Essa acabou de passar no JN e diz que o morador de Brasília é brasileiro mais satisfeito com a qualidade de vida oferecida pela sua cidade. O carioca é nono. Dado curioso, considerando as manchetes dos jornais. Esse é um assunto recorrente no meu dia-a-dia. Eu vivo conversando sobre isso. O meu medo de ter que sair do Rio é maior do que o medo da cidade em si. Para mim, seria frustrante e extramente doloroso ter que me mudar da cidade motivada por nada além da vontade ou necessidade de fugir.

Agora, por exemplo, estou lendo “O Rio é Assim – a crônica de uma cidade (1953-1984)”. Coletânea de crônicas escritas por José Carlos Oliveira e organizadas por Jason Tércio. O livro caiu nas minhas mãos literalmente, presente de um amigo querido. Uma visão apaixonada e apaixonante, refletida em textos escritos pouco depois de o Rio ter deixado de ser capital federal. O mais legal é que essa visão pode ser apaixonada, mas em nenhum momento é deslumbrada ou contemplativa por si só. Muitas vezes ela é dura com a realidade da cidade. Oliveira coloca o dedo fundo nas feridas e chama à responsabilidade a sociedade carioca. É como se a paixão e a objetividade do cronista lhe desse a autoridade para falar das coisas ruins e chamar a atenção de quem quer que fosse para mudar a situação. Pena que os anos passaram, décadas na verdade, e ninguém o ouviu. O livro é praticamente uma profecia. Se ignorarmos as datas assinaladas ao final de cada texto, podemos dizer que eles foram escritos na semana passada.

Como está escrito ali no perfil ao lado, detesto sentir-me impotente. Faço minha parte pela cidade. Coisas absurdas até, como ir de metrô mesmo que seja mais demorado pelo simples fato de ser menos poluente (essa é simples informação que cultivo na minha cabecinha, sem pesquisas mais profundas; se for falsa alguém me avise, sim?) até coisas simples e cotidianas, como enfiar papeizinhos de bala no bolso do jeans a jogá-los no chão. Mas minha impotência revela-se implacável quando vejo tanta anti-cidadania nas ruas e má vontade política nos palácios. Bate uma desesperança sem fim. Segundos os pesquisadores (que fizeram a tal pesquisa que citei lá no começo), as conclusões serão muito úteis para os governos identificarem as reais necessidades dos cidadãos. Ai vem minha Hardy particular, aquela, fruto da desesperança que por vezes me assola, e diz que é mais muito fácil ouvir S.Maia e D.Garotinha dizendo “ah, não estamos assim tão ruim, afinal somos o nono lugar!” do que “vamos fazer um trabalho sério e levar a satisfação do carioca ao primeiro lugar entre os brasileiros!”.

Para não terminar de baixo astral, resta-me dizer que o antídoto para sumir com a Hardy nessas horas é mais que óbvio e, desculpem o exagero pleonástico (se é que existe essa expressão): simplesmente simples demais: Rio de janeiro puro. Na veia. Lagoa, praia, Lapa, Urca, quadra da Mangueira (ou da Portela, ou do Salgueiro…), Corcovado, Santa Tereza, CCBB, MAM, sei lá… Qualquer pedacinho vale como overdose. E meu pacto de total e irrestrita fidelidade é reafirmado.