Na madrugada

Algum lugar sobre a Bahia ou sobre as Minas Gerais. Relaxada, como mandou o moço e escutando suas escolhas. Decolei ouvindo que o céu era de uma só cor e pareceu conveniente. No corredor, já chegava o cheiro do café forte típico de companhias aéreas. Apenas viajo, física e musicalmente, sem notícias recentes das madrugadas que acalentavam. Agora alguém diz no meu ouvido que quer cantar cravando a mão no coração e esquecendo todos os clichês. O cheiro cresce. Café sempre acende meus sentidos. E o príncipe ginga pra dizer que basta apenas um beijo. Um beijo. Olhos fechados e eu até sinto esse beijo, desejado, precisado, tantas vezes narrado, mais que imaginado. Agora nele haveria uma língua com gosto de café. We’ll never gonna survive unless we get a little crazy. E é óbvio que somos loucos. Por isso sobrevivemos, cada um no seu trato ou não trato. Começa Led e eu rio, porque era óbvio que ia ter Led, que trouxe certa feita uma torrente de confissões jamais ditas. “Impossível não sentir tesão vendo duas mulheres gatas dançando Led Zeppelin”. Acho que foi isso o que disse. O cheiro de café sumiu e agora me sinto tola, imaginando coisas, aquelas mesmas coisas que descobri dia desses que não imaginava sozinha, mas tola mesmo assim.

Diminua as luzes, baixe suas cortinas. O que são as cortinas se já baixei a guarda? Lamento a falta de (mais) contato e me lembro por que evito esses tratos quando de algum lado não há tratos. Algo me diz que vale a pena confiar e do nada estou num campo de morangos onde nada é real. Nada faz sentido. Rio novamente. Mais uma viagem. Me agarro ao que existe, que sei ser explosivo, pulsante ainda que apenas na promessa. Do you think you can tell? Entre tantas possibilidades, tantos cenários, tanto tesão descrito em detalhes enebriantes, talvez no fim não tenhamos o que dizer. Isso por algo realmente grande está perto de surgir – e eu preciso sim, que venha – e pode acabar com o que nunca aconteceu.  When it’s good, it’s so, so good. When it’s gone, it’s gone.

Compartilhei segredos, confissões, mas não dividi meus demônios. Asy soy yo. E esses demonios devem me empurrar pra longe. Uma outra viagem – essa literal. Talvez até uma aterrorizante mudança no trato… Outro segredo meu que o moço sequer imagina pois foi a crença no cumprimento desse meu trato que o trouxe até mim. Talvez a gente converse sobre isso, talvez não. Mais provável que não pois que me conforta sermos amigos sem sermos amigos. Nesse momento, acho que ainda sobre as Minas Gerais, a verdade é que eu não sei para onde estou indo. Sem viagens. Sem metáforas. Sem café. (Un)Comfortably numb. Pink Floyd sabotou o random e isso me arranca um sorriso.

Que horas a gente volta?

Que horas a gente volta?

Defendido pelos eleitores e pela base de apoio do atual governo como uma “exceção técnica” num rol de indicações pra lá de duvidosas, o Ministro Paulo Guedes acabou se revelando a velha e boa farinha do mesmo saco ao declarar, no último dia 12, que “doméstica ia para Disney com dólar barato, ‘uma festa danada’” e, por isso, era conveniente ter a moeda brasileira tão desvalorizada frente ao dólar americano. Técnico ou não, com essas exatas palavras, ele acaba confessando que o governo vai sim lançar mão de ferramentas liberais a qualquer preço. O que parece cada vez mais claro é que manter a gritante desigualdade social brasileira não parece mais ser uma mera casualidade, um custo a ser pago pela recuperação econômica. Trata-se de um claro objetivo.

“Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos importar menos, fazer substituição de importações, turismo. [Era] todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada”.

Paulo Guedes

Na esteira do impeachment, nosso congresso aprovou as reformas que enormes e grandes e médios e pequenos empresários tanto pediam. Tudo com a chancela da imprensa corporativa (olha, mais empresários!) que vivia a repetir que sem tais reformas o país emperrava. Concessões foram feitas à boa e velha base aliada, e os mais humildes se viram esmagados pelo rigor de regras liberais com zero piedade ou tampouco regras razoáveis de transição.

Bom, tem gente aí muito mais capacitada para falar sobre isso do eu. O que eu quero dizer é que o governo representa muito bem seus eleitores. São muitos os que pensam exatamente assim: que o pobre esqueceu o seu lugar. Usando como exemplo o tema “viagens” escolhido pelo Ministro, eu mesma cresci achando que viajar não era pra mim. Criada na Baixada Fluminense, na base da bolsa de estudos da escola particular, formada na faculdade também com bolsa porque a empresa onde eu trabalhava cobria 75% do valor das mensalidades, cheguei à vida adulta e profissional achando que nunca teria grana suficiente para viajar, a despeito de ver colegas próximos viajando todo ano nas férias. Só fui descobrir que podia viajar ao exterior aos 40 anos, quando uma amiga – que ocupava o mesmo cargo que eu – planejou uma viagem para Nova Iorque e me mostrou os números dos parcelamentos de passagens e hospedagem e como daria para usar o abono de férias para comprar os dólares que usaríamos por lá. No ano seguinte, usando a mesma tática dos parcelamentos prévios, fiz minha primeira viagem para a Europa. O ponto é: até então, e mesmo ganhando bem, eu acreditava piamente que viajar não era para mim.

O ator Paulo Vieira relatou numa thread no twitter que teve uma baita crise de culpa por estar consumindo itens da Apple em Nova Iorque e que seu lugar não era lá. Bateu a bad que o que ele gastaria podia pagar vários meses de aluguel e que tinham parentes próximos passando necessidades, em situação de tabalho escravo enquanto ele passeava no Central Park. Mesmo tendo trabalhado para receber cada centavo, ele tampouco acreditava que podia estar ali.

E é aí que quero chegar. Essa seria uma bela semana para levantarmos aquela velha e batida hashtag #SomosTodosDomésticas porque é isso que somos. Somos todos as domésticas do Guedes, de seus amigos e seguidores. Eles querem se sentir únicos, especiais e não querem a classe média emergida nos governos anteriores dividindo seus privilégios. Eles têm horror a isso! Quem lembra da Danuza reclamando que ricos já haviam perdido o Carnaval, o Maracanã e os fogos na Praia de Copa para os populares e que agora, por R$50 mensais, os porteiros também podiam ir para Paris ou Nova Iorque? “Que graça tem?” perguntava a colunista.

Ou alguém já esqueceu da professora da PUC que legendou uma foto em seu feed com “Aeroporto ou rodoviária” referindo-se a uma suposta queda no glamour e no nível social dos frequentadores do aeroporto. Sua indignação foi alvo da empatia de outros professores e até mesmo do reitor da UniRio, mostrando que nem da docência podemos esperar sempre a decência de respeitar o próximo. Dia desses, um jovem senhor comemorava no Facebook (perdi o print [update: achei o print e o deixo no fim desse parágrafo]) que o novo governo estava colocando as “coisas” no lugar pois ele havia conseguido empregados (garçons e copeiros) para a sua festa de réveillon sem que eles ousassem pedir um preço exorbitante (diga-se decente) para serví-lo e a seus convidados. São pessoas que acreditam que contratar é fazer favor e por isso a precificação tem que ser unilateral. Se você quiser exemplos que se atualizam diariamente, pode passar nojinho vendo a timeline do perfil @VagasVNTC no twitter onde praticamente existem provas cabais de que estamos a um passo da volta da escravidão.

Em 2017, João Amoedo escreveu com todas as letras que era a favor do combate à pobreza porém contra a distribuição de renda, seja lá o que isso quer dizer. Eis aí a nossa elite descarada, sem máscaras. A mesma elite que hoje tenta imputar um tom professoral ao discurso do ministro para tentar justificar o constrangimento inicial. De nada adiantou: o dólar disparou e – para desespero dos liberais e asseclas acéfalos do governo – foram necessárias algumas subsequentes intervenções do Banco Central no câmbio para acalmar o Mercado.

Nessa semana, por coincidência ou não, Que Horas Ela Volta estava passando na TV. E rever o filme após todo esse imbróglio do ministro fez com que ele ganhasse todo um novo significado aos meus olhos. Ele deixou de ser apenas sutil e poético para ser visceral na mensagem. Acho que eu não o entendi completamente quando o assisti pela primeira vez. Mas agora vejo porque ele incomodou tanto, demais. A polifonia dos diálogos entre Val e Jéssica – mãe e filha, empregada e vestibulanda, submissa e enfrentadora – sobre como cada um descobre o seu lugar, essa noção quase que sobrenatural que nasce com o pobre, segundo a mãe, e quem diz que lugar é esse, onde está escrito, questiona a filha, é uma pérola de Anna Muylaert. E Dona Bárbara? Essa é o próprio Guedes na tela, com direito à mesma expressão de nojinho de pobre.

Que horas a gente volta? Quem a gente pensa que é para querer voltar?

Das Partidas

Das Partidas

Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

(Amyr Klink)
Tem um ano que parti
Sem dores
Sem rancores
Alguns temores
E parti.

Saiu o mar, entrou o rio
Saiu o quartinho e veio o quintal
Tudo novo, outro povo
E sem batuque, sem carnaval

Há um ano eu cheguei
E 7 vezes me apaixonei
E tinha esse jeito
Um colo e um peito
E nele deitei.

Solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.

(Mark Twain)

É sua vez de partir, meu amigo. Vai.

Vai, não apenas por ser necessário, mas por ser caminho. Muda a paisagem mas não muda a essência. O que é importante você leva no coração. Os seus, o samba, o mengo e o dengo estarão sempre contigo. E seu coração é grande o suficiente para novos dengos que eu sei. Vai que vai ser lindo. Vai que você está tinindo e é assim que o olhar brilha.

‘Não tô dando nem vendendo como o ditado diz’. Você não precisa do meu conselho, eu sei, ‘o meu conselho é pra lhe ver feliz’. Cantou o cantor. Quero lhe ver feliz e, com sorte, ‘que você me queira’. Cantou a cantora. Eu fico com o querer de novo o seu abraço, seu beijo suave e suas mãos nas minhas costas naqueles momentos quando você está à vontade. E suas mãos nos meus cabelos, naqueles raros momentos em que você está mesmo à vontade. Quando o tempo for generoso, o espaço entre nós sumirá.

Vai, e abraça tudo. Sente. Come. Bebe. Permite e permita-se. Vai. Você vai tirar de letra. Depois me conta.

De leve, um até breve.

Conto com isso.

Conta comigo.

100 Anos de Rivalidade – Um Olhar Bear

100 Anos de Rivalidade – Um Olhar Bear

Eu amaria começar esse relato com o glamour do cronista romântico que pode escrever no título “Meu primeiro Bears x Packers foi…”, mas não posso. E o motivo é simples: eu não lembro. Não lembro ao certo quando comecei a curtir o futebol americano com mais afinco. Eu lembro que a assiduidade aumentou entre 2005 e 2006, quando morava sozinha e, vira e mexe, esbarrava com alguma transmissão. Mas não lembro o primeiro jogo que me chamou atenção. Não fui arrebatada pelo esporte: fui cortejada. 

Conclusão: eu posso ter assistido a algum clássico nesse período sem me dar conta, afinal os dois times se encontram religiosamente duas vezes por ano. Naquele tempo, eu não fazia ideia da rivalidade entre as duas equipes. Na verdade, eu sequer tinha noção de que a história do esporte que eu começava a acompanhar estava totalmente atrelada a estas duas palavras: Bears e Packers. Tola. 

Mas eu me lembro que não demorou muito para que eu me deixasse hipnotizar pela onda Orange & Blue. Talvez pela familiaridade de vê-la sempre representada na cultura pop, talvez a memória afetiva com o impactante Chicago Bulls dos anos 90. Mas o fato é que o Chicago Bears me seduziu aos poucos, como quem não quer nada. No início eu achava que era apenas simpatia, que seríamos amigos com benefícios. Imagina se eu gastaria energia torcendo para time gringo? Logo eu! 

Eu imagino que, se foi televisionado aqui na terrinha, o CHI 26 x 0 GB de setembro de 2006 – coincidentemente o jogo de abertura daquela temporada para as duas equipes – possa ter sido um dos responsáveis por me conquistar. Afinal os locutores e comentaristas devem ter pirado ao ver, ou melhor, não ver Brett Favre marcar ponto algum; era algo inédito. Se eu assisti essa partida, provavelmente testemunhei Devin Hester marcar seu primeiro touchdown retornando um punt como atleta profissional. Céus, como odeio minha memória fraca! 

E assim seguiram-se minhas noites de domingo e segunda, vendo o jogo que estivesse passando e torcendo para os Bears quando eles apareciam. As regras iam perdendo o mistério e a fascinação pelo esporte começava a transparecer. Brian Urlacher, Charles Tillmann, Desmond Clark, Alex Brown, Lance Briggs e Devin Hester deixaram de ser nomes aleatórios e eu comecei a perceber que os outros times não importavam tanto. E quando veio a certeza? Nos Playoffs daquela temporada. Acho que mais precisamente no divisional contra o Seattle Seahawks, numa virada que só foi concluída com um field goal (quem diria? mas na época tínhamos Robbie Gould!) e onde precisamos do time como um todo para vencer: ataque, defesa, especialistas e o barulho insuportável da torcida! O Troféu George Halas veio com uma vitória razoavelmente tranquila sobre o New Orleans Saints, do novato Sean Payton e voilà: eu veria as cores azul e laranja no Super Bowl. Sim, é verdade que Peyton Manning colocou os Bears no bolso naquela noite, mas o retorno (mais um) do Devin Hester para touchdown logo no kickoff da partida ninguém tira de mim!

Vince Lombardi e George Halas
no Wringley Field.

Voltando à rivalidade desta noite, depois disso eu sei que não perdi mais nenhum clássico. Entendi a relação entre as duas histórias. Descobri que foi George “Papa Bear” Halas que, em 1922, disse que o nome “American Professional Football Association” não era forte o suficiente para o esporte e o mudou para “National Football League”. Ao conhecer Papa Bear mais a fundo foi inevitável conhecer Vince Lombardi. “Só existe um homem a quem eu abraço quando nos encontramos e a apenas um eu chamo de Coach” teria dito Lombardi sobre Halas. Papa Bear foi incansável na defesa da importância dos Packers para a comunidade de Green Bay. Sem a comunidade – que futuramente financiaria o Lambeau Field – não haveriam os Packers. E sem Packers, não existiriam os Bears. Papa Bear dizia os Packers eram nossos rivais mais “felizes”. Nunca entendi bem o que ele queria dizer com isso, mas o legado da rivalidade passou a ser levado muito a sério, em todos os níveis. Ao mesmo tempo que respeitava Lombardi, ele sequer apertava as mãos de Curly Lambeau. Se não havia controvérsia, Papa Bear não estava feliz.

A competitividade e a combatividade foram inseridas e motivadas sistemicamente na centenária história do Chicago Bears. Naqueles tempos os jogadores tinham seus empregos, mas em semana de jogos contra os Packers, Papa Bear marcava treinos extras e pagava qualquer quantia que os jogadores perdessem pelas faltas ao trabalho. Formava-se um time de Monstros, um time de defesas lendárias. Tudo começava a fazer sentido pra mim.

Bears e Packers são os dois times que mais se enfrentaram nesses cem anos e não existe “cumprir tabela”. Todo jogo significa alguma coisa. Em 1999, por exemplo, vencemos os Packers no dia seguinte ao funeral de Walter Payton ao bloquear, milagrosa e inexplicavelmente, o field goal que lhes daria a vitória quando faltavam 7 segundos para o fim do jogo e acabando, assim, com a sequência de dez derrotas para os rivais. “Acho que Walter Payton me levantou porque eu sei que não pulo tão alto assim” disse Bryan Robinson ao fim da partida.

Bryan Robinson no momento do bloqueio mágico que evitou o field goal da vitória do GB Packers.

Não seria honesto falar do que representa essa rivalidade para mim sem falar das derrotas dolorosas. Os tempos não estavam generosos com o torcedor do Chicago Bears. Virginia McCaskey uma vez disse: “Cresci esperando pela aposentadoria do Don Hutson. Depois passei a esperar pela aposentadoria do Brett Favre e agora eles têm Aaron Rodgers. Isso não acaba!” E isso resume bem a doce agonia de torcer pelos Bears. Enquanto somos defesa, eles são puro ataque. A final da Conferência Nacional em 2010 refletiu bem o drama. O primeiro encontro dos rivais em playoffs desde 1941 e nossa primeira aparição em playoffs desde o Super Bowl XLI. Por três períodos da partida, foi jogo de um time só: os Packers. Olin Kreutz jogando machucado porque não tínhamos quem jogasse de center, Jay Cutler saindo no terceiro quarto com uma lesão no joelho e o placar 14×0 para eles em nossa casa. Pra encurtar a tortura desta cronista, os Bears reagiram, Earl Bennett conseguiu uma recepção de 35 jardas e o placar mostrava GB 21×14 CHI mas Sam Shields interceptou Caleb Hanie faltando segundos para o fim da partida. Fim do sonho. Pulando para 2014, na última partida da temporada regular, precisávamos apenas vencer para voltar aos playoffs. Aaron Rodgers também não deixou e perdemos por 55×14.

Vencemos uma partida de Thanksgiving em 2015 no Lambeau Field apenas para estragar o momenttum de Brett Favre, que entrava naquele dia no Ring of Honor. Em 2017 os “cabeça-de-queijo” finalmente viraram o placar geral da rivalidade. Hoje estão com duas vitórias à frente (97, contra 95 vitórias dos Bears e 6 empates). Chegamos a 2018 abrindo a temporada mais uma vez contra os rivais, no Lambeau Field, como parte das comemorações de 100 dos Green Bay Packers. Roy Robertson-Harris tirou Rodgers do jogo e, no susto, abrimos uma vantagem de 20×0. Uou! Teve pick six de Khalil Mack sobre DeShone Kyzer e eu estava em casa apenas curtindo os ventos de Chicago arrasando Green Bay. Foi quando Rodgers resolveu voltar e nossos ventos viraram brisa. O cara com meia perna conseguiu virar o jogo (23×24) e jogar dúvidas sobre a nossa temporada. Ledo engano. Respondemos vencendo o segundo jogo, em nossa casa, protegendo o Soldier Field e, de quebra, garantindo nosso lugar nos playoffs e eliminando as chances de redenção da temporada perdida: Green Bay estava fora dos playoffs pelo segundo ano consecutivo. 

Aaron Rodgers e Khalil Mack no Lambeau Field, Semana 1 da temporada 2018.

O jogo de hoje não é apenas o kickoff de uma temporada festiva. Ele traz toda essa carga histórica. São 22 títulos e 65 membros do Hall of Fame. Todas as cartas estarão na mesa. Rodgers com aquele olhar de “vou estragar sua festa” e Matt Nagy de viseira respondendo com olhar de “manda ver”. Nesses quase quinze anos acompanhando o Chicago Bears, eu nunca os vi tão prontos, tão motivados, tão monstros. Pela primeira vez Aaron Rodgers teve que estudar um playbook e se preparar de fato para nos enfrentar como um adversário que não pode ser subestimado. Estaremos mais uma vez com as quatro unidades no Soldier Field hoje: ataque, defesa, especialistas e a Nação Bears e todo a sua paixão e gritaria e camisas do Dick Butkus, Walter Payton, Gale Sayers, Mike Ditka, Bryan Urlarcher, Matt Forte, Devin Hester. Chicago pulsa por esse jogo e por essa temporada. E esse jogo começou 100 anos atrás. 

BEAR DOWN!

Obs: Post originalmente publicado no NFL de Bolsa.

Nolite te Bastardes Carborundorum

Nolite te Bastardes Carborundorum

Todo fã da série The Handmaid’s Tale conhece a expressão em Latim acima. É uma espécie de trocadilho com a própria língua – uma piada interna das aulas de Latim da escritora Margaret Atwood – e significa algo como “Não deixe os idiotas te oprimirem“. Dentro da série, a frase tem todo um contexto de resistência e resiliência, um aviso, um lembrete pessoal diário, quase um mantra, de que – a despeito dos idiotas – existe uma saída.

Não precisamos de uma distopia para pensar nesse termo como algo aplicável ao nosso dia a dia. Muitas vezes nos sentimos mal porque deixamos que alguém nos coloque para baixo (ou fazemos isso com um amigo) com um comentário que talvez nem tenha sido maldoso. Não que estejamos cercados de idiotas. Mas às vezes soamos como se o fôssemos. É um desafio enorme identificar essas situações e superá-las sem trauma.

Hoje me deparei com o discurso do saudoso Stan Lee numa formatura da UCLA. Adivinha sobre o que ele falou? Sim: “If you have an idea that you genuinely think is good, don’t let some idiot talk you out of it.

* Se você tem uma ideia e sabe que ela é genuinamente boa, não deixe um idiota te convencer do contrário.*

Em tempos de tamanha polaridade tóxica, precisamos nos lembrar disso.

Excelsior!

Primeiras impressões sobre o Tratado de Livre Comércio UE x Mercosul

Após 20 anos de negociações, o Mercosul e a União Europeia enfim chegam a um consenso sobre o Acordo de Livre Comércio entre os dois blocos. Nunca foi uma negociação fácil e a conclusão dos trabalhos, anunciada ontem (28) em Bruxelas, traz a mensagem de que grandes negociações ainda são possíveis. Em meio à tensa e polarizada conjuntura atual, os dois lados da mesa tem estado à margem das grandes negociações protagonizadas entre a China e os Estados Unidos desde a posse de Trump e, para o Mercosul especificamente, a preferência dos europeus para o nosso mercado consumidor é um claro recado de que o bloco não é um participante inóquo no sistema internacional. Outros países devem passar a olhar para o bloco de forma diferente.

Com números atuais, estamos falando de €88 bilhões em mercadorias (com equilíbrio bilateral) e €34 bilhões em serviços (70% favorável à UE) num grande mercado econômico que representa 25% do PIB mundial e envolve 780 milhões de pessoas. Além do agronegócio e da indústria, o acordo abrange segmentos de serviços, como comunicação, construção, distribuição, turismo, transportes, serviços profissionais e financeiros e permitirá que mais de 90% dos produtos sejam comercializados entre os blocos com tarifa zero, gerando uma economia estimada superior a €4 bilhões por ano em impostos. 

Acho importante salientar que não é auspicioso se deslumbrar apenas com tais números ou com as manchetes que, obviamente, ressaltam que esse é o maior acordo comercial que a União Europeia já concluiu e, no caso do Brasil, o impacto pode ser maior que as aberturas econômicas alavancadas por Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Isso é fato. Porém, o fim de tão longas negociações também reflete o cenário político de cada um dos envolvidos: a proximidade do fim do mandato da atual Comissão Europeia, por exemplo, e até mesmo as eleições na Argentina. Em ambos os casos, numa eventual vitória das respectivas oposições, este tratado estaria fadado a mais alguns muitos anos de discussão. As duas décadas de negociações se justificam pela enorme assimetria entre os blocos, suas prioridades diferentes e pelos interesses próprios que até dentro do Mercosul eram complicados de serem equalizados. Logo, não se deve negar nem subestimar o peso de diversas pressões políticas nas premissas concedidas pelas partes. 

Agora os grupos técnicos iniciarão as tratativas legais para a devida redação e necessárias vinculações jurídicas. É preciso ter muito cuidado para não cair da tentação da adivinhação do futuro mas, com base no pouco que já foi liberado de oficial sobre o tratado, é possível sim fazer algumas considerações sem medo de leviandade.

O agronegócio do Mercosul talvez seja um dos grandes beneficiados do tratado. Isso explica boa parte da festa por parte dos governistas, obviamente impulsionada pela bancada ruralista. No entanto, somente poderemos bater esse martelo depois de analisar dois pontos:

1) O tratado deve seguir os padrões europeus no que diz respeito à legislação sanitária e fitossanitária além de adotar o “precautionary principle”. O princípio de precaução sempre foi inaceitável, um dealbreaker para os negociadores do Mercosul. Pelas regras atuais da OMC, o país importador precisa provar a existência de algum dano (seja no tocante à saúde humana, animal ou ambiental) antes de restringir a importação. Agora, com o princípio de precaução, um governo poderá impor barreiras – mesmo se baseando em estudos não conclusivos – e é o exportador que deve provar que a respectiva exportação não causa dano. Como disse o ex-negociador Pedro Camargo Neto: “há um importante caráter simbólico ao cedermos em uma questão de princípio“.

2) A questão das cotas de produtos ainda não foi detalhada. O que sabemos hoje remete às negociações de 2004, por exemplo, quando – também segundo o ex-negociador Pedro Camargo Neto – o Brasil exigia cota de no mínimo 300 mil toneladas de carne contra a oferta de 99 mil toneladas por parte da UE. Era um ponto tão forte para as partes que paralisou a negociação por anos. Em maio, o Chanceler Ernesto Araújo fez a seguinte declaração em entrevista: “É importante mencionar que do caso do Mercosul, e muito especificamente do Brasil, nesses últimos meses temos feito grandes esforços para renovar nossas posições e atualizá-las de uma maneira que permitam a conclusão do acordo”. Isso indica que um dos esforços pode justamente ter sido o recuo no posicionamento relativo às cotas (assim como recuamos na questão de abandonar o Acordo de Paris). Mesmo sendo o agronegócio um setor altamente rentável, com menor valor agregado e pouca utilização de mão de obra, não sabemos o impacto das cotas nessa equação. O tratado garante ao Mercosul o acesso preferencial para a exportação de carnes bovina, suína e aves, açúcar, etanol, arroz, ovos e mel, entre outros, mas será que as cotas serão suficientemente satisfatórias para compensar a as importações que receberemos dos produtos industrializados europeus notoriamente mais competitivos do que os nossos? 

Já que chegamos aos produtos industrializados, o sentimento inicial é de que os industriais do Mercosul saem como os maiores prejudicados do tratado pois devem perder para os europeus o mercado latino-americano que tinham. Os parques industriais tanto do Brasil quanto da Argentina estão longe do auge de suas saúdes financeiras e apresentam um baixíssimo nível de competitividade. Além disso, um ponto importantíssimo também foi levantado pelo Daniel Rittner – do jornal Valor Econômico – sobre as regras de origem: “Para ser considerado original, um produto feito no Mercosul precisa ter no mínimo 60% de peças, insumos ou componentes locais. A UE costuma ser mais flexível com esse percentual. Como ficou no acordo? Se a regra de origem for muito baixa, corremos o risco de importar produtos travestidos de ‘europeus’, com tarifa zero, que são na verdade japoneses, vietnamitas, egípcios ou sabe-se lá de onde.” E finalmente, para equalizar os diferentes padrões técnicos, o tratado deverá considerar apenas os padrões internacionais – o que é bom para o Mercosul – porém não estão descartados o uso de medidas de salvaguarda que qualquer das partes pode lançar mão quando achar conveniente. Ponto que também deve ser detalhado no futuro.

Um outro ponto de atenção diz respeito à questões de propriedade industrial/intelectual e indicação geográfica. O acordo inclui disposições que cobrem Direitos de Propriedade Intelectual sobre direitos autorais, marcas, desenhos industriais, indicações geográficas e variedades de plantas. A seção sobre Direitos de Propriedade Intelectual também cobrirá a proteção de segredos comerciais. Teoricamente, nada mais justo. Mas como manteremos, por exemplo, a quebra das patentes que originou todo o programa de medicamentos genéricos do Brasil? Sobre a indicação geográfica, estamos falando daqueles produtos que, de tão famosos, são batizados com sua denominação de origem: champagne, queijo parmesão, mortadela bologna, presunto de parma, queijo minas e até a nossa cachaça (que foge à regra do nome mas está nesse grupo) entre outros. Não é uma questão de exportá-los ou importá-los apenas, mas pelo tratado, nenhum produto produzido fora de sua região original poderá levar esse “nome” na embalagem. Se seguir como está rascunhado, o Mercosul protegerá 357 Indicações Geográficas Europeias para vinhos, destilados, cervejas e produtos alimentícios. Será uma enorme dor de cabeça para brasileiros e argentinos e seus muitos imigrantes europeus. 

O tratado possibilita também que empresas dos blocos participem de licitações e concorrências para o fornecimento de mercadorias e serviços para compras governamentais. Nesse caso, estima-se que empresas do Mercosul terão acesso ao mercado de licitações da UE, estimado em US$ 1,6 trilhão, segundo os negociadores brasileiros. Por contrapartida, governos do Mercosul também deverão abrir suas concorrência para empresas européias. Todos deverão competir em pé de igualdade e todos os processos devem zelar pela total transparência e cada país membro (no caso do Mercosul) deverá garantir que todos os processos poderão ser acessados em um único ponto de acesso. Como isso será feito na prática – considerando todas as instâncias envolvidas – eu não consigo imaginar no curto prazo.  

Alguns números já foram estimados e estão sendo comemorados pelo governo Brasileiro: 

  • Até 2035 as exportações brasileiras para a UE devem ter ganhos de US$100 bilhões.
  • O PIB brasileiro deve crescer US$87,5 bilhões em 15 anos, podendo chegar a US$125 bilhões.
  • O aumento de investimentos no Brasil será da ordem de US$ 113 bilhões no mesmo período.

Volto a ressaltar que o anúncio do tratado é apenas o primeiro passo de uma caminhada que pode ser tão longa quanto foram as negociações. Agora vem o esforço de redação e vinculação jurídica, as traduções e a ratificação em cada um dos Parlamentos envolvidos. Lembrando de como o Parlamento Europeu quase derrubou o acordo UE-Canadá, a ratificação deste pode vir a enfrentar obstáculos políticos muito maiores, principalmente se a bancada verde aliar-se com a bancada nacionalista. 

Para os brasileiros. Bom, estamos todos testemunhando a euforia governista, porém eu creio que o uso político do acordo pelo Presidente e sua base de apoio não deve durar muito. O tratado deve fazer com o que o midiático político retraia seu discurso liberal em pontos que ele vendeu como promessa de campanha ou mesmo como barganha para aliados. Questões como proteção ao meio ambiente, liberação de agrotóxicos, relações trabalhistas (incluindo a liberdade de associação), transparência, entre outros são temas que não poderão ser tratados levianamente ou provocarão as devidas sanções aos envolvidos. 

O próprio tratado indica que caberá à sociedade civil – através de organizações não-governamentais ou mesmo sindicatos – uma participação fundamental: tais grupos poderão expressar seus pontos de vista e fornecer contribuições e discussões sobre como o tratado será implementado. 

Acho que não é dessa vez que o Presidente conseguirá “acabar com o ativismo”.

[Texto publicado originalmente no LinkedIn]

A Vertigem

Sim, eu também já assisti o documentário Democracia em Vertigem da Petra Costa disponível desde quarta (19) na Netflix e a vertigem veio com força. Petra narra todo o documentário, dando um toque pessoal ao fazer paralelos com sua vida e, de alguma forma, nos convidando a fazê-lo também. Junto com o filme na telinha, outro filme passava na minha mente e acredito que assim tenha sido com a maioria arrasadora dos espectadores.

A diretora tampouco esconde sua posição política de esquerda nem sua origem burguesa. No filme, ela se proprõe a contar a história da recente democracia brasileira pela ótica da ascendência e derrocada do PT no poder, e vai muito além, ao provocar a contextualização histórica do nosso quadro social. Chega mesmo a fazer uma crítica ao próprio PT que abandonou seus princípios e sua base popular ao escolher suas alianças para a governabilidade. Todo o fio é bem conduzido e as idas ao passado bem contextualizadas.

Chorei em várias passagens e, no fim, posso dizer que me causou profunda melancolia. Imagino que tenha sido assim com qualquer um que esteja à esquerda no espectro político. Somos chamados ao sonho integratório que Brasília deveria representar e ao pesadelo em que seu distanciamento dos grandes centros se transformou. Do brilhantismo simbólico abraçado em seu projeto arquitetônico (a proximidade dos três poderes e a sua total independência) a todos os pecados capitais (desculpe o trocadilho) cometidos para sua entrega. Também somos lembrados do flerte entre a política e o capitalismo na construção da capital e esse é, inclusive, um dos ganchos para o salto à realidade atual do filme.

O que vemos ali na tela, cena após cena, é nosso passado recente e, portanto, com pouquíssimo distanciamente histórico. O que me causou tristeza foi ver o filme acertar ao mostrar como, ponto a ponto, a classe trabalhadora brasileira evoluiu na luta política, ganhou protagonismo, foi traída por seus representantes mais caros, se equivocou no revide, optou por recuar na luta histórica e permitiu que a classe média a convencesse de tercerizar suas pautas escolhendo um governo distante de sua realidade. O governo do liberalismo de oportunidade ou de ocasião. De conveniência.

Nem vou entrar no mérito do real liberalismo (não esse que temos aí). Apenas me refiro à realidade brasileira: nossa jovem repúplica e nossa ainda mais jovem democracia não tem a menor chance de ser completamente liberal. Acredito nisso com toda a força do meu ser. Entendo – como já publiquei aqui anteriormente – que é preciso que haja uma conciliação entre os interesses coletivos e os interesses individuais, assim como os interesses públicos e privados. O Estado precisa ter o tamanho exato para prover educação, saúde e segurança a todos porque não temos saúde institucional para o Estado mínimo. E isso não quer dizer que aceito a máquina administrativa inchada, burocrática e inoperante que temos hoje.

Mas voltando ao filme e ao pseudo-liberalismo que compramos nesse pacote “pós PT”. Me parece que tudo o que vivemos atualmente – e mais no que nunca em nossa história – é o “qualquer coisa de conveniência”: além do liberalismo de conveniência, temos o processo legal de conveniência, o combate à corrupção de conveniência, o impeachment de conveniência! É a era do “fim justifica os meios”, mas que fim? Apenas o fim que convém a alguns. Isso também aparece no filme, quando ele mostra os já notórios áudios do “grande acordo nacional, com o supremo, com tudo”. E reforça nossa melancolia ao perceber que, mesmo validados, seu conteúdo não espantou quem bateu palmas e panelas para o impeachment. Afinal, era contra o PT. E para tirar o PT vale tudo: “vamos acabar com o ativismo!”, “vamos fuzilar os petralhas!”.

Representar qualquer parte do grande espectro da esquerda praticamente voltou a ser subversivo. Homo homini lupus (Hobes deve estar dando pulos onde estiver). O brasileiro transformou aquele que não pensa como si em inimigo. Também está no documentário: a senhorinha comemorando a prisão dos ativistas contrários à sua causa apenas por isso, por serem contrários à sua causa. Não debatemos mais ideias: atacamos as pessoas. Essa é uma das lições de um guru astrólogo – fisólofo de araque – passada boca à boca (ou zapzap a zapzap) e colocada em prática por seus asseclas sem questionamento. E pior: aceita pelos populares.

Acho que o grande mérito do documentário é a sua fé de que sua missão seja que, entendendo o que aconteceu, podemos voltar a acreditar num futuro melhor. Nesse momento, talvez pela falta do já citado distanciamento histórico, ou mesmo por conta das lamentáveis e super questionáveis desmontrações individuais de falta de humanidade e cidadania validadas pelo novo governante e sua trupe, eu ainda não partilho desse nobre sentimento. Espero voltar ao modo Polyana em breve.