Nolite te Bastardes Carborundorum

Nolite te Bastardes Carborundorum

Todo fã da série The Handmaid’s Tale conhece a expressão em Latim acima. É uma espécie de trocadilho com a própria língua – uma piada interna das aulas de Latim da escritora Margaret Atwood – e significa algo como “Não deixe os idiotas te oprimirem“. Dentro da série, a frase tem todo um contexto de resistência e resiliência, um aviso, um lembrete pessoal diário, quase um mantra, de que – a despeito dos idiotas – existe uma saída.

Não precisamos de uma distopia para pensar nesse termo como algo aplicável ao nosso dia a dia. Muitas vezes nos sentimos mal porque deixamos que alguém nos coloque para baixo (ou fazemos isso com um amigo) com um comentário que talvez nem tenha sido maldoso. Não que estejamos cercados de idiotas. Mas às vezes soamos como se o fôssemos. É um desafio enorme identificar essas situações e superá-las sem trauma.

Hoje me deparei com o discurso do saudoso Stan Lee numa formatura da UCLA. Adivinha sobre o que ele falou? Sim: “If you have an idea that you genuinely think is good, don’t let some idiot talk you out of it.

* Se você tem uma ideia e sabe que ela é genuinamente boa, não deixe um idiota te convencer do contrário.*

Em tempos de tamanha polaridade tóxica, precisamos nos lembrar disso.

Excelsior!

A Vertigem

Sim, eu também já assisti o documentário Democracia em Vertigem da Petra Costa disponível desde quarta (19) na Netflix e a vertigem veio com força. Petra narra todo o documentário, dando um toque pessoal ao fazer paralelos com sua vida e, de alguma forma, nos convidando a fazê-lo também. Junto com o filme na telinha, outro filme passava na minha mente e acredito que assim tenha sido com a maioria arrasadora dos espectadores.

A diretora tampouco esconde sua posição política de esquerda nem sua origem burguesa. No filme, ela se proprõe a contar a história da recente democracia brasileira pela ótica da ascendência e derrocada do PT no poder, e vai muito além, ao provocar a contextualização histórica do nosso quadro social. Chega mesmo a fazer uma crítica ao próprio PT que abandonou seus princípios e sua base popular ao escolher suas alianças para a governabilidade. Todo o fio é bem conduzido e as idas ao passado bem contextualizadas.

Chorei em várias passagens e, no fim, posso dizer que me causou profunda melancolia. Imagino que tenha sido assim com qualquer um que esteja à esquerda no espectro político. Somos chamados ao sonho integratório que Brasília deveria representar e ao pesadelo em que seu distanciamento dos grandes centros se transformou. Do brilhantismo simbólico abraçado em seu projeto arquitetônico (a proximidade dos três poderes e a sua total independência) a todos os pecados capitais (desculpe o trocadilho) cometidos para sua entrega. Também somos lembrados do flerte entre a política e o capitalismo na construção da capital e esse é, inclusive, um dos ganchos para o salto à realidade atual do filme.

O que vemos ali na tela, cena após cena, é nosso passado recente e, portanto, com pouquíssimo distanciamente histórico. O que me causou tristeza foi ver o filme acertar ao mostrar como, ponto a ponto, a classe trabalhadora brasileira evoluiu na luta política, ganhou protagonismo, foi traída por seus representantes mais caros, se equivocou no revide, optou por recuar na luta histórica e permitiu que a classe média a convencesse de tercerizar suas pautas escolhendo um governo distante de sua realidade. O governo do liberalismo de oportunidade ou de ocasião. De conveniência.

Nem vou entrar no mérito do real liberalismo (não esse que temos aí). Apenas me refiro à realidade brasileira: nossa jovem repúplica e nossa ainda mais jovem democracia não tem a menor chance de ser completamente liberal. Acredito nisso com toda a força do meu ser. Entendo – como já publiquei aqui anteriormente – que é preciso que haja uma conciliação entre os interesses coletivos e os interesses individuais, assim como os interesses públicos e privados. O Estado precisa ter o tamanho exato para prover educação, saúde e segurança a todos porque não temos saúde institucional para o Estado mínimo. E isso não quer dizer que aceito a máquina administrativa inchada, burocrática e inoperante que temos hoje.

Mas voltando ao filme e ao pseudo-liberalismo que compramos nesse pacote “pós PT”. Me parece que tudo o que vivemos atualmente – e mais no que nunca em nossa história – é o “qualquer coisa de conveniência”: além do liberalismo de conveniência, temos o processo legal de conveniência, o combate à corrupção de conveniência, o impeachment de conveniência! É a era do “fim justifica os meios”, mas que fim? Apenas o fim que convém a alguns. Isso também aparece no filme, quando ele mostra os já notórios áudios do “grande acordo nacional, com o supremo, com tudo”. E reforça nossa melancolia ao perceber que, mesmo validados, seu conteúdo não espantou quem bateu palmas e panelas para o impeachment. Afinal, era contra o PT. E para tirar o PT vale tudo: “vamos acabar com o ativismo!”, “vamos fuzilar os petralhas!”.

Representar qualquer parte do grande espectro da esquerda praticamente voltou a ser subversivo. Homo homini lupus (Hobes deve estar dando pulos onde estiver). O brasileiro transformou aquele que não pensa como si em inimigo. Também está no documentário: a senhorinha comemorando a prisão dos ativistas contrários à sua causa apenas por isso, por serem contrários à sua causa. Não debatemos mais ideias: atacamos as pessoas. Essa é uma das lições de um guru astrólogo – fisólofo de araque – passada boca à boca (ou zapzap a zapzap) e colocada em prática por seus asseclas sem questionamento. E pior: aceita pelos populares.

Acho que o grande mérito do documentário é a sua fé de que sua missão seja que, entendendo o que aconteceu, podemos voltar a acreditar num futuro melhor. Nesse momento, talvez pela falta do já citado distanciamento histórico, ou mesmo por conta das lamentáveis e super questionáveis desmontrações individuais de falta de humanidade e cidadania validadas pelo novo governante e sua trupe, eu ainda não partilho desse nobre sentimento. Espero voltar ao modo Polyana em breve.

#Aos40

Quarenta. Pesado. A força de um número que assusta, afugenta, pira. Tanto que tá aí, atraso de um ano para escrever sobre o assunto. O título, meus caros, mais justo e mais honesto, deveria ser #Aos41. Porque agora passou o susto. Agora sai. Agora, oras, é tudo muito mais simples. Mentira! Um pouquinho só mais simples. Mas muito menos torturante, talvez até elucidante e, com sorte, um tanto enebriante. O fato é que a resignação chega benevolente e o número em si perde bastante da força. Na verdade ganha em charme.

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No sentido horário:
aos 40, aos 10, aos 19 e aos 30.

A despeito da pressão do tempo e da força da gravidade (implacável aos sedentários como eu), uma série de novas percepções chegam (sim!) para dar charme a quase todos os aspectos desta quarta década. Ameniza-se principalmente (e providencialmente, convenhamos) a obrigação de provar algo a alguém. A sentença usualmente proferida pelo júri da roda viva do mundo que tudo vê e nunca descansa perde o sentindo e o poder sobre você. Se provou o que se queria nos trinta, ótimo; se não, dane-se. A prioridade agora é ter outras prioridades. É viver o que não se viveu porque até então era vital provar seu valor. O foda-se sincero e libertador que, acreditem, dificilmente chega ainda nos trinta. Também é hora do desapego da pressa e, assim, some de vez qualquer resquício da necessidade daquela coisa toda, do tudo ao mesmo tempo agora. É tudo agora, mas é do meu jeito. Sem o torpor, o fulgor, a energia e a obrigação cliché da eterna mulher moderna. Intensidade e suavidade coexistem numa harmonia disléxica porém conveniente para determinar um ritmo novo e particular, um novo olhar. Novos brilhos no olhar.

Até as cicatrizes doem diferentes. O “só me arrependo do que não fiz” perde sentido até para ser tema de camiseta. É o tempo da serenidade que permite que se reflita, sem dor ou autopiedade, sobre as escolhas ruins e perceber que sim, havia um jeito de fazer diferente que facilitaria muito as coisas. Poder dizer que errou e que não vai errar de novo nesse tipo de escolha porque essa dor não queremos mais. Enfim a confiança! A segurança que chega e dá sentido àquele verso oitentista que fala do “certo ar cruel de quem sabe o que quer”. E o que não quer.

Deve ser isso que alguns chamam de maturidade. Oxalá que seja. Ainda não resolvi a distância entre mim e os quarentões da minha infância. Tenho uma velha sensação de que aqueles lá estavam sempre ocupados demais sendo adultos enquanto eu aqui só quero sossego, simplicidade, bom humor e boa companhia. Porque nesta altura também se conclui depois de duras penas que solidão a dois (ou a três ou a xis) é das bostas do mundo umas das mais fedorentas. Você é livre para escolher sua companhias, seus amores e seus amigos. E sabe agora que não vale amar por mais ninguém. Vale amar por si só os seus eleitos e amar-se sem culpa, antes de tudo. Sensibilidade que se redefine.

Agora, #Aos41 já sei que esse planeta denominado #Aos40 é mais que habitável: é confortável. Nele, a terra é a certeza do hoje, ainda que ainda haja inúmeras paisagens a desbravar; o oceano é escolha, cheios dos altos e baixos que podem até mexer com seu estômago, mas não te enjoam mais tão facilmente; e o céu – ah! o céu! – se você tiver sorte, ele nada mais é que uma atmosfera de integridade, resquícios das suas respirações pausadas ou ofegantes, não importa, mas que lhe encherá o peito e involuntariamente erguerá sua cabeça. Quem não quer esse mundo?

O que eu quero? Respeito!

Lá se vai mais de um século de Dia Internacional da Mulher. Em tempos de acesso simples a fontes históricas, nunca houve tanta gente sem saber exatamente do que se trata. É quase uma festa. Um dia de homenagens. ~Parabéns, por ter nascido mulher, por ser linda e delicada e sensível e por ter o dom de gerar a vida~ e por aí vai. Não! Não quero parabéns por ter nascido com útero. Quero respeito! E (me desculpe, Aretha) nada de a little. Quero todo o respeito que mereço. No mínimo do tamanho desse século de lutas.

Vejamos o videozinho abaixo e sejamos totalmente honestos: quantos destes rótulos nós já não repetimos, em voz alta ou em voz baixa, voluntária ou involuntariamente?

Essa é apenas uma das lutas diárias. Pela igualdade de fato. Contra o machismo entranhado que nem sentimos. Contra o sexismo aceitável da piadinha ou do assédio. E agora, contra a “festivização” do 8 de março. Não é o endeusamento da mulher. Parem! Não minimizem ou banalizem a batalha de tantas mulheres que arriscaram vidas e reputações e empregos para que hoje possamos ter voz, ter representatividade, ter escolha. Ter escolha. A escolha de ser quem e o que quisermos. E que essa escolha, ou melhor essas – todas e quaisquer – escolhas sejam respeitadas.

No meu imaginário perfeito, no Dia Internacional da Mulher, a mobilização seria para o exercício do anti-sexismo. Escolinhas, escolas, universidades, centros comunitários, empresas, programas de TVs, todos colocando o dedo na ferida das piadas ofensivas tão toleradas (ou aceitas e propagadas mesmo) de cunho sexista. Debatendo os cenários de humilhação e escárnio do revenge porn.  Desenhando os direitos e deveres dos cidadãos – da igualdade desses deveres e direitos – e aplicando isso ao direito de ir e vir da mulher – com a roupa que bem entender – e que isso não dá a ninguém o direito de abordá-la à revelia da sua vontade e muito, muito menos de estuprá-la com base num julgamento deturpado de valores e poderes. Só exemplos, claro.

Neste Dia Internacional da Mulher perfeito, não haveria acusações gratuitas de ~feminazismo~ por celebrarmos estas vitórias históricas ou cotidianas. Apenas uma perene e linda ode ao respeito. E assim, quem sabe um dia, não respeitaremos homens ou mulheres: respeitaremos a pessoa.

Os admiráveis e o inusitado

Um cafezinho com um amigo no início da noite e novamente a impagável e deliciosa sensação de estar com uma pessoa admirável. Posso reclamar de muita coisa na vida mas uma coisa tenho que reconhecer: ela, a vida, é extremamente generosa comigo me cercando de inúmeras pessoas admiráveis.

O admirável Millôr dizia que “são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem”. Mas eu não consigo acreditar que sou apenas uma deslumbrada (não que eu não o seja, mas isso não vem ao caso agora). O fato é que não posso estar assim tão enganada acerca de tantas pessoas. Eu adoro admirar. Simplesmente saltam aos meus olhos as virtudes destas pessoas: inteligência, generosidade, lealdade, responsabilidade, alegria, a simples (e dificílima) capacidade de amar, a (mais difícil ainda) capacidade de se deixar amar ou, em alguns casos até, a sua invejável capacidade de seguir seus sonhos e o seu coração (sim, eu conheço pessoas assim!). Isoladas ou combinadas entre si, eu vejo essas virtudes em vários rostos à minha volta. E agradeço todos os dias por isso.

Diz o clichê que amor sem admiração é amizade. Para mim nem um nem outro existem sem admiração. É como uma paixão – mesmo que um tanto abstrata – mas que uma hora, do nada, vira respeito sólido e indissolúvel. Como adoro sentir orgulho das conquistas e da conduta de quem está ao meu redor. E como é delicioso perceber que são pessoas que não precisam, melhor, que não fazem a menor questão de terem admiradores. Simplesmente são assim: admiráveis, inspiradores. E, mesmo não me sentindo em nenhum momento inferiorizada por nenhuma delas, elas sempre me inspiram a tentar o melhor de mim, a ser sempre alguém melhor.

Também insisto no exercício da simples admiração gratuita, despretensiosa. O deixar os objetos da minha admiração desobrigados da perfeição, simplesmente porque é injusto esperar perfeição de um ser humano (por mais que eu acredite que meus amigos são super-humanos) e mais ainda porque acredito que a estrada para o respeito passa pela tolerância às imperfeições. E aí vem a crueldade da coisa porque, por conta disso, minhas decepções costumam ser traumáticas, dramáticas e torturantes.

Tudo isso explica um bocado o por que hoje me tortura o inusitado: a imperativa necessidade de um específico desamar. Mas como, se ainda sou toda admiração? Não há (nem haverá) decepção para, curiosamente, “ajudar” nesse processo. Só existe a certeza de que outras pessoas também admiráveis satelitam esse meu amor. E isso me conforta, ainda que controversa e timidamente. Uma trilha misteriosa se mostra à minha frente. Temo que me resta esperar um outro clichê: a ajuda do tempo.

Feliz 2011

A cada ano que passa, sinto que de 31 de dezembro de um ano para o 1 de janeiro de outro não passa de… uma noite. Vira-se calendário mas continua sendo só um dia após o outro. Não consigo mais me encher de esperanças de que, com a mudança de um dígito no calendário, minha vida vai mudar. Quero acreditar em novas oportunidades, novos ciclos, mas estou sem energia para tanto.

Entretanto, sei que sou uma pessoa de extrema sorte por ter à minha volta pessoas que não são como eu e, para elas, um novo tempo de renovação e esperança está por começar. E é a cada um de vocês, que abrilhantam meu cotidiano com suas presenças inspiradoras e iluminadas que eu dedico toda a energia que eu consigo capturar do fundo do meu ser para desejar que 2011 seja fantástico, maravilhoso, sem igual, muito melhor do que 2010 e apenas bonzinho se comparado com o que serão 2012, 2013, etc.

Vocês, aqui, no twitter, no Rio ou em Resende, fizeram com que 2010 não fosse completamente inútil e esquecível. Espero retribuir em 2011 ajudando a realizar seus sonhos, compartilhando alegrias ou apenas estando presente quando de mim precisarem. Muito obrigada por existirem!

Feliz Natal

Não sou mais tão religiosa como a criança carola que fui um dia. Natal para mim é pouquíssimo mais que uma reunião de família. Importante para abraçar apertado meu pai e minha mãe e lembrá-los do quanto sou grata por tudo o que me deram. Importante para ligar aos amigos e dizer-lhes o quando são amados. E importante para me lembrar de que eu não deveria precisar do Natal para isso.
Então, antes de listar esse lembrete como uma nova resolução de Ano Novo, deixo aqui meus sinceros votos que o Natal de vocês seja belo, singelo, tranquilo e na companhia de quem mais lhes seja caro. Que este espírito de alegria invada seus lares e nele permaneça por todo o Ano Novo. O importante é ser feliz! Sempre e para sempre!