmente. Adora dar presentes. Odeia sentir-se impotente. Devotada aos amigos e aos amores.
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