Poema em Linha Reta – Fernando Pessoa

Sobre o fim, muralhas e aberturas

Caro Richard. 

É muito difícil saber como e por onde começar. Estive pensando por muito tempo e a fundo, através de muitas idéias, tentando encontrar um meio. Finalmente me ocorreu uma pequena idéia, uma metáfora musical, através da qual pude pensar claramente e encontrar a compreensão, se não mesmo a satisfação. Quero partilhá-la com você. Assim, por favor, peço que me tolere, enquanto passamos por outra lição musical. A forma mais comumente usada para as grandes obras clássicas é a da sonata. É a base de quase todas as sinfonias e concertos. Consiste em três partes principais: a exposição ou abertura, em que pequenas idéias, temas e miscelâneas diversas são lançados e apresentados uns aos outros; o desenvolvimento, em que essas pequenas idéias e motivos são explorados ao máximo, expandidos, muitas vezes passando do tom maior (feliz) para menor (infeliz) e voltando sendo desenvolvidos e entrelaçados em complexidade maior, até que finalmente vem a recapitulação, em que existe uma reapresentação, uma gloriosa expressão da maturidade plena e rica que as pequenas idéias não alcançam através do processo de desenvolvimento. Você pode se perguntar como isso se aplica a nós, se ainda não percebeu. Eu nos vejo embatucados numa abertura interminável. A principio, foi a coisa real, pura delicia. É a parte de um relacionamento em que a pessoa se mostra em seu melhor: divertida, encantadora, excitante, excitada, interessante, interessada. É um tempo em que à pessoa se sente mais tranqüila e mais cativante, porque não experimenta a necessidade de levantar suas defesas; assim, o parceiro aconchega um ser humano afetuoso, ao invés de um cacto gigantesco. É um tempo de prazer para ambos e não é de se admirar que você goste tanto de aberturas que se empenhe em tornar a sua vida uma sucessão delas. 

Mas os primórdios não podem ser prolongados interminavelmente; não podem simplesmente serem expostos e re-expostos. Devem seguir adiante e se desenvolverem, ou morrer de tédio. Não é assim, você diz. Deve se afastar, ter mudanças, outras pessoas, outros lugares, a fim de que possa voltar a um relacionamento como se fosse novo, para ter constantes princípios novos. Nós seguimos adiante numa sucessão prolongada de reaberturas. Algumas foram causadas por separações profissionais que eram necessárias, mas se mostraram desnecessariamente duras e rigorosas para duas pessoas tão chegadas como nós. Algumas foram fabricadas por você, a fim de dispor de mais oportunidades de voltar à novidade que tanto deseja. Obviamente, a parte do desenvolvimento é uma anátema para você. Pois é a parte em que você pode descobrir que tudo que possui é uma coletânea de idéias bastante limitadas que não funcionam, não importa quanta criatividade lhes acrescente. Não resta a menor duvida de que fomos muito mais longe do que você jamais tencionou. E paramos pouco antes do que eu considerava como nossos próximos passos, lógicos e maravilhosos. Tenho testemunhado o desenvolvimento com você continuamente contido, passei a acreditar que nunca faremos mais que tentativas esporádicas em nosso potencial de aprendizado, em nossas espantosas similaridades de interesses, não importa quantos anos possamos ter, porque nunca teremos um tempo ininterruptos juntos. Assim, torna-se impossível o crescimento que tanto prezo e sei que é possível.

Ambos tivemos uma visão de algo maravilhoso que nos aguardara. Contudo, não podemos chegar lá, a partir do ponto em que nos encontramos. Estou diante de uma sólida muralha de defesas e você tem necessidade de construir mais e mais. Anseio pela plenitude do desenvolvimento adicional e você procurará meios de evitá-lo, enquanto estivemos juntos. Nós dois ficamos frustrados; você é incapaz de voltar, e eu incapaz de seguir adiante, num estado de constante luta, com nuvens e sombras escuras sobre o tempo limitado que você nos concede. Sentir a sua constante resistência a mim, ao crescimento deste algo maravilhoso, como se eu e isso fôssemos alguma coisa horrível. Experimentar as várias formas que a resistência assume, algumas cruéis, muitas vezes me causa sofrimento, em um nível ou outro. Tenho um registro de nosso tempo juntos e fiz uma análise profunda e sincera. Entristeceu-me a até me chocou, mas foi-me útil para enfrentar a verdade. Recordo primeiro ano e os três primeiros meses como nosso único período feliz. Isso foi a abertura, e foi linda. Depois, houveram as separações, com os desligamentos arrebatados e para mim inexplicáveis e a igualmente terrível evitação-resistêncial em sua volta. Longe e apartados ou juntos e apartados é uma situação por demais infeliz. Estou me observando virar uma criatura que chora muito, pois quase parece que a compaixão é necessária antes que a bondade seja possível. E sei que não cheguei até este ponto da minha vida para me tornar digna de compaixão. Encarando os fatos tão honestamente quanto me é possível, sei que não posso continuar, não importa o quanto deseje; não posso me inclinar ainda mais. 

Espero que você não considere isso como o rompimento de um acordo, mas sim como a continuação de muitos e muitos finais que você tem iniciado. Acho que é uma coisa que ambos devemos saber. Eu devo aceitar que fracassei em meu esforço de fazê-lo conhecer as alegrias da afeição. Richard, meu precioso amigo, isto é dito suavemente, até mesmo ternamente, e com amor. E os tons suaves não servem para camuflar uma raiva por trás; são autênticos. Estou simplesmente tentando compreender e estancar a dor. Estou enunciando o que fui forçado a aceitar: que você e eu nunca teremos um desenvolvimento, muito menos a gloriosa expressão climática de um relacionamento desenvolvido ao máximo. Tenho sentido que se alguma coisa em minha vida merece um afastamento de padrões anteriormente estabelecidos, indo além de todas as limitações conhecidas, foi justamente o nosso relacionamento. Suponho que poderia justificar por me sentir humilhada por todos os meus esforços para que desse certo. Em vez disso, porém, sinto-me orgulhosa de mim mesma e contente por saber que conheci a rara e maravilhosa oportunidade que desfrutamos enquanto a tivemos. Dei tudo o que eu podia, no sentido mais puro e elevado, a fim de preservá-la. É o que me conforta agora. Neste momento horrível do final, posso sinceramente dizer que não conheço nenhuma outra coisa que poderia fazer para nos levar ao lindo futuro que poderíamos ter.Apesar do sofrimento, estou feliz por tê-lo conhecido desta maneira tão especial e sempre guardarei na memória o tempo que passamos juntos.

Cresci com você e aprendi muito. Sei que também fiz grandes e positivas contribuições a você. Ainda sou sua amiga, como espero que você um dia possa vir a ser meu amigo. Envio esta carta com um coração repleto do mais profundo e terno amor, com toda a consideração que tenho por você, impossível de ignorar, além de um imenso pesar por ficar incumprida uma oportunidade tão cheia de promessa, tão rara e tão bela.

Leslie Parrish  Carta de Leslie Parrish a Richard Bach. Achei a íntegra da carta aqui, mas sei que ela foi publicada em um dos livros de Bach. Completo a informação assim que obtiver mais detalhes.

Uma Janela e sua Serventia

Hoje me parecem novos estes campos

e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.

Do novo livro de Adélia Prado, A Duração do Dia. (via @memoriaviva)

O Enigma do Príncipe

Blogagens Coletivas

Ambas promovidas pela Vanessa:

Bibliotecando

Biblioteca Popular Municipal Alvaro Moreira, no bairro da Penha (subúrbio da Leopoldina no Rio) passa a disponibilizar internet gratuita e digitação de textos para jovens e adultos por seis horas em dias de semana e 3 horas aos sábados. 

Ainda sobre livros, as duas bibliotecas do Metrô Rio (Central e Copacabana-S.Campos) ultrapassaram o patamar de 6.000 sócios que foram responsáveis por mais de 48.000 empréstimos desde 2006. No total, são 9 bibliotecas do metrô espalhadas pelo Brasil totalizando mais de 43.000 sócios.
Procurando bem a gente também acha notícias interessantes nas páginas dos jornais. Para os partidários e defensores da inclusão digital e da educação que adoram alardear um discurso pseudossocial sem sair do ar-condicionado do seu quarto equipado com o melhor PC e banda larga disponíveis, esses são casos reais que espero ver divulgados e difundidos Brasil afora.

Sai Encosto!

Quando reeditei o template do TdS em junho deste ano, minha intenção era realmente reabitar o espaço. Avivá-lo e trazer de volta ao cyberespaço os comentários e pensamentos desta mente avoada (santo antagonismo, Batman!). Pois é. Mas a inspiração que é boa não veio. Deixei vídeos, imagens e algumas muitas frases soltas que fui tentada a compartilhar, mas nada de muito complexo. Esta semana, lendo o Le Monde Diplomatique de novembro – coisa que não faço há tempos – eu tive a grata surpresa de encontrar um artigo que remete à minha inércia literária. Nos dois sentidos: ler e escrever.

Renata Miloni escreve em “Quando a literatura se despede de suas histórias” que meu caso não é isolado. Primeiro porque é mais fácil ver que ler. Segundo porque a ficção no audiovisual tende a ter mais atrativos do que no papel frio. Terceiro, os autores e críticos literários insistem em pensar que literatura não é para qualquer um enquanto os roteiristas (também chamados por Renata de autores) escrevem suas histórias para qualquer um. Um outro fator citado por Renata e do qual eu discordo um bocado é o fato de que na TV ficamos com o gostinho de quero mais característico dos seriados, argumento que ela embasa citando a série Harry Potter. Discordo porque não lemos um livro em uma hora, que é o tempo bruto de um episódio na TV. Fica sim o gostinho de querer saber logo o que vai acontecer. Mas o que me impressionou nesse artigo foi a afirmação de que o escritor brasileiro se apega ao sofrimento para escrever. Pior, apega-se à apenas uma forma de sofrimento, ignorando nuances e uma variedade de temas para fazer de sua obra um “samba de uma nota só”.

Voltando ao meu cotidiano, não tenho lido nada. No jornal, apenas esportes e a coluna do Ancelmo. O último livro que li foi “Travessuras da Menina Má” de Mario Vargas Llosa. Apesar de ter gostado muito do livro, demorei séculos para terminá-lo. Que vergonha! Quando fico em casa, me prostro em frente à TV e lá fico absorvendo uma infinidade de filmes e seriados, em sua grande maioria repetidos. Não estou com paciência para novidades. Navego um pouco, mas logo perco a paciência. Assim absorvo o pouco tempo que tenho para ler. Mais alienada, impossível.

Escrever então, nem se fala. Antigamente – e basta visitar os arquivos do blog para comprovar – era fácil falar e escrever sobre a maioria dos assuntos. Mas como já repeti zilhões de vezes, escrever para mim é um exercício. E meus neurônios estão atrofiados. Tenho estado bastante desestimulada – pelos motivos errados, eu sei. Só que tal motivo me serve de “desculpa esfarrapada” e não consigo resolver este imbróglio aqui, na minha cabecinha e, assim, essa “desculpa esfarrapada” continua servindo de verdade. Quanto ao apego ao sofrimento, definitivamente não serve para mim. Preciso de tranqüilidade e bom humor para escrever sobre coisas variadas, algumas até sofridas, mas de preferência coisas leves. Uma ligeira mudança em minha vida provocou uma brisa de ar fresco e acho que não devo deixá-la – a brisa – passar (o que quer que aconteça com relação a esta novidade não está no meu controle, mas me deu um “quê” de inspiração e decidi não desperdiçar). Estou aqui hoje, para espantar este desestímulo, esse fantasma em forma de “desculpa esfarrapada” na marra. Sai, encosto! E vamos ver no que dá. Assim, depois de um suspiro profundo e confortador, posso dizer-lhes “até breve”.

Imagem original aqui.