Que horas a gente volta?

Que horas a gente volta?

Defendido pelos eleitores e pela base de apoio do atual governo como uma “exceção técnica” num rol de indicações pra lá de duvidosas, o Ministro Paulo Guedes acabou se revelando a velha e boa farinha do mesmo saco ao declarar, no último dia 12, que “doméstica ia para Disney com dólar barato, ‘uma festa danada’” e, por isso, era conveniente ter a moeda brasileira tão desvalorizada frente ao dólar americano. Técnico ou não, com essas exatas palavras, ele acaba confessando que o governo vai sim lançar mão de ferramentas liberais a qualquer preço. O que parece cada vez mais claro é que manter a gritante desigualdade social brasileira não parece mais ser uma mera casualidade, um custo a ser pago pela recuperação econômica. Trata-se de um claro objetivo.

“Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos importar menos, fazer substituição de importações, turismo. [Era] todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada”.

Paulo Guedes

Na esteira do impeachment, nosso congresso aprovou as reformas que enormes e grandes e médios e pequenos empresários tanto pediam. Tudo com a chancela da imprensa corporativa (olha, mais empresários!) que vivia a repetir que sem tais reformas o país emperrava. Concessões foram feitas à boa e velha base aliada, e os mais humildes se viram esmagados pelo rigor de regras liberais com zero piedade ou tampouco regras razoáveis de transição.

Bom, tem gente aí muito mais capacitada para falar sobre isso do eu. O que eu quero dizer é que o governo representa muito bem seus eleitores. São muitos os que pensam exatamente assim: que o pobre esqueceu o seu lugar. Usando como exemplo o tema “viagens” escolhido pelo Ministro, eu mesma cresci achando que viajar não era pra mim. Criada na Baixada Fluminense, na base da bolsa de estudos da escola particular, formada na faculdade também com bolsa porque a empresa onde eu trabalhava cobria 75% do valor das mensalidades, cheguei à vida adulta e profissional achando que nunca teria grana suficiente para viajar, a despeito de ver colegas próximos viajando todo ano nas férias. Só fui descobrir que podia viajar ao exterior aos 40 anos, quando uma amiga – que ocupava o mesmo cargo que eu – planejou uma viagem para Nova Iorque e me mostrou os números dos parcelamentos de passagens e hospedagem e como daria para usar o abono de férias para comprar os dólares que usaríamos por lá. No ano seguinte, usando a mesma tática dos parcelamentos prévios, fiz minha primeira viagem para a Europa. O ponto é: até então, e mesmo ganhando bem, eu acreditava piamente que viajar não era para mim.

O ator Paulo Vieira relatou numa thread no twitter que teve uma baita crise de culpa por estar consumindo itens da Apple em Nova Iorque e que seu lugar não era lá. Bateu a bad que o que ele gastaria podia pagar vários meses de aluguel e que tinham parentes próximos passando necessidades, em situação de tabalho escravo enquanto ele passeava no Central Park. Mesmo tendo trabalhado para receber cada centavo, ele tampouco acreditava que podia estar ali.

E é aí que quero chegar. Essa seria uma bela semana para levantarmos aquela velha e batida hashtag #SomosTodosDomésticas porque é isso que somos. Somos todos as domésticas do Guedes, de seus amigos e seguidores. Eles querem se sentir únicos, especiais e não querem a classe média emergida nos governos anteriores dividindo seus privilégios. Eles têm horror a isso! Quem lembra da Danuza reclamando que ricos já haviam perdido o Carnaval, o Maracanã e os fogos na Praia de Copa para os populares e que agora, por R$50 mensais, os porteiros também podiam ir para Paris ou Nova Iorque? “Que graça tem?” perguntava a colunista.

Ou alguém já esqueceu da professora da PUC que legendou uma foto em seu feed com “Aeroporto ou rodoviária” referindo-se a uma suposta queda no glamour e no nível social dos frequentadores do aeroporto. Sua indignação foi alvo da empatia de outros professores e até mesmo do reitor da UniRio, mostrando que nem da docência podemos esperar sempre a decência de respeitar o próximo. Dia desses, um jovem senhor comemorava no Facebook (perdi o print [update: achei o print e o deixo no fim desse parágrafo]) que o novo governo estava colocando as “coisas” no lugar pois ele havia conseguido empregados (garçons e copeiros) para a sua festa de réveillon sem que eles ousassem pedir um preço exorbitante (diga-se decente) para serví-lo e a seus convidados. São pessoas que acreditam que contratar é fazer favor e por isso a precificação tem que ser unilateral. Se você quiser exemplos que se atualizam diariamente, pode passar nojinho vendo a timeline do perfil @VagasVNTC no twitter onde praticamente existem provas cabais de que estamos a um passo da volta da escravidão.

Em 2017, João Amoedo escreveu com todas as letras que era a favor do combate à pobreza porém contra a distribuição de renda, seja lá o que isso quer dizer. Eis aí a nossa elite descarada, sem máscaras. A mesma elite que hoje tenta imputar um tom professoral ao discurso do ministro para tentar justificar o constrangimento inicial. De nada adiantou: o dólar disparou e – para desespero dos liberais e asseclas acéfalos do governo – foram necessárias algumas subsequentes intervenções do Banco Central no câmbio para acalmar o Mercado.

Nessa semana, por coincidência ou não, Que Horas Ela Volta estava passando na TV. E rever o filme após todo esse imbróglio do ministro fez com que ele ganhasse todo um novo significado aos meus olhos. Ele deixou de ser apenas sutil e poético para ser visceral na mensagem. Acho que eu não o entendi completamente quando o assisti pela primeira vez. Mas agora vejo porque ele incomodou tanto, demais. A polifonia dos diálogos entre Val e Jéssica – mãe e filha, empregada e vestibulanda, submissa e enfrentadora – sobre como cada um descobre o seu lugar, essa noção quase que sobrenatural que nasce com o pobre, segundo a mãe, e quem diz que lugar é esse, onde está escrito, questiona a filha, é uma pérola de Anna Muylaert. E Dona Bárbara? Essa é o próprio Guedes na tela, com direito à mesma expressão de nojinho de pobre.

Que horas a gente volta? Quem a gente pensa que é para querer voltar?

Primeiras impressões sobre o Tratado de Livre Comércio UE x Mercosul

Após 20 anos de negociações, o Mercosul e a União Europeia enfim chegam a um consenso sobre o Acordo de Livre Comércio entre os dois blocos. Nunca foi uma negociação fácil e a conclusão dos trabalhos, anunciada ontem (28) em Bruxelas, traz a mensagem de que grandes negociações ainda são possíveis. Em meio à tensa e polarizada conjuntura atual, os dois lados da mesa tem estado à margem das grandes negociações protagonizadas entre a China e os Estados Unidos desde a posse de Trump e, para o Mercosul especificamente, a preferência dos europeus para o nosso mercado consumidor é um claro recado de que o bloco não é um participante inóquo no sistema internacional. Outros países devem passar a olhar para o bloco de forma diferente.

Com números atuais, estamos falando de €88 bilhões em mercadorias (com equilíbrio bilateral) e €34 bilhões em serviços (70% favorável à UE) num grande mercado econômico que representa 25% do PIB mundial e envolve 780 milhões de pessoas. Além do agronegócio e da indústria, o acordo abrange segmentos de serviços, como comunicação, construção, distribuição, turismo, transportes, serviços profissionais e financeiros e permitirá que mais de 90% dos produtos sejam comercializados entre os blocos com tarifa zero, gerando uma economia estimada superior a €4 bilhões por ano em impostos. 

Acho importante salientar que não é auspicioso se deslumbrar apenas com tais números ou com as manchetes que, obviamente, ressaltam que esse é o maior acordo comercial que a União Europeia já concluiu e, no caso do Brasil, o impacto pode ser maior que as aberturas econômicas alavancadas por Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Isso é fato. Porém, o fim de tão longas negociações também reflete o cenário político de cada um dos envolvidos: a proximidade do fim do mandato da atual Comissão Europeia, por exemplo, e até mesmo as eleições na Argentina. Em ambos os casos, numa eventual vitória das respectivas oposições, este tratado estaria fadado a mais alguns muitos anos de discussão. As duas décadas de negociações se justificam pela enorme assimetria entre os blocos, suas prioridades diferentes e pelos interesses próprios que até dentro do Mercosul eram complicados de serem equalizados. Logo, não se deve negar nem subestimar o peso de diversas pressões políticas nas premissas concedidas pelas partes. 

Agora os grupos técnicos iniciarão as tratativas legais para a devida redação e necessárias vinculações jurídicas. É preciso ter muito cuidado para não cair da tentação da adivinhação do futuro mas, com base no pouco que já foi liberado de oficial sobre o tratado, é possível sim fazer algumas considerações sem medo de leviandade.

O agronegócio do Mercosul talvez seja um dos grandes beneficiados do tratado. Isso explica boa parte da festa por parte dos governistas, obviamente impulsionada pela bancada ruralista. No entanto, somente poderemos bater esse martelo depois de analisar dois pontos:

1) O tratado deve seguir os padrões europeus no que diz respeito à legislação sanitária e fitossanitária além de adotar o “precautionary principle”. O princípio de precaução sempre foi inaceitável, um dealbreaker para os negociadores do Mercosul. Pelas regras atuais da OMC, o país importador precisa provar a existência de algum dano (seja no tocante à saúde humana, animal ou ambiental) antes de restringir a importação. Agora, com o princípio de precaução, um governo poderá impor barreiras – mesmo se baseando em estudos não conclusivos – e é o exportador que deve provar que a respectiva exportação não causa dano. Como disse o ex-negociador Pedro Camargo Neto: “há um importante caráter simbólico ao cedermos em uma questão de princípio“.

2) A questão das cotas de produtos ainda não foi detalhada. O que sabemos hoje remete às negociações de 2004, por exemplo, quando – também segundo o ex-negociador Pedro Camargo Neto – o Brasil exigia cota de no mínimo 300 mil toneladas de carne contra a oferta de 99 mil toneladas por parte da UE. Era um ponto tão forte para as partes que paralisou a negociação por anos. Em maio, o Chanceler Ernesto Araújo fez a seguinte declaração em entrevista: “É importante mencionar que do caso do Mercosul, e muito especificamente do Brasil, nesses últimos meses temos feito grandes esforços para renovar nossas posições e atualizá-las de uma maneira que permitam a conclusão do acordo”. Isso indica que um dos esforços pode justamente ter sido o recuo no posicionamento relativo às cotas (assim como recuamos na questão de abandonar o Acordo de Paris). Mesmo sendo o agronegócio um setor altamente rentável, com menor valor agregado e pouca utilização de mão de obra, não sabemos o impacto das cotas nessa equação. O tratado garante ao Mercosul o acesso preferencial para a exportação de carnes bovina, suína e aves, açúcar, etanol, arroz, ovos e mel, entre outros, mas será que as cotas serão suficientemente satisfatórias para compensar a as importações que receberemos dos produtos industrializados europeus notoriamente mais competitivos do que os nossos? 

Já que chegamos aos produtos industrializados, o sentimento inicial é de que os industriais do Mercosul saem como os maiores prejudicados do tratado pois devem perder para os europeus o mercado latino-americano que tinham. Os parques industriais tanto do Brasil quanto da Argentina estão longe do auge de suas saúdes financeiras e apresentam um baixíssimo nível de competitividade. Além disso, um ponto importantíssimo também foi levantado pelo Daniel Rittner – do jornal Valor Econômico – sobre as regras de origem: “Para ser considerado original, um produto feito no Mercosul precisa ter no mínimo 60% de peças, insumos ou componentes locais. A UE costuma ser mais flexível com esse percentual. Como ficou no acordo? Se a regra de origem for muito baixa, corremos o risco de importar produtos travestidos de ‘europeus’, com tarifa zero, que são na verdade japoneses, vietnamitas, egípcios ou sabe-se lá de onde.” E finalmente, para equalizar os diferentes padrões técnicos, o tratado deverá considerar apenas os padrões internacionais – o que é bom para o Mercosul – porém não estão descartados o uso de medidas de salvaguarda que qualquer das partes pode lançar mão quando achar conveniente. Ponto que também deve ser detalhado no futuro.

Um outro ponto de atenção diz respeito à questões de propriedade industrial/intelectual e indicação geográfica. O acordo inclui disposições que cobrem Direitos de Propriedade Intelectual sobre direitos autorais, marcas, desenhos industriais, indicações geográficas e variedades de plantas. A seção sobre Direitos de Propriedade Intelectual também cobrirá a proteção de segredos comerciais. Teoricamente, nada mais justo. Mas como manteremos, por exemplo, a quebra das patentes que originou todo o programa de medicamentos genéricos do Brasil? Sobre a indicação geográfica, estamos falando daqueles produtos que, de tão famosos, são batizados com sua denominação de origem: champagne, queijo parmesão, mortadela bologna, presunto de parma, queijo minas e até a nossa cachaça (que foge à regra do nome mas está nesse grupo) entre outros. Não é uma questão de exportá-los ou importá-los apenas, mas pelo tratado, nenhum produto produzido fora de sua região original poderá levar esse “nome” na embalagem. Se seguir como está rascunhado, o Mercosul protegerá 357 Indicações Geográficas Europeias para vinhos, destilados, cervejas e produtos alimentícios. Será uma enorme dor de cabeça para brasileiros e argentinos e seus muitos imigrantes europeus. 

O tratado possibilita também que empresas dos blocos participem de licitações e concorrências para o fornecimento de mercadorias e serviços para compras governamentais. Nesse caso, estima-se que empresas do Mercosul terão acesso ao mercado de licitações da UE, estimado em US$ 1,6 trilhão, segundo os negociadores brasileiros. Por contrapartida, governos do Mercosul também deverão abrir suas concorrência para empresas européias. Todos deverão competir em pé de igualdade e todos os processos devem zelar pela total transparência e cada país membro (no caso do Mercosul) deverá garantir que todos os processos poderão ser acessados em um único ponto de acesso. Como isso será feito na prática – considerando todas as instâncias envolvidas – eu não consigo imaginar no curto prazo.  

Alguns números já foram estimados e estão sendo comemorados pelo governo Brasileiro: 

  • Até 2035 as exportações brasileiras para a UE devem ter ganhos de US$100 bilhões.
  • O PIB brasileiro deve crescer US$87,5 bilhões em 15 anos, podendo chegar a US$125 bilhões.
  • O aumento de investimentos no Brasil será da ordem de US$ 113 bilhões no mesmo período.

Volto a ressaltar que o anúncio do tratado é apenas o primeiro passo de uma caminhada que pode ser tão longa quanto foram as negociações. Agora vem o esforço de redação e vinculação jurídica, as traduções e a ratificação em cada um dos Parlamentos envolvidos. Lembrando de como o Parlamento Europeu quase derrubou o acordo UE-Canadá, a ratificação deste pode vir a enfrentar obstáculos políticos muito maiores, principalmente se a bancada verde aliar-se com a bancada nacionalista. 

Para os brasileiros. Bom, estamos todos testemunhando a euforia governista, porém eu creio que o uso político do acordo pelo Presidente e sua base de apoio não deve durar muito. O tratado deve fazer com o que o midiático político retraia seu discurso liberal em pontos que ele vendeu como promessa de campanha ou mesmo como barganha para aliados. Questões como proteção ao meio ambiente, liberação de agrotóxicos, relações trabalhistas (incluindo a liberdade de associação), transparência, entre outros são temas que não poderão ser tratados levianamente ou provocarão as devidas sanções aos envolvidos. 

O próprio tratado indica que caberá à sociedade civil – através de organizações não-governamentais ou mesmo sindicatos – uma participação fundamental: tais grupos poderão expressar seus pontos de vista e fornecer contribuições e discussões sobre como o tratado será implementado. 

Acho que não é dessa vez que o Presidente conseguirá “acabar com o ativismo”.

[Texto publicado originalmente no LinkedIn]

A Vertigem

Sim, eu também já assisti o documentário Democracia em Vertigem da Petra Costa disponível desde quarta (19) na Netflix e a vertigem veio com força. Petra narra todo o documentário, dando um toque pessoal ao fazer paralelos com sua vida e, de alguma forma, nos convidando a fazê-lo também. Junto com o filme na telinha, outro filme passava na minha mente e acredito que assim tenha sido com a maioria arrasadora dos espectadores.

A diretora tampouco esconde sua posição política de esquerda nem sua origem burguesa. No filme, ela se proprõe a contar a história da recente democracia brasileira pela ótica da ascendência e derrocada do PT no poder, e vai muito além, ao provocar a contextualização histórica do nosso quadro social. Chega mesmo a fazer uma crítica ao próprio PT que abandonou seus princípios e sua base popular ao escolher suas alianças para a governabilidade. Todo o fio é bem conduzido e as idas ao passado bem contextualizadas.

Chorei em várias passagens e, no fim, posso dizer que me causou profunda melancolia. Imagino que tenha sido assim com qualquer um que esteja à esquerda no espectro político. Somos chamados ao sonho integratório que Brasília deveria representar e ao pesadelo em que seu distanciamento dos grandes centros se transformou. Do brilhantismo simbólico abraçado em seu projeto arquitetônico (a proximidade dos três poderes e a sua total independência) a todos os pecados capitais (desculpe o trocadilho) cometidos para sua entrega. Também somos lembrados do flerte entre a política e o capitalismo na construção da capital e esse é, inclusive, um dos ganchos para o salto à realidade atual do filme.

O que vemos ali na tela, cena após cena, é nosso passado recente e, portanto, com pouquíssimo distanciamente histórico. O que me causou tristeza foi ver o filme acertar ao mostrar como, ponto a ponto, a classe trabalhadora brasileira evoluiu na luta política, ganhou protagonismo, foi traída por seus representantes mais caros, se equivocou no revide, optou por recuar na luta histórica e permitiu que a classe média a convencesse de tercerizar suas pautas escolhendo um governo distante de sua realidade. O governo do liberalismo de oportunidade ou de ocasião. De conveniência.

Nem vou entrar no mérito do real liberalismo (não esse que temos aí). Apenas me refiro à realidade brasileira: nossa jovem repúplica e nossa ainda mais jovem democracia não tem a menor chance de ser completamente liberal. Acredito nisso com toda a força do meu ser. Entendo – como já publiquei aqui anteriormente – que é preciso que haja uma conciliação entre os interesses coletivos e os interesses individuais, assim como os interesses públicos e privados. O Estado precisa ter o tamanho exato para prover educação, saúde e segurança a todos porque não temos saúde institucional para o Estado mínimo. E isso não quer dizer que aceito a máquina administrativa inchada, burocrática e inoperante que temos hoje.

Mas voltando ao filme e ao pseudo-liberalismo que compramos nesse pacote “pós PT”. Me parece que tudo o que vivemos atualmente – e mais no que nunca em nossa história – é o “qualquer coisa de conveniência”: além do liberalismo de conveniência, temos o processo legal de conveniência, o combate à corrupção de conveniência, o impeachment de conveniência! É a era do “fim justifica os meios”, mas que fim? Apenas o fim que convém a alguns. Isso também aparece no filme, quando ele mostra os já notórios áudios do “grande acordo nacional, com o supremo, com tudo”. E reforça nossa melancolia ao perceber que, mesmo validados, seu conteúdo não espantou quem bateu palmas e panelas para o impeachment. Afinal, era contra o PT. E para tirar o PT vale tudo: “vamos acabar com o ativismo!”, “vamos fuzilar os petralhas!”.

Representar qualquer parte do grande espectro da esquerda praticamente voltou a ser subversivo. Homo homini lupus (Hobes deve estar dando pulos onde estiver). O brasileiro transformou aquele que não pensa como si em inimigo. Também está no documentário: a senhorinha comemorando a prisão dos ativistas contrários à sua causa apenas por isso, por serem contrários à sua causa. Não debatemos mais ideias: atacamos as pessoas. Essa é uma das lições de um guru astrólogo – fisólofo de araque – passada boca à boca (ou zapzap a zapzap) e colocada em prática por seus asseclas sem questionamento. E pior: aceita pelos populares.

Acho que o grande mérito do documentário é a sua fé de que sua missão seja que, entendendo o que aconteceu, podemos voltar a acreditar num futuro melhor. Nesse momento, talvez pela falta do já citado distanciamento histórico, ou mesmo por conta das lamentáveis e super questionáveis desmontrações individuais de falta de humanidade e cidadania validadas pelo novo governante e sua trupe, eu ainda não partilho desse nobre sentimento. Espero voltar ao modo Polyana em breve.

Escolha curiosa: o Pavão Misterioso

Ontem uma arroba anônima de vida curta usou o pseudônimo “Pavão Misterioso” para atacar o jornalista Gleen Greenwald e seu The Intercept Brasil no twitter. Nem vou entrar no mérito da fanfic em forma de denúncia tosca da história toda. Apenas fiquei encafifada pela escolha da alcunha.

Pavão Misterioso – a música – foi escrita pelo cearense Ednardo em 1974 – em plena vigência da didatura militar – e ganhou o Brasil ao entrar na trilha da novela Saramandaia (1976). A música é lindamente ritimada e ganhou mais de 20 regravações (Amelinha, Belchior, Elba, Paul Mauriat, etc). O que pouca gente sabe é que ela é baseada num cordel: O Romance do Pavão Misterioso de José Camelo de Melo Rezende, de 1923 – esse aí da imagem do post. Não se trata de um folheto qualquer, mas do mais vendido de todos os tempos e considerado o maior clássico da literatura de cordel

O romance de 141 sextilhas conta a história de um jovem turco chamado Evangelista que, através de uma foto trazida pelo seu irmão João Batista, instantaneamente se apaixona por Creusa, uma jovem condessa grega que vive reclusa em um sobrado e aparece apenas uma vez ao ano para os turistas e curiosos que lhe aguardam abaixo da janela da propriedade de seu pai. Convencido de que está apaixonado e de que deve tomar Creusa por esposa, Evangelista cata sua pequena fortuna (metade da herança deixada por seu pai) e parte para Atenas, onde aguarda a aparição anual da donzela e confirma seu desejo. O jovem analisa suas possibilidades e resolve contratar um “artista”, alguém que lhe ajude no estratagema de chegar ao quarto da moça. 

Ele vai até a “Rua dos Operários” e conhece Edmundo, um “engenheiro profundo” (“Para inventar maquinismo / Ele é o maior do mundo“). O engenheiro-artista desenha então um mecanismo alado. Em suas palavras: “Eu fiz um aeroplano/ Do formato de um pavão/ Que se arma e se desarma/ Comprimindo em um botão/ E carrega doze arrobas/ Três léguas acima do chão.” E, voilà, temos nosso pavão misterioso! Aquele que é “pássaro formoso, tudo é mistério nesse seu voar“. 

Notamos aqui que não se trata de uma ave mítica, de mágica ou mesmo de ilusionismo, tática normalmente usada por colonizadores contra suas colônias. É justamente o contrário. Trata-se de ciência e tecnologia usadas contra um opressor. Sim, opressor, afinal, a jovem reclusa implora ao pai por liberdade após conhecer Evangelista e o conde ameaça matá-la por isso. Ele não ouve a filha, não considera suas vontades ou seus argumentos e apela à opressão (seus guardas) e ao medo (a ameaça de matar qualquer empregado que fale com a filha) para manter seu status quo.

O romance – de grande apelo popular – retrata uma uma aventura de amor e até de heroísmo, onde um jovem herdeiro se dispõe a abrir mão de suas posses pelo amor da donzela e acha, na Rua dos Operários, sua solução. Ao transcrever o cordel para a música, Ednardo capturou brilhantemente essa metafóra para, em versos, atacar o autoritarismo e a limitação das liberdades individuais vigente no regime militar. Com maestria ele despejou ambiguidade aos versos “Me poupa do vexame / De morrer tão moço / Muita coisa ainda / Quero olhar” assim como em “No escuro dessa noite / Me ajuda, cantar / Derrama essas faíscas / Despeja esse trovão / Desmancha isso tudo, oh! / Que não é certo não” e finalmente em “Não temas minha donzela / Nossa sorte nessa guerra / Eles são muitos / Mas não podem voar”.

Em tempo, dizem até que índios do Xingu adotaram a canção para um de seus ritos sagrados. Escolheu bem, nosso amigo acusador direitista, não?

#EleNão

#EleNão

[Disclaimer: Esse texto foi postado no Facebook, uma forma de desabafo durante o período eleitoral. Veio para o blog pela vontade de registrar meus pensamentos para além da bolha.]

Eu queria muito saber que desespero é esse de atacar as pessoas com quem não se concorda. Eu tô aqui vendo as coisas e achando tudo lindo e OK, pois afinal AINDA é uma democracia e AINDA temos esse direito. Posso não concordar mas jamais eu te confrontaria, no seu espaço. Apenas expresso, aqui no meu espaço, meu apoio ou não para essa ou aquela pauta. Então, brother, quer conversar, vem de boa. Eu converso. Tem um monte de gente aí de centro e de direita que tá contestando na elegância e tá maneiro. Se alguém chama pra conversa eu até vou no post alheio palpitar mas, com raras exceções, normalmente me aborreço. Por que? Porque só vejo os mesmos esperneios que vemos em toda parte. Então não traz isso pra cá, não, ok? Não vem com memezinho lacrador que nasceu num grupo de Whatsapp que tem resposta pronta pra tudo. Sou essa insuportável rata de internet que conhece o fluxo e a vida de um meme. Então sei que o que você tá compartilhando nasceu num Reddit de uma força tarefa que só tá fazendo isso: preparando respostas em forma de MEME pra serem usadas pela massa de manobra para desacreditar adversários.

Vamos facilitar: 
1) Já disse aqui que fiz uma limpa e quero usar essa rede fechada de amigos e conhecidos com gente com a qual eu me importo, que tenho carinho e que me faz bem. Se você ler essa mensagem, não tem mais nenhum filtro ou configuração misteriosa não: é porque você já passou por essa triagem e, em bom carioquês: te considero PRA CARALHO. Estou longe e amaria continuar acompanhando sua vida e seus momentos, suas lutas, seus pensamentos nessa rede. Ponto.

2) Eu sou Esquerda. Às vezes me aproximo do centro-esquerda, mas normalmente é só um lapso e passa logo. AND sou um tanto progressista: eu aceito que haja uma conciliação entre os interesses coletivos e os interesses individuais. Nada é preto no branco como muita gente acredita: ontem mesmo saiu notícia de que nos Estados Unidos (a pérola dos olhos de todo liberal) existe um forte viés de regulamentação nos provedores de internet. Ou seja, nem a Deus nem ao diabo. Vamos conciliar essas pautas, esses interesses aí. Devagar com o andor que um dia a gente chega lá.

3) Não consigo me desassociar das pautas humanas e sociais. Já passei por muita coisa nessa vida (diria Serginho Meriti) e conheci gente de toda cor, raça de toda fé e que me ensinou muita coisa me transformando no que sou hoje e que vocês tanto amam (pelo menos eu acho né ^^). Por conta disso tudo e do supracitado alinhamento, eu também posso afirmar que apoio gays, bis existem, me comovo com xs trans e acho que se todo mundo assistisse Ru Paul’s Drag Race o mundo seria um lugar muito melhor. Consequentemente sou contra Escola sem Partido e isso não quer dizer que eu seja a favor que as crianças sejam erotizadas. Apenas que, a seu tempo, elas devem ter sim acesso à educação sexual por uma questão de saúde e segurança. Para que ela saiba exatamente o que é pedofilia e saiba pedir socorro se precisar. Para que ela aprenda subsequentemente o que assédio e tbm saiba se defender ou respeitar o outro. Sou a favor da descriminalização do aborto porque pra mim é uma questão de saúde pública. Sou a favor da Lava-a-Jato e lamento demais que a Lei não seja efetivamente para todos. Repito todos os dias o que Darci Ribeiro profetizou: “se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. E estamos condenados a esse ciclo infinito de 20 anos ad eternum e ainda tenho que ouvir que “bandido bom é bandido morto”. Perceberam? Eu também sou contra a flexibilização do porte de armas. O que mais? Eu tenho zero respeito pelo MBL. Ah, e eu tbm amo Djavan e Oswaldo Montenegro, não falem mal deles perto de mim.

Bom, isto posto, devo concluir que estou muito mais próxima do PSOL e do PDT do que do PT. Então não me venha com esse nhenhenhen de MAS E O PT porque não é deles o meu voto. Tenho votado no PSOL praticamente sempre, desde que eles passaram a ter candidatos próprios. Sobre esses partidos mais recentes, ainda não formei opinião, logo, quando preciso vejo que são as pessoas envolvidas e guardo aqui na minha caixola para uso futuro pertinente. O importante aqui é que entendo que no primeiro turno, à exceção de brancos e nulos, todo voto é útil e importante.

Ok? Então só falta uma última e derradeira observação: eu nunca vou votar no Bolsonaro. É incompatível com tudo o que sou e que acredito. Assim, decidi postar e compartilhar em minha própria timeline os absurdos da sua candidatura porque eu acredito que temos muita diferença social para aplacar ainda e porque quero tentar mudar a cabeça de quem intenciona votar em branco ou nulo. Se mudar de mais alguém, excelente, mas se não mudar OK também. Mas se você tá de boa com a sua escolha, eu também estou de boa com você. Não é você meu público alvo.

Extrapolando para a grande probabilidade de segundo turno e é aqui o ponto crucial deste interminável oversharing: eu também não vou votar no Bolsonaro. E aqui sim, se tiver que votar no PT, paciência. Penso que agora – depois de tanto escândalo, tanta investigacao – nós conhecemos suas artimanhas. Conhecemos seus pontos fortes e fracos. Podemos domar essa fera com as ferramentas do Estado democrático. Posso ser ingênua mas acredito demais na democracia.

O que eu não conheço é Bolsonaro com poder. Dê poder a um homem e verás quem ele é. Não, passo. Conheço o seu histórico, sua personalidade pública que sempre foi alardeada e exaltada por ser radical por ele mesmo, seus filhos e seus próximos. Ninguém tá inventando ou distorcendo nada contra ele. Tudo está e esteve sempre disponível por aí e às claras só que agora querem que a gente acredite que ele é moderado. Que nunca quis dizer o que disse e repetiu tantas vezes. Ou seja, que por dentro ele é meigo. Quase fofo, certo. Sério? A verdade é que seu discurso legitima outros iguais ou piores que o seu próprio. Já fui ameaçada na internet por ser uma feminista vagabunda escrota. As pessoas perderam o medo de agredir. Também conheço sua baixíssima produtividade e seu corporativismo. E esse homem com poder, aliado à incompetência de uma equipe que não se entende agora que ainda estão em campanha e somados a esse exército de asseclas acéfalos – a parcela má intencionada do seu eleitorado, aquela que forja notícias, manipula vídeos e fotos, hackeia adversários – só me fazem acreditar que sem esses subterfúgios não há coisa boa, legítima e original a ser apresentada. Afinal eu também teria vergonha de compartilhar aquele ppt pífio e sem vergonha que chamam de programa de governo. Ah Cláudia, mas você não pode responsabilizá-lo pelo que seus eleitores estão postando. Posso sim quando ele faz o João sem braço e não só não repreende como ainda alimenta: tudo Fake News / Olha, se eu perder é fraude e por aí vai.

Não existe solução simples e ele está se vendendo como solução mágica e imediata pq estamos putos com o PT. Mas construir uma nação dá trabalho, gente. Não dá pra terceirizar e deixar de lado. A vigilância deve ser constante. Sempre.

Bom, é isso. Se depois de me conhecer mais esse tantão você concluir que sou algo entre uma ingênua insuportável e uma feminazi vagabunda escrota que você não pode tolerar, eu entendo. Vai lá e desfaz amizade, não precisa nem avisar que aí eu não vou perceber a dor de imediato. Vida que segue, um dia a gente se encontra. Eu não vou desfazer daqui pq se não desfiz até agora é pq do meu lado ainda está tudo xuxubeleza entre a gente e eu prometo, na saúde e na doença, sempre te respeitar. Só quero que me respeite também.

Se APESAR de tudo isso você ainda quiser minha companhia, u-hull tamujunto! Porque no fim a gente vai se entender e vai lutar junto independente da ideologia.

Flw, vlw quem leu até aqui, minha admiração eterna. #EleNao #Elenunca#VemMeVisitarEmGuaira #Pas

O que eu quero? Respeito!

Lá se vai mais de um século de Dia Internacional da Mulher. Em tempos de acesso simples a fontes históricas, nunca houve tanta gente sem saber exatamente do que se trata. É quase uma festa. Um dia de homenagens. ~Parabéns, por ter nascido mulher, por ser linda e delicada e sensível e por ter o dom de gerar a vida~ e por aí vai. Não! Não quero parabéns por ter nascido com útero. Quero respeito! E (me desculpe, Aretha) nada de a little. Quero todo o respeito que mereço. No mínimo do tamanho desse século de lutas.

Vejamos o videozinho abaixo e sejamos totalmente honestos: quantos destes rótulos nós já não repetimos, em voz alta ou em voz baixa, voluntária ou involuntariamente?

Essa é apenas uma das lutas diárias. Pela igualdade de fato. Contra o machismo entranhado que nem sentimos. Contra o sexismo aceitável da piadinha ou do assédio. E agora, contra a “festivização” do 8 de março. Não é o endeusamento da mulher. Parem! Não minimizem ou banalizem a batalha de tantas mulheres que arriscaram vidas e reputações e empregos para que hoje possamos ter voz, ter representatividade, ter escolha. Ter escolha. A escolha de ser quem e o que quisermos. E que essa escolha, ou melhor essas – todas e quaisquer – escolhas sejam respeitadas.

No meu imaginário perfeito, no Dia Internacional da Mulher, a mobilização seria para o exercício do anti-sexismo. Escolinhas, escolas, universidades, centros comunitários, empresas, programas de TVs, todos colocando o dedo na ferida das piadas ofensivas tão toleradas (ou aceitas e propagadas mesmo) de cunho sexista. Debatendo os cenários de humilhação e escárnio do revenge porn.  Desenhando os direitos e deveres dos cidadãos – da igualdade desses deveres e direitos – e aplicando isso ao direito de ir e vir da mulher – com a roupa que bem entender – e que isso não dá a ninguém o direito de abordá-la à revelia da sua vontade e muito, muito menos de estuprá-la com base num julgamento deturpado de valores e poderes. Só exemplos, claro.

Neste Dia Internacional da Mulher perfeito, não haveria acusações gratuitas de ~feminazismo~ por celebrarmos estas vitórias históricas ou cotidianas. Apenas uma perene e linda ode ao respeito. E assim, quem sabe um dia, não respeitaremos homens ou mulheres: respeitaremos a pessoa.

Você já foi fofo. E agora?

Passou o Dia das Crianças e os avatares vão, aos poucos, retornando à atualidade. Na brincadeira de voltar a ser criança, a fofura – própria e alheia – inundou nossas timelines com franjinhas, laços de fita e bochechas pedindo para serem apertadas. Uma divertida viagem no tempo para muita gente e para mim, inclusive. Aí vi a foto acima numa postagem no facebook. Morri de rir é claro mas depois me peguei pensando em quantos vilões da vida real também já foram crianças fofas um dia.

Suzane Louise von Richthofen

E aí que pipocou na internet a pergunta: a criança que você era teria orgulho do que você é hoje? Muita gente fez um balanço de sonhos: o que queria versus o que realizou. Mas eu não consegui desapegar da dicotomia bem x mal. Quão “vilão” nós nos tornamos e quanto reconhecemos disso? E até mais simples e mais especificamente: qual a distância entre o que pregamos e o que fazemos? A cena típica da criança no carro dos pais questionando o desrespeito ao sinal vermelho que acabou de presenciar. A nossa enorme dificuldade em escolher entre fazer o que é fácil e fazer o que é certo (#Dumbledorefeelings). Afinal ser bom e digno de orgulho dá trabalho. E eu humildemente acho que é aí que deve estar a explicação para o como perdemos essas fofuras para “o lado negro da força”.