A ultima angústia que não passa

É isso

Fecho meus olhos e sinto seu cheiro e sinto seu gosto e ouço sua voz baixinha em meu ouvido
E quando eu os abro, não há ninguém além da lembrança da outra noite
E isso dói
É isso
Tem momentos que vejo um mundo inteiro nos seus olhos e no segundo seguinte uma neblina infinita
Porque você o esconde de mim e você se esconde de mim e some, instantaneamente, ainda que presente
E me olha mas não vê, fazendo-me transparente sem querer, eu sei, mas eu percebo o olhar distante
E como dói
É isso
Queria parar de chorar e ser feliz com o que temos e lhe ver como você me vê
Queria ter coragem
Aquela coragem quase insana necessária pra lhe falar o que sinto
Dividir o meu aperto e abrir o meu peito e expor minha jugular
Mas só de pensar em pegar seu rosto com minhas mãos e lhe obrigar me ver do jeito que quero…
E eu já lhe vejo abaixando o rosto e virando-se de costas e partindo e indo embora devagar e decididamente e não sei se posso lidar com isso
Porque isso dói
É isso
Hoje só me sinto uma idiota que percorre essas fatídigas quatro ruas pra se perder novamente
Que procura numa migalha a droga pra se enganar e que muda suas resoluções como lhe convém para conseguir conviver com essa dor
Ô inferno ingênuo esse que em seu emaranhado de rabiscos me enclausura mesmo sem saber!
E pior, do qual eu não consigo sequer saber se quero me libertar…
É isso

O meu mais triste 1º de maio

Não era a época da altíssima conectividade tal como vemos hoje. Meu 1º de maio de 1994 teve uma manhã normal, com reunião do Clube de Castores de São João de Meriti de 9 as 11 (único compromisso que me fazia perder a transmissão de uma corrida de Fórmula 1) e volta pra casa para o almoço de domingo com a família. Não tinha internet, celular, twitter, nada disso. Velhos tempos.

Assim, ao chegar em casa, meu pai me chamou com formalidade e me deu a notícia do acidente com Ayrton Senna. Seu tom era grave e sério como se estivesse se referindo a alguém da família. Eu olhava para ele e para a TV sem entender direito o que acontecia. Não podia ser verdade, não o Senna. E o choro que começou naquele instante só pararia dias depois – junto com o resto do país.

Não é novidade dizer que o Brasil parava para ver Ayrton Senna passar. O tricampeão tornou-se mais uma inspiração esportiva adotada pelo povo (e reforçado pela mídia) para resgatar em seus corações “o orgulho de ser brasileiro”. A “briga” eterna entre os fãs de Senna e Piquet rendia discussões quase tão acaloradas quanto aquelas que aconteciam entre torcedores de Flamengo e Vasco. São inúmeros os momentos inesquecíveis de Senna na memória do brasileiro. Não à toa ele virou o “o rei da rua”, “o rei da chuva”, “o ‘Rei’ de Mônaco”. Ele tinha o carisma que nenhum outro piloto conseguiu demonstrar desde então. O Brasil ensaiou adotar herdeiros deste carisma em outras categorias esportivas e quase conseguiu com Gustavo Kuerten. Digo quase porque no fundo não era a mesma coisa. Não que os novos ídolos não sejam merecedores, mas arrisco dizer que enquanto tivermos as corridas de Ayrton Senna tão vivas em nossa memória, nossos corações estarão subconscientemente fechados. Talvez daqui a mais uma ou duas gerações estejamos prontos para um novo ídolo.