Escolha curiosa: o Pavão Misterioso

Ontem uma arroba anônima de vida curta usou o pseudônimo “Pavão Misterioso” para atacar o jornalista Gleen Greenwald e seu The Intercept Brasil no twitter. Nem vou entrar no mérito da fanfic em forma de denúncia tosca da história toda. Apenas fiquei encafifada pela escolha da alcunha.

Pavão Misterioso – a música – foi escrita pelo cearense Ednardo em 1974 – em plena vigência da didatura militar – e ganhou o Brasil ao entrar na trilha da novela Saramandaia (1976). A música é lindamente ritimada e ganhou mais de 20 regravações (Amelinha, Belchior, Elba, Paul Mauriat, etc). O que pouca gente sabe é que ela é baseada num cordel: O Romance do Pavão Misterioso de José Camelo de Melo Rezende, de 1923 – esse aí da imagem do post. Não se trata de um folheto qualquer, mas do mais vendido de todos os tempos e considerado o maior clássico da literatura de cordel

O romance de 141 sextilhas conta a história de um jovem turco chamado Evangelista que, através de uma foto trazida pelo seu irmão João Batista, instantaneamente se apaixona por Creusa, uma jovem condessa grega que vive reclusa em um sobrado e aparece apenas uma vez ao ano para os turistas e curiosos que lhe aguardam abaixo da janela da propriedade de seu pai. Convencido de que está apaixonado e de que deve tomar Creusa por esposa, Evangelista cata sua pequena fortuna (metade da herança deixada por seu pai) e parte para Atenas, onde aguarda a aparição anual da donzela e confirma seu desejo. O jovem analisa suas possibilidades e resolve contratar um “artista”, alguém que lhe ajude no estratagema de chegar ao quarto da moça. 

Ele vai até a “Rua dos Operários” e conhece Edmundo, um “engenheiro profundo” (“Para inventar maquinismo / Ele é o maior do mundo“). O engenheiro-artista desenha então um mecanismo alado. Em suas palavras: “Eu fiz um aeroplano/ Do formato de um pavão/ Que se arma e se desarma/ Comprimindo em um botão/ E carrega doze arrobas/ Três léguas acima do chão.” E, voilà, temos nosso pavão misterioso! Aquele que é “pássaro formoso, tudo é mistério nesse seu voar“. 

Notamos aqui que não se trata de uma ave mítica, de mágica ou mesmo de ilusionismo, tática normalmente usada por colonizadores contra suas colônias. É justamente o contrário. Trata-se de ciência e tecnologia usadas contra um opressor. Sim, opressor, afinal, a jovem reclusa implora ao pai por liberdade após conhecer Evangelista e o conde ameaça matá-la por isso. Ele não ouve a filha, não considera suas vontades ou seus argumentos e apela à opressão (seus guardas) e ao medo (a ameaça de matar qualquer empregado que fale com a filha) para manter seu status quo.

O romance – de grande apelo popular – retrata uma uma aventura de amor e até de heroísmo, onde um jovem herdeiro se dispõe a abrir mão de suas posses pelo amor da donzela e acha, na Rua dos Operários, sua solução. Ao transcrever o cordel para a música, Ednardo capturou brilhantemente essa metafóra para, em versos, atacar o autoritarismo e a limitação das liberdades individuais vigente no regime militar. Com maestria ele despejou ambiguidade aos versos “Me poupa do vexame / De morrer tão moço / Muita coisa ainda / Quero olhar” assim como em “No escuro dessa noite / Me ajuda, cantar / Derrama essas faíscas / Despeja esse trovão / Desmancha isso tudo, oh! / Que não é certo não” e finalmente em “Não temas minha donzela / Nossa sorte nessa guerra / Eles são muitos / Mas não podem voar”.

Em tempo, dizem até que índios do Xingu adotaram a canção para um de seus ritos sagrados. Escolheu bem, nosso amigo acusador, não?

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#EleNão

[Disclaimer: Esse texto foi postado no Facebook, uma forma de desabafo durante o período eleitoral. Veio para o blog pela vontade de registrar meus pensamentos para além da bolha.]

Eu queria muito saber que desespero é esse de atacar as pessoas com quem não se concorda. Eu tô aqui vendo as coisas e achando tudo lindo e OK, pois afinal AINDA é uma democracia e AINDA temos esse direito. Posso não concordar mas jamais eu te confrontaria, no seu espaço. Apenas expresso, aqui no meu espaço, meu apoio ou não para essa ou aquela pauta. Então, brother, quer conversar, vem de boa. Eu converso. Tem um monte de gente aí de centro e de direita que tá contestando na elegância e tá maneiro. Se alguém chama pra conversa eu até vou no post alheio palpitar mas, com raras exceções, normalmente me aborreço. Por que? Porque só vejo os mesmos esperneios que vemos em toda parte. Então não traz isso pra cá, não, ok? Não vem com memezinho lacrador que nasceu num grupo de Whatsapp que tem resposta pronta pra tudo. Sou essa insuportável rata de internet que conhece o fluxo e a vida de um meme. Então sei que o que você tá compartilhando nasceu num Reddit de uma força tarefa que só tá fazendo isso: preparando respostas em forma de MEME pra serem usadas pela massa de manobra para desacreditar adversários.

Vamos facilitar: 
1) Já disse aqui que fiz uma limpa e quero usar essa rede fechada de amigos e conhecidos com gente com a qual eu me importo, que tenho carinho e que me faz bem. Se você ler essa mensagem, não tem mais nenhum filtro ou configuração misteriosa não: é porque você já passou por essa triagem e, em bom carioquês: te considero PRA CARALHO. Estou longe e amaria continuar acompanhando sua vida e seus momentos, suas lutas, seus pensamentos nessa rede. Ponto.

2) Eu sou Esquerda. Às vezes me aproximo do centro-esquerda, mas normalmente é só um lapso e passa logo. AND sou um tanto progressista: eu aceito que haja uma conciliação entre os interesses coletivos e os interesses individuais. Nada é preto no branco como muita gente acredita: ontem mesmo saiu notícia de que nos Estados Unidos (a pérola dos olhos de todo liberal) existe um forte viés de regulamentação nos provedores de internet. Ou seja, nem a Deus nem ao diabo. Vamos conciliar essas pautas, esses interesses aí. Devagar com o andor que um dia a gente chega lá.

3) Não consigo me desassociar das pautas humanas e sociais. Já passei por muita coisa nessa vida (diria Serginho Meriti) e conheci gente de toda cor, raça de toda fé e que me ensinou muita coisa me transformando no que sou hoje e que vocês tanto amam (pelo menos eu acho né ^^). Por conta disso tudo e do supracitado alinhamento, eu também posso afirmar que apoio gays, bis existem, me comovo com xs trans e acho que se todo mundo assistisse Ru Paul’s Drag Race o mundo seria um lugar muito melhor. Consequentemente sou contra Escola sem Partido e isso não quer dizer que eu seja a favor que as crianças sejam erotizadas. Apenas que, a seu tempo, elas devem ter sim acesso à educação sexual por uma questão de saúde e segurança. Para que ela saiba exatamente o que é pedofilia e saiba pedir socorro se precisar. Para que ela aprenda subsequentemente o que assédio e tbm saiba se defender ou respeitar o outro. Sou a favor da descriminalização do aborto porque pra mim é uma questão de saúde pública. Sou a favor da Lava-a-Jato e lamento demais que a Lei não seja efetivamente para todos. Repito todos os dias o que Darci Ribeiro profetizou: “se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. E estamos condenados a esse ciclo infinito de 20 anos ad eternum e ainda tenho que ouvir que “bandido bom é bandido morto”. Perceberam? Eu também sou contra a flexibilização do porte de armas. O que mais? Eu tenho zero respeito pelo MBL. Ah, e eu tbm amo Djavan e Oswaldo Montenegro, não falem mal deles perto de mim.

Bom, isto posto, devo concluir que estou muito mais próxima do PSOL e do PDT do que do PT. Então não me venha com esse nhenhenhen de MAS E O PT porque não é deles o meu voto. Tenho votado no PSOL praticamente sempre, desde que eles passaram a ter candidatos próprios. Sobre esses partidos mais recentes, ainda não formei opinião, logo, quando preciso vejo que são as pessoas envolvidas e guardo aqui na minha caixola para uso futuro pertinente. O importante aqui é que entendo que no primeiro turno, à exceção de brancos e nulos, todo voto é útil e importante.

Ok? Então só falta uma última e derradeira observação: eu nunca vou votar no Bolsonaro. É incompatível com tudo o que sou e que acredito. Assim, decidi postar e compartilhar em minha própria timeline os absurdos da sua candidatura porque eu acredito que temos muita diferença social para aplacar ainda e porque quero tentar mudar a cabeça de quem intenciona votar em branco ou nulo. Se mudar de mais alguém, excelente, mas se não mudar OK também. Mas se você tá de boa com a sua escolha, eu também estou de boa com você. Não é você meu público alvo.

Extrapolando para a grande probabilidade de segundo turno e é aqui o ponto crucial deste interminável oversharing: eu também não vou votar no Bolsonaro. E aqui sim, se tiver que votar no PT, paciência. Penso que agora – depois de tanto escândalo, tanta investigacao – nós conhecemos suas artimanhas. Conhecemos seus pontos fortes e fracos. Podemos domar essa fera com as ferramentas do Estado democrático. Posso ser ingênua mas acredito demais na democracia.

O que eu não conheço é Bolsonaro com poder. Dê poder a um homem e verás quem ele é. Não, passo. Conheço o seu histórico, sua personalidade pública que sempre foi alardeada e exaltada por ser radical por ele mesmo, seus filhos e seus próximos. Ninguém tá inventando ou distorcendo nada contra ele. Tudo está e esteve sempre disponível por aí e às claras só que agora querem que a gente acredite que ele é moderado. Que nunca quis dizer o que disse e repetiu tantas vezes. Ou seja, que por dentro ele é meigo. Quase fofo, certo. Sério? A verdade é que seu discurso legitima outros iguais ou piores que o seu próprio. Já fui ameaçada na internet por ser uma feminista vagabunda escrota. As pessoas perderam o medo de agredir. Também conheço sua baixíssima produtividade e seu corporativismo. E esse homem com poder, aliado à incompetência de uma equipe que não se entende agora que ainda estão em campanha e somados a esse exército de asseclas acéfalos – a parcela má intencionada do seu eleitorado, aquela que forja notícias, manipula vídeos e fotos, hackeia adversários – só me fazem acreditar que sem esses subterfúgios não há coisa boa, legítima e original a ser apresentada. Afinal eu também teria vergonha de compartilhar aquele ppt pífio e sem vergonha que chamam de programa de governo. Ah Cláudia, mas você não pode responsabilizá-lo pelo que seus eleitores estão postando. Posso sim quando ele faz o João sem braço e não só não repreende como ainda alimenta: tudo Fake News / Olha, se eu perder é fraude e por aí vai.

Não existe solução simples e ele está se vendendo como solução mágica e imediata pq estamos putos com o PT. Mas construir uma nação dá trabalho, gente. Não dá pra terceirizar e deixar de lado. A vigilância deve ser constante. Sempre.

Bom, é isso. Se depois de me conhecer mais esse tantão você concluir que sou algo entre uma ingênua insuportável e uma feminazi vagabunda escrota que você não pode tolerar, eu entendo. Vai lá e desfaz amizade, não precisa nem avisar que aí eu não vou perceber a dor de imediato. Vida que segue, um dia a gente se encontra. Eu não vou desfazer daqui pq se não desfiz até agora é pq do meu lado ainda está tudo xuxubeleza entre a gente e eu prometo, na saúde e na doença, sempre te respeitar. Só quero que me respeite também.

Se APESAR de tudo isso você ainda quiser minha companhia, u-hull tamujunto! Porque no fim a gente vai se entender e vai lutar junto independente da ideologia.

Flw, vlw quem leu até aqui, minha admiração eterna. #EleNao #Elenunca#VemMeVisitarEmGuaira #Pas

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Gente que Importa

No princípio era o “e se”. E se fosse no Rio? Onde seria, como seria, quem viria? Sim, eu me fazia essas perguntas a cada edição dos Jogos Olímpicos que começava imponente na TV. Por mais que eu tivesse vários eventos prontos na cabeça para responder essas perguntas, se alguém dissesse à Cláudia de 8 anos (chorando com o Misha), para a Cláudia de 12 (emocionada com o Joaquim Cruz) ou mesmo para a Cláudia de 16 (que gritou e vibrou e chorou com a geração de Ouro do Vôlei) que um dia ela efetivamente organizaria uma edição dos jogos, eu duvido muito que ela acreditaria. Confesso que eu mal acreditei quando fui chamada para a entrevista de emprego. E toda a emoção que senti ao fim daquele processo é exatamente proporcional à grandeza da responsabilidade que me esperava: apenas imensa.

E aqui estou. Há 1369 dias numa rotina sem rotina. O grande desafio era fazer o que eu já sabia — importar — dentro do cenário dos jogos, com todos os clientes e stakeholders envolvidos no processo. Tive a sorte de chegar no momento certo, a gerência recém criada (oi Chefe, obrigada por tudo!!!) e ter tempo para entender a legislação específica, alinhar e desenhar os fluxos, ajudar na busca das parcerias e já começar a tratar o que já tinha que acontecer, lá naquele momento zero. Desde que a Logística destes jogos existe como departamento, já passou de tudo um pouco na minha mão: os primeiros pins colecionáveis, alguns vários brindes, os Macs e iMacs (para o pessoal de design fazer o trabalho incrível que vocês conhecem), os servidores que guardariam os diversos portais por vir (a começar pelo de Voluntários) e outros tantos itens de Tecnologia (incluindo sofisticados equipamentos de videoconferência que poupariam muito dinheiro em passagem aérea). Também vieram os Mascotes (que na época nem nome tinham ainda) e os amigos (aqueles antigos que vieram para o lançamento dos novos, lembram?) e foi incrível demais fazer parte disso e ver o quanto eles são queridos!

A coisa começou a ficar séria quando começaram os Eventos-Testes. O que desenhamos funcionaria? Os órgãos do governo cumpririam o alinhamento? Os fornecedores conseguiriam seguir nossas instruções? E a roda começou a girar. Nossa equipe já estava mais robusta — agora já existia a Logística Internacional — e meu foco já estava se concentrando nos equipamentos esportivos. Vieram os primeiros uniformes, os obstáculos para o Hipismo, barcos de apoio para arbitragem e jornalistas, barcos de competição, o trabalhoso deck e as compridas raias da Lagoa; vieram itens diversos de arbitragem (desde apitos até moedas de sorteio, equipamentos de vídeo e até binóculos!), todos os itens para as quadras de Tênis de Mesa e Badminton (tudo, de porta-toalhas a mesas!) e os velhos conhecidos equipamentos para o Vôlei (tanto o de quadra quanto o de praia); trouxemos itens curiosos como as ambulâncias equinas, um cavalo mecânico, os adesivos numéricos para identificação dos atletas da Maratona Aquática, o sistema de som subaquático para o Nado Sincronizado, os bonecos (dummies, com e sem pernas!) para treinamento de lutas, equipamentos antidoping de raquetes (?!), os portões de partida, cercas infláveis e marcadores de chão para as provas de Ciclismo (BMX e Mountain Bike); toda a madeira que se transformaria quase que artesanalmente na incrível pista de Ciclismo de Velocidade (sim, o Velódromo — aquele!!!); tinta para pisos e toda gama de pisos em si, para as diversas arenas fechadas, as do Riocentro, os tatames, os antiderrapantes dos esportes aquáticos e até mesmo o gramado sintético do Hóquei (aquele do azul lindo e hipnotizante); os alvos e demais equipamentos do Tiro com Arco, ringues e toda a gama de equipamentos e uniformes de treinamento e competição do Boxe (minha primeira importação do Paquistão), anilhas para o Levantamento de Peso, as tabelas do Basquete — queridinho da galera — e inúmeras camas elásticas (não, elas não usadas apenas na Ginástica de Trampolim); tocamos o embarque de cargas compridas demais (que só cabiam em voos cargueiros) como os trampolins do Salto Ornamental e todas as traves — do Futebol, Handebol, Goalball e as enormidades do Rugby; todos os colchões e pódios e todos, todos, todos os equipamentos das Ginásticas (sim, todos!); os equipamentos para o Tiro Esportivo, incluindo aqueles pratos-alvos que viram poeira colorida — exceto as armas e munições (ahhhhh!); boa parte dos equipamentos das modalidades diversas do Atletismo e mais de quinhentos itens que fazem parte das especificações do campo de Golfe (achou que era só grama, buraco e bandeirinha, né?); os equipamentos médicos de diagnóstico de primeiríssima geração para a Policlínica da Vila de Atletas; os equipamentos super high-tech da Esgrima; e bolas, bolas e mais bolas — pra lá de cinquenta mil (yeah!) — para todos os esportes que usam bolas (ora bolas), menos o Futebol (ah, esse é comum demais, né?). Tive também a chance de acompanhar a importação dos uniformes de toda a força de trabalho (50 contêineres), das nossas lindas tochas Olímpicas e Paralímpicas, e dos nossos valiosíssimos ingressos. Como se não fosse o bastante, agora, em tempos de jogos, ainda tenho o privilégio de ajudar — ainda que timidamente — na operação de Cavalos. É por isso que sou forçada a repetir: eu amo o meu trabalho!

Hoje é difícil imaginar uma instalação de treinamento ou competição sequer que não tenha um pouquinho ou um montão do meu suor (ou das minhas lágrimas, se você me conhece bem). E se você encarou o textão e chegou até aqui, certamente vai se lembrar de mim a cada competição que comparecer ou mesmo assistir. E vai sorrir por mim, que eu sei. E sorrindo por mim, vai sorrir também por uma equipe fantástica que fez um trabalho maravilhoso e da qual me orgulho muito de fazer parte: gente que importa!

Tem problema demais na nossa cidade? Sim. No nosso país? Demais! Não sou louca de negar nem tão pouco de pedir que os esqueçam. Nada disso. Peço apenas que vejam o que estamos entregando apesar de todos esses problemas! Os Jogos estão apenas começando para o mundo e nosso trabalho está muito longe de terminar, mas eu estou muito, muito feliz de ter chegado até aqui com essas metas atingidas, ajudando a mostrar que é possível sim — a despeito do momento delicadíssimo que vivemos — entregar aquilo que nos comprometemos e que existe sim uma grande chance de que os atletas — nossos clientes mais especiais — atinjam aqui no Rio a sua melhor performance e, assim, sigam nos inspirando a ir mais longe, mais alto e a sermos mais fortes.

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Faltam 50 dias!

1319 dias de tanta coisa… Tanta conta, tanta lei, tanta norma, tanto stakeholder, tanto suor, tanto prazo justo, tanta ansiedade, tanto sono perdido, tanta negociação, tanta adrenalina, tanto “não, isso não é comigo”, tanto “poxa você devia ter falado comigo”, tanto “porra, cara, decide isso aí”, tanto “calma cara, confia em mim”, tanto desabafo, tanto “preciso de uma cerveja”, tanto “uau isso ficou lindo!”, tanto cansaço, tanto “ufa”…. Mas apenas um importa: “Viu, eu não disse que ia ser incrível!”. Mas esse é só daqui a 66 dias
Se eu estou animada, Facebook? Animada é pouco!

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Das Confissões

De vez em quando me agarro a falas da ficção que ficam remoendo por dentro, seja por administração ou mesmo por identificação. Já falei inclusive num post velho que vivo repetindo falas do cinema de forma aleatória no meu dia a dia. Algumas não são para repetir, são para refletir. Uma delas é uma óbvia confissão de How I Met Your Mother:

“Actually, there is a word for that. It’s love. I’m in love with her, okay? If you’re looking for the word that means caring for someone beyond all rationality and wanting them to have everything they want no matter how much it destroys you, its love! And when you love someone y-you just don’t stop. Ever. Even when people roll their eyes, or call you crazy, even then, especially then! Y-you just don’t give up, because if I could give up, if I could just take the world’s advice and move on and find someone else that wouldn’t be love! That would be some other disposable thing that is not worth fighting for… But that is not what this is. So please, can I have the locket?”

Romântica, eu? Nego até morrer!

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#Aos40

dezvintetrinta40

Quarenta. Pesado. A força de um número que assusta, afugenta, pira. Tanto que tá aí, atraso de um ano para escrever sobre o assunto. O título, meus caros, mais justo e mais honesto, deveria ser #Aos41. Porque agora passou o susto. Agora sai. Agora, oras, é tudo muito mais simples. Mentira! Um pouquinho só mais simples. Mas muito menos torturante, talvez até elucidante e, com sorte, um tanto enebriante. O fato é que a resignação chega benevolente e o número em si perde bastante da força. Na verdade ganha em charme.

A despeito da pressão do tempo e da força da gravidade (implacável aos sedentários como eu), uma série de novas percepções chegam (sim!) para dar charme a quase todos os aspectos desta quarta década. Ameniza-se principalmente (e providencialmente, convenhamos) a obrigação de provar algo a alguém. A sentença usualmente proferida pelo júri da roda viva do mundo que tudo vê e nunca descansa perde o sentindo e o poder sobre você. Se provou o que se queria nos trinta, ótimo; se não, dane-se. A prioridade agora é ter outras prioridades. É viver o que não se viveu porque até então era vital provar seu valor. O foda-se sincero e libertador que, acreditem, dificilmente chega ainda nos trinta. Também é hora do desapego da pressa e, assim, some de vez qualquer resquício da necessidade daquela coisa toda, do tudo ao mesmo tempo agora. É tudo agora, mas é do meu jeito. Sem o torpor, o fulgor, a energia e a obrigação cliché da eterna mulher moderna. Intensidade e suavidade coexistem numa harmonia disléxica porém conveniente para determinar um ritmo novo e particular, um novo olhar. Novos brilhos no olhar.

Até as cicatrizes doem diferentes. O “só me arrependo do que não fiz” perde sentido até para ser tema de camiseta. É o tempo da serenidade que permite que se reflita, sem dor ou autopiedade, sobre as escolhas ruins e perceber que sim, havia um jeito de fazer diferente que facilitaria muito as coisas. Poder dizer que errou e que não vai errar de novo nesse tipo de escolha porque essa dor não queremos mais. Enfim a confiança! A segurança que chega e dá sentido àquele verso oitentista que fala do “certo ar cruel de quem sabe o que quer”. E o que não quer.

Deve ser isso que alguns chamam de maturidade. Oxalá que seja. Ainda não resolvi a distância entre mim e os quarentões da minha infância. Tenho uma velha sensação de que aqueles lá estavam sempre ocupados demais sendo adultos enquanto eu aqui só quero sossego, simplicidade, bom humor e boa companhia. Porque nesta altura também se conclui depois de duras penas que solidão a dois (ou a três ou a xis) é das bostas do mundo umas das mais fedorentas. Você é livre para escolher sua companhias, seus amores e seus amigos. E sabe agora que não vale amar por mais ninguém. Vale amar por si só os seus eleitos e amar-se sem culpa, antes de tudo. Sensibilidade que se redefine.

Agora, #Aos41 já sei que esse planeta denominado #Aos40 é mais que habitável: é confortável. Nele, a terra é a certeza do hoje, ainda que ainda haja inúmeras paisagens a desbravar; o oceano é escolha, cheios dos altos e baixos que podem até mexer com seu estômago, mas não te enjoam mais tão facilmente; e o céu – ah! o céu! – se você tiver sorte, ele nada mais é que uma atmosfera de integridade, resquícios das suas respirações pausadas ou ofegantes, não importa, mas que lhe encherá o peito e involuntariamente erguerá sua cabeça. Quem não quer esse mundo?

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Cartinha

Bom dia, Minha Querida!

Nem preciso dizer o quanto sinto de saudade, né? Sei que você acompanha tudo por aí. Sei que você zela por todos nós de alguma forma. E por isso sei que você sabe que minha vida se ajeitou, pois no fim tudo se ajeita e os giros do mundo não me enjoam mais.

Imagino seus olhinhos brilhando e viajando comigo pelo mundo. Sim, Mãezinha, finalmente viajo pelo mundo! Sassariquei (friorenta como você) pelas ruas de Nova York. Foi bem inusitado e, não fosse assim, era bem capaz de eu não ter ido. Mas foi lindo! Cheguei lá no dia de Natal (espero que não tenha ficado brava por não ter ficado com a família) e passei o réveillon na capital do mundo. Sei que você teria se orgulhado. Cores, lugares e sabores que eu queria muito poder ter dividido com você. E agora vou para a Europa, Mãezinha! Imagina o deslumbramento? Tá tudo sendo combinado ainda mas vai acontecer. Te conto tudo depois. Apenas peço por ora que abençoe meus planos.

E meu trabalho? Você tem visto? Também imagino sua carinha de orgulho contando para as pessoas o quão perto estamos de participar de um momento histórico. Estou muito feliz, como há muito não me sentia em minha vida profissional. Um desafio enorme, muitos percalços. Mas eu sigo confiante de que existe um trabalho bárbaro sendo feito, a despeito do que os sabichões acham que sabem. Sei que você me entederia.

Estou no ônibus, indo passar o dia das mães com a Vi, as crianças e com o seu bisnetinho. Dessas coisas abençoadas que a vida apronta com a gente, Mãezinha, o seu bisnetinho chegou pouco depois da sua partida. Impossível não montar a imagem dele em seus braços e você (que nunca foi lá muito chegada a fotos) não saberia se sorriria ou faria uma careta. Ele iria te nocautear de amores, como fez com cada um de nós e você se surpreenderia com a mãezona que sua neta se tornou.

E a tarefa dela é dificílima! Ele vai crescer num mundo complicado, mais imediatista do que nunca. Um mundo onde as pessoas têm achado bonito “fazer justiça com as próprias mãos”. Onde se condena antes de julgar. Onde se julga antes de conhecer e onde o direito de um não acaba onde começa o do outro. Um mundo onde respeito ao outro ficou demodé. Vai ser difícil ensiná-lo essas coisas simples que você nos ensinou.

Vamos tentar, Mãezinha. Não vamos desistir. Sim, porque você sempre ensinou que não devemos ser “fogo de palha”. Vamos estar sempre por perto, lhe enchendo de amores e honrando a sua memória a cada lição que passarmos. Mostrando como usar essa bússola sensível e frenética do certo e errado, como você nos ensinou.

Por fim, saiba que estamos bem. A saudade não passou. Só parou de machucar. Fique com meu abraço forte, recheado das melhores e mais belas lembranças.

Sua Cacau.

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O que eu quero? Respeito!

Lá se vai mais de um século de Dia Internacional da Mulher. Em tempos de acesso simples a fontes históricas, nunca houve tanta gente sem saber exatamente do que se trata. É quase uma festa. Um dia de homenagens. ~Parabéns, por ter nascido mulher, por ser linda e delicada e sensível e por ter o dom de gerar a vida~ e por aí vai. Não! Não quero parabéns por ter nascido com útero. Quero respeito! E (me desculpe, Aretha) nada de a little. Quero todo o respeito que mereço. No mínimo do tamanho desse século de lutas.

Vejamos o videozinho abaixo e sejamos totalmente honestos: quantos destes rótulos nós já não repetimos, em voz alta ou em voz baixa, voluntária ou involuntariamente?

Essa é apenas uma das lutas diárias. Pela igualdade de fato. Contra o machismo entranhado que nem sentimos. Contra o sexismo aceitável da piadinha ou do assédio. E agora, contra a “festivização” do 8 de março. Não é o endeusamento da mulher. Parem! Não minimizem ou banalizem a batalha de tantas mulheres que arriscaram vidas e reputações e empregos para que hoje possamos ter voz, ter representatividade, ter escolha. Ter escolha. A escolha de ser quem e o que quisermos. E que essa escolha, ou melhor essas – todas e quaisquer – escolhas sejam respeitadas.

No meu imaginário perfeito, no Dia Internacional da Mulher, a mobilização seria para o exercício do anti-sexismo. Escolinhas, escolas, universidades, centros comunitários, empresas, programas de TVs, todos colocando o dedo na ferida das piadas ofensivas tão toleradas (ou aceitas e propagadas mesmo) de cunho sexista. Debatendo os cenários de humilhação e escárnio do revenge porn.  Desenhando os direitos e deveres dos cidadãos – da igualdade desses deveres e direitos – e aplicando isso ao direito de ir e vir da mulher – com a roupa que bem entender – e que isso não dá a ninguém o direito de abordá-la à revelia da sua vontade e muito, muito menos de estuprá-la com base num julgamento deturpado de valores e poderes. Só exemplos, claro.

Neste Dia Internacional da Mulher perfeito, não haveria acusações gratuitas de ~feminazismo~ por celebrarmos estas vitórias históricas ou cotidianas. Apenas uma perene e linda ode ao respeito. E assim, quem sabe um dia, não respeitaremos homens ou mulheres: respeitaremos a pessoa.

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Adaptações

Sabe quando você tem muita coisa na cabeça? É mais ou menos isso aí…

“Do I have an original thought in my head? My bald head. Maybe if I were happier, my hair wouldn’t be falling out. Life is short. I need to make the most of it. Today is the first day of the rest of my life. I’m a walking cliché. I really need to go to the doctor and have my leg checked. There’s something wrong. A bump. The dentist called again. I’m way overdue. If I stop putting things off, I would be happier. All I do is sit on my fat ass. If my ass wasn’t fat I would be happier. I wouldn’t have to wear these shirts with the tails out all the time. Like that’s fooling anyone. Fat ass. I should start jogging again. Five miles a day. Really do it this time. Maybe rock climbing. I need to turn my life around. What do I need to do? I need to fall in love. I need to have a girlfriend. I need to read more, improve myself. What if I learned Russian or something? Or took up an instrument? I could speak Chinese. I’d be the screenwriter who speaks Chinese and plays the oboe. That would be cool. I should get my hair cut short. Stop trying to fool myself and everyone else into thinking I have a full head of hair. How pathetic is that? Just be real. Confident. Isn’t that what women are attracted to? Men don’t have to be attractive. But that’s not true. Especially these days. Almost as much pressure on men as there is on women these days. Why should I be made to feel I have to apologize for my existence? Maybe it’s my brain chemistry. Maybe that’s what’s wrong with me. Bad chemistry. All my problems and anxiety can be reduced to a chemical imbalance or some kind of misfiring synapses. I need to get help for that. But I’llstill be ugly though. Nothing’s gonna change that.”

Extraído da cena inicial de Adaptação (2002).

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Perdas e danos

~me disseram que você estava chorando~

claro que estava

feliz

olhos brilhantes

quase ~vi~

mas ~me disseram~

e por isso eu chorei

e morri

mais uma vez

no processo de destruir o meu ideal de nós dois

perdi o seu ideal de nós dois

perdi

 

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