Mea Culpa

Da séria série “Falando Sério”: Episódio I

“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

O texto acima é atribuído à Bertolt Brecht e é mencionado no encerramento da cartilha Operação Eleições Limpas lançada pela Associação dos magistrados brasileiros (AMB) para combater o voto nulo. Sou obrigada a dizer que discordo um pouco do ilustre poeta e dramaturgo. Na verdade acredito apenas que o célebre alemão não poderia vislumbrar o que estaria por acontecer no Brasil ao alvorecer do terceiro milênio. Os inúmeros supostos analfabetos políticos brasileiros da atualidade talvez nem saibam que o são. Nasceram como conseqüência de décadas (não tenho medo de estar exagerando) de descaso social. Cresceram alimentados pelo desprezo de seus governantes, testemunhando escândalos sucessivos e nauseantes num crescendo ensurdecedor impregnado de falácias, ousadia e desrespeito. Tornaram-se adultos acostumados à banalização das mais desonrosas práticas anti-sociais (compra de votos, crimes do colarinho branco, negociatas, lavagem de dinheiro, desvios de verbas, corrupção ativa e passiva, nepotismo, tráfico de influência, abuso de poder) convivendo muitas vezes com expressões ou situações menos auto-explicativas (promiscuidade partidária, precatórios, jetons, parlamentares pianistas, confisco, anões do orçamento, fraudes no Sivam/Sudam/Sudene, governabilidade por MPs) e outras tantas que falam por si só (grampos ilegais, juiz lalau, pizza, mensaleiros, sanguessugas). Acostumaram-se, ou melhor, ouso dizer que foram estimulados, a generalizar o político pela sua pior imagem e, conseqüentemente, são mantidos no analfabetismo político à sua revelia. Não lhes foi dada sequer a opção de querer ser um dos tais imbecis citados por Brecht.

Apesar de adorar o estudo e as teorias das Ciências Políticas, eu seria desonesta se dissesse que tenho o mesmo interesse pelo cotidiano das questões relativas à política partidária brasileira. Muito, feio! Sei que não deveria. Afinal, o cidadão é livre para apoiar ou associar-se ao partido político que lhe convier e esta prerrogativa, juntamente com a realização de eleições regulares (livres e idôneas), a livre escolha de candidatos, a liberdade de expressão, a garantia das liberdades e dos direitos civis e a independência dos poderes executivo, legislativo e judiciário, ajudam a compor os pilares do que deveria ser a instituição mais próxima, no nosso caso, de uma democracia representativa.

Fico revoltada com a o cenário político e partidário brasileiro. Sobram falácias, faltam ideologias. Entretanto, estou longe de ser uma militante ou ativista política. Aprendi que “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos”, e assim, além de cumprir meu dever de pagar meus impostos, também exerço meu “direito” de votar. Me orgulho de dizer que nunca votei levianamente. Com exceção da última eleição municipal, sempre votei consciente no candidato que eu escolhia por acreditar ser o melhor e não o “menos pior”. Desde o ano passado, tenho refletido bastante sobre o voto nulo. Pesquisei a legislação para tentar entender bem direitinho a diferença entre voto branco e voto nulo (aliás, que difilculdade para encontrá-la naquela época). Cheguei a acreditar por um tempo no voto nulo como instrumento consciente de protesto. Hoje constato que não fui a única. Infelizmente, palavras rebuscadas e uma legislação verdadeiramente confusa estão permitindo que uma grande parcela de eleitores – que a propósito de analfabetos políticos não têm nada – venha a optar pelo voto nulo. Semana passada eu voltei a pesquisar o assunto em muitos sites, desta vez prestando bastando atenção questão “nulo versus nulidade” (que não havia me despertado a atenção na primeira tentativa), e só consegui entender um pouco a diferença depois de juntar pedaços de interpretações de várias fontes diferentes.

Caso existisse mesmo a chance de anular a eleição, só de pensar nos custos de uma nova convocação (e conseqüentemente, não posso evitar, uma nova chance de se desviar verbas) eu abandonaria a causa de imediato. Por isso a decisão de fazer essa “séria série”. O objetivo não é levantar nenhuma bandeira mas dividir minha opção pelo voto válido, não apenas consciente, mas principalmente genuíno. Mais do que nunca! O que eu quero dizer com isso? Se o seu candidato preferido está em terceiro, quarto, quinto, sexto ou qualquer outro “ésimo” lugar nas pesquisas, não o troque pelo “menos pior” entre os dois primeiros colocados. Em vez de renovação, você terá apenas a boa desculpa para os próximos quatro anos de que não compactuou com o eleito. Sinceramente, acho que isso não é suficiente…

Ora, vamos lá, pense comigo: um freqüentador de blogs em geral tem plena capacidade de pesquisar tudo o que quiser sobre qualquer candidato e formar uma opinião consistente. Aproveite essa oportunidade! Continue visitando os blogs e mesmo fuxicando o Orkut de quem quiser, mas tire também um tempinho para fuxicar o passado dos seus candidatos preferidos.

Bom, já me alonguei demais. Não sei se concatenei direito minhas idéias, mas se você chegou até aqui, acredito que o tema realmente lhe atraia e, assim, segue minha colaboração para a sua pesquisa. Use sem moderação!

Sobre o Voto Nulo:

  • QuatroCantos.Com – lendas e folclores da Internet; mitos, verdades e meias verdades. O texto é um tanto “revoltado”, mas fizeram um super trabalho de pesquisa.
  • TSE – Confunde mais do que esclarece mas, enfim, é a fonte oficial.

Sobre o Voto Consciente e Contra a Corrupção:

Bônus:

  • Política para Políticos – Site/cartilha para quem quer a política como carreira. Tem de tudo, desde clássicos da oratória, dicas para governar, “leis do poder” até o passo-a-passo da campanha, incluindo o “caminho da derrota”. No mínimo interessante.

3 opiniões sobre “Mea Culpa

  • 14 de setembro de 2006 em 09:43
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    Na Veja dessa semana, o Ministro Marco Aurelio de Mello já tinha esclarecido a questão do voto nulo x nulidade.Já conversamos sobre isso e reitero minha opinião quanto a minha total não aceitação do Voto nulo.Não entendo como alguém pode sair de sua casa e não escolher um dos candidatos e que ainda seja pelo critério do “menos pior”.Pelo menos você terá a quem cobrar durante 4 anos.
    Eu tenho sim um candidato em quem confio e vou apoiar.Meu interesse político vai um pouco mais do que simplesmente a cada eleição procurar um candidato, talvez fruto de uma vivência social em movimento juvenil.Acredito sim que o poder emana do povo, mas esse mesmo povo precisa ter um nivel social, educacional, etc muito melhor.A ignorância generalizada para muitos é interessante porque impede que as pessoas tenham o discernimento e um poder de julgamento mais apurado.
    Parabéns pelo teu texto, tua reflexão.Com certeza contribuiu e muito para a informaçào dos teus fiéis leitores.
    Não esquece…
    Grande beijo

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  • 16 de setembro de 2006 em 01:18
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    Muito legal esse post.
    Não sei se voto em branco ou nulo.
    Mas vai ser um dos dois.
    Pelomenos não vou estar ajudando a eleger um canalha, e isso todos eles são.
    A história do Brasil já cansou de provar isso.
    bjs!

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  • 22 de setembro de 2006 em 10:03
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    Claudinha,
    Adorei o seu post. Realmente faz pensar. É estranho ver esse sentimento de descrédito nas pessoas com as eleições ne??
    Enfim..
    Beijocas

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