Mês: junho 2012

Nos espelhos

Para qualquer casal aquele podia ser apenas mais um quarto acarpetado, com cheiro de amaciante e espelhos por todos os lados. Não para nós dois. Não tínhamos tempo para isso. Demoramos muito para chegar até ali. Quilômetros de desencontro e anos de inacreditável distância. Alguns passos e o chão virou armário e a parede virou cama. Só os espelhos de testemunha. De alguma forma sempre haviam espelhos. Nas fotos codificadas, nos olhos que sorriem e, invariavelmente, nas paredes destes quartos possíveis. Estão ali, multiplicando na rara realidade o que a imaginação e a lembrança arquitetam nas contagens regressivas, entre elucubrações que surgem do nada ou vão de Elba a Piaf. A grande verdade é que tudo some diante dos espelhos. Eu nunca mais fui a mesma depois daqueles espelhos. Melhor, eu nunca mais fui a mesma depois daquele olhar que só conheci porque havia um reflexo no espelho. Reflexos além da cumplicidade. Reflexos da fome, da sede, da vontade, do suor e, sobretudo, do segredo.

Movimento Ocupe o Flamengo

As campanhas presidenciais no Flamengo já começaram há um tempinho. O primeiro a divulgar suas intensões foi Ronaldo Gomlevsky com seu PlanetaFla. Pouco depois fomos apresentados à Revolução Rubro-Negra que lançou Affonso Carneiro Romero Dantas como candidato. Também já era conhecida a candidatura de Lysias Itapicurú.

Com o entornar do caldo incandescente de um potencial passivo superior à R$ 60 milhões ao fim da atual gestão, alguns ex-presidentes resolveram promover a Central de Oposições. Na prática é, nada mais, nada menos que um movimento anti Patrícia Amorim.

Tal movimento, batizado de Ocupe o Flamengo, é capitaneado pelos ex-presidentes Márcio Braga, Kleber Leite, Delair Dumbrosck e apoiado por ex-diretores e conselheiros como Paulo Dantas e Walter D’Agostino e foi lançado nesta segunda no Teatro Leblon com a presença de mais de 250 rubro-negros entre pré-candidatos, conselheiros, ex-atletas, sócios, torcedores e até políticos.

O discurso é bonito: ter sensibilidade e inteligência para ajudar no que for preciso ainda este ano e alçar um programa consensual e um candidato único e competitivo que represente todas as correntes de oposição pela mudança no modelo de gestão do clube a partir do próximo mandato.

Para tanto, executivos e gestores renomados – e rubro-negros apaixonados – de várias áreas de atuação estão sendo recrutados para que o projeto final a ser elaborado tenha pessoas capazes de tocá-lo com a devida expertise e profissionalismo. Rodolfo Landim, Carlos Langoni e Luiz Eduardo Baptista, entre outros formariam, a princípio, a base desta equipe que visa aplicar ao Flamengo tratamento intensivo de governança profissional (pelo menos, isso já é consenso) e colocá-lo de volta na vanguarda do futebol nacional.

Não vou negar que boa parte dessa gente toda parecer concordar com as diretrizes propostas. Entretanto basta um deles não querer abandonar o seu projeto inicial (no todo ou em parte) para que o plano todo vá por água abaixo. E, sendo muito sincera, acho extremamente complicado convergir não só as ideias, mas todas as vaidades em prol de um programa único.

Porque é disso que estamos falando: um discurso que sabemos estar na ponta da língua (o Flamengo em primeiro lugar) mas será que estará também nas atitudes? Vi várias gerações e várias correntes de rubro-negros naquela sala hoje e acredito que seria necessário um projeto realmente inovador e plausível além de uns pouquíssimos nomes que seriam capazes de lhes atrair para uma chapa única de oposição.

Os primeiros passos foram dados, ainda que independentes entre si, e algo está sendo proposto a tempo de minimizar os danos iminentes. Isso é louvável. Em outros tempos (e até em outros clubes) vimos oposições burras deixarem que as tragédias acontecessem para só então se manifestarem e apresentarem soluções.  Mas acompanhemos todos com atenção. Quem tiver direito a voto deve ter a atenção redobrada desde já. De boas intenções o inferno está cheio e, ao meu ver, estamos muito perto de lá.

O aniversário que não é mais

Muita coisa aconteceu de 27 de novembro até hoje. Muita coisa mudou. De tudo, resta reconhecer que perdi um tantão de referência. Enquanto ela estava aqui, mesmo que eu não assumisse, havia muito de vontade de lhe deixar orgulhosa. Ela conhecia meus sucessos e até desconfiava dos meus fracassos, mas nunca fazia destes grande alarde. Agora tem um vazio que, sete meses depois, ainda não consegui preencher. Como eu disse, a referência se foi. E faço uma força danada para cumprir o corolário do “lhe deixar orgulhosa onde quer que ela esteja”, mas é difícil. Muito difícil.

Ainda não demos destinos às suas coisas. Seu armário continua arrumado. A casa, os móveis, e todas as quinquilharias, ainda do jeitinho que ela deixou. Todas as fotos de quem ela prezava ainda estão lá, penduradas na moldura da bandeira do Flamengo na parede. Tesourinhos de Dalvinha que ninguém se atreveu a mexer ainda. Assim como as redes sociais. Desde dezembro eu empurro com a barriga a transformação de seus perfis internet a fora em memoriais e nunca o fiz. Covardia.

A saudade ainda é absurdamente desoladora. Um aperto que não se explica e aparentemente nunca vai diminuir. Já sonhei inúmeras vezes com ela e dizem que isso é sinal de que ela está bem. Hoje se fecha um ciclo. Depois do primeiro Natal, Réveillon, Dias das Mães e do meu primeiro aniversário (ela fazia questão de ser sempre a primeira a me falar no meu aniversário e ficava danada quando não conseguia) hoje passo o primeiro aniversário dela sem a sua presença. Dói.

A vida seguiu sem sua presença física. Nunca mais nenhuma seresta, Carlos Alberto, Altemar Dutra, Ângela Maria ou Nelson Gonçalves. Nunca mais a lasanha de frango com molho branco ou a preocupação de não passar perfume por causa de sua alergia. Nunca mais indiretas para comida japonesa ou o biquinho que fazia para disfarçar quando dava uma bola fora. Nunca mais o caloroso beijo e o abraço demorado acompanhados de um “meu tesouro” ou “minha rainha” ao chegar… Agora só tenho o arrependimento por não ter dado mais e melhor atenção a tudo isso antes.

A dor até diminuiu, mas o amor ainda é forte e incondicional. E saudade. Muita saudade.

O que leio

Leio o que ele escreve com fome de criança na hora da sobremesa. Tão intensa e rapidamente que mal se percebe o gosto. Infeliz é a criança, coitada, que não tem como reviver a experiência além da lembrança. Eu redevoro cada palavra uma segunda vez. Re-sinto cheiros, ressaboreio os gostos. Busco as entrelinhas e me atenho a cada sílaba, cada letra, cada vírgula, cada espaço. Cada novo sentido que descubro mexe com meus sentidos. Às vezes acho que tem um tanto de mim ali emaranhado. Uma pretensão inocente autopermitida pelo encantamento. Revisito cenários e reconheço olhares e repercebo aquela respiração que, descompassada no meu pescoço, me tira o fôlego mais uma vez. A aventura pseudogastronômica me inebria e sou obrigada a reler. Assim, e só assim, com os sentidos confusos e a mente entregue, é que o que leio ganha a profundidade e a leveza certamente pretendidas lá no início, quando a despretensiosa ideia se fez mensagem. Intenso. Sempre intenso.

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