Que horas a gente volta?

Defendido pelos eleitores e pela base de apoio do atual governo como uma “exceção técnica” num rol de indicações pra lá de duvidosas, o Ministro Paulo Guedes acabou se revelando a velha e boa farinha do mesmo saco ao declarar, no último dia 12, que “doméstica ia para Disney com dólar barato, ‘uma festa danada’” e, por isso, era conveniente ter a moeda brasileira tão desvalorizada frente ao dólar americano. Técnico ou não, com essas exatas palavras, ele acaba confessando que o governo vai sim lançar mão de ferramentas liberais a qualquer preço. O que parece cada vez mais claro é que manter a gritante desigualdade social brasileira não parece mais ser uma mera casualidade, um custo a ser pago pela recuperação econômica. Trata-se de um claro objetivo.

“Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vamos importar menos, fazer substituição de importações, turismo. [Era] todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia, uma festa danada”.

Paulo Guedes

Na esteira do impeachment, nosso congresso aprovou as reformas que enormes e grandes e médios e pequenos empresários tanto pediam. Tudo com a chancela da imprensa corporativa (olha, mais empresários!) que vivia a repetir que sem tais reformas o país emperrava. Concessões foram feitas à boa e velha base aliada, e os mais humildes se viram esmagados pelo rigor de regras liberais com zero piedade ou tampouco regras razoáveis de transição.

Bom, tem gente aí muito mais capacitada para falar sobre isso do eu. O que eu quero dizer é que o governo representa muito bem seus eleitores. São muitos os que pensam exatamente assim: que o pobre esqueceu o seu lugar. Usando como exemplo o tema “viagens” escolhido pelo Ministro, eu mesma cresci achando que viajar não era pra mim. Criada na Baixada Fluminense, na base da bolsa de estudos da escola particular, formada na faculdade também com bolsa porque a empresa onde eu trabalhava cobria 75% do valor das mensalidades, cheguei à vida adulta e profissional achando que nunca teria grana suficiente para viajar, a despeito de ver colegas próximos viajando todo ano nas férias. Só fui descobrir que podia viajar ao exterior aos 40 anos, quando uma amiga – que ocupava o mesmo cargo que eu – planejou uma viagem para Nova Iorque e me mostrou os números dos parcelamentos de passagens e hospedagem e como daria para usar o abono de férias para comprar os dólares que usaríamos por lá. No ano seguinte, usando a mesma tática dos parcelamentos prévios, fiz minha primeira viagem para a Europa. O ponto é: até então, e mesmo ganhando bem, eu acreditava piamente que viajar não era para mim.

O ator Paulo Vieira relatou numa thread no twitter que teve uma baita crise de culpa por estar consumindo itens da Apple em Nova Iorque e que seu lugar não era lá. Bateu a bad que o que ele gastaria podia pagar vários meses de aluguel e que tinham parentes próximos passando necessidades, em situação de tabalho escravo enquanto ele passeava no Central Park. Mesmo tendo trabalhado para receber cada centavo, ele tampouco acreditava que podia estar ali.

E é aí que quero chegar. Essa seria uma bela semana para levantarmos aquela velha e batida hashtag #SomosTodosDomésticas porque é isso que somos. Somos todos as domésticas do Guedes, de seus amigos e seguidores. Eles querem se sentir únicos, especiais e não querem a classe média emergida nos governos anteriores dividindo seus privilégios. Eles têm horror a isso! Quem lembra da Danuza reclamando que ricos já haviam perdido o Carnaval, o Maracanã e os fogos na Praia de Copa para os populares e que agora, por R$50 mensais, os porteiros também podiam ir para Paris ou Nova Iorque? “Que graça tem?” perguntava a colunista.

Ou alguém já esqueceu da professora da PUC que legendou uma foto em seu feed com “Aeroporto ou rodoviária” referindo-se a uma suposta queda no glamour e no nível social dos frequentadores do aeroporto. Sua indignação foi alvo da empatia de outros professores e até mesmo do reitor da UniRio, mostrando que nem da docência podemos esperar sempre a decência de respeitar o próximo. Dia desses, um jovem senhor comemorava no Facebook (perdi o print) que o novo governo estava colocando as “coisas” no lugar pois ele havia conseguido empregados (garçons e copeiros) para a sua festa de réveillon sem que eles ousassem pedir um preço exorbitante (diga-se decente) para serví-lo e a seus convidados. São pessoas que acreditam que contratar é fazer favor e por isso a precificação tem que ser unilateral. Se você quiser exemplos que se atualizam diariamente, pode passar nojinho vendo a timeline do perfil @VagasVNTC no twitter onde praticamente existem provas cabais de que estamos a um passo da volta da escravidão.

Em 2017, João Amoedo escreveu com todas as letras que era a favor do combate à pobreza porém contra a distribuição de renda, seja lá o que isso quer dizer. Eis aí a nossa elite descarada, sem máscaras. A mesma elite que hoje tenta imputar um tom professoral ao discurso do ministro para tentar justificar o constrangimento inicial. De nada adiantou: o dólar disparou e – para desespero dos liberais e asseclas acéfalos do governo – foram necessárias algumas subsequentes intervenções do Banco Central no câmbio para acalmar o Mercado.

Nessa semana, por coincidência ou não, Que Horas Ela Volta estava passando na TV. E rever o filme após todo esse imbróglio do ministro fez com que ele ganhasse todo um novo significado aos meus olhos. Ele deixou de ser apenas sutil e poético para ser visceral na mensagem. Acho que eu não o entendi completamente quando o assisti pela primeira vez. Mas agora vejo porque ele incomodou tanto, demais. A polifonia dos diálogos entre Val e Jéssica – mãe e filha, empregada e vestibulanda, submissa e enfrentadora – sobre como cada um descobre o seu lugar, essa noção quase que sobrenatural que nasce com o pobre, segundo a mãe, e quem diz que lugar é esse, onde está escrito, questiona a filha, é uma pérola de Anna Muylaert. E Dona Bárbara? Essa é o próprio Guedes na tela, com direito à mesma expressão de nojinho de pobre.

Que horas a gente volta? Quem a gente pensa que é para querer voltar?

Das Partidas

Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.

(Amyr Klink)
Tem um ano que parti
Sem dores
Sem rancores
Alguns temores
E parti.

Saiu o mar, entrou o rio
Saiu o quartinho e veio o quintal
Tudo novo, outro povo
E sem batuque, sem carnaval

Há um ano eu cheguei
E 7 vezes me apaixonei
E tinha esse jeito
Um colo e um peito
E nele deitei.

Solte suas amarras. Afaste-se do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.

(Mark Twain)

É sua vez de partir, meu amigo. Vai.

Vai, não apenas por ser necessário, mas por ser caminho. Muda a paisagem mas não muda a essência. O que é importante você leva no coração. Os seus, o samba, o mengo e o dengo estarão sempre contigo. E seu coração é grande o suficiente para novos dengos que eu sei. Vai que vai ser lindo. Vai que você está tinindo e é assim que o olhar brilha.

‘Não tô dando nem vendendo como o ditado diz’. Você não precisa do meu conselho, eu sei, ‘o meu conselho é pra lhe ver feliz’. Cantou o cantor. Quero lhe ver feliz e, com sorte, ‘que você me queira’. Cantou a cantora. Eu fico com o querer de novo o seu abraço, seu beijo suave e suas mãos nas minhas costas naqueles momentos quando você está à vontade. E suas mãos nos meus cabelos, naqueles raros momentos em que você está mesmo à vontade. Quando o tempo for generoso, o espaço entre nós sumirá.

Vai, e abraça tudo. Sente. Come. Bebe. Permite e permita-se. Vai. Você vai tirar de letra. Depois me conta.

De leve, um até breve.

Conto com isso.

Conta comigo.

100 Anos de Rivalidade – Um Olhar Bear

Eu amaria começar esse relato com o glamour do cronista romântico que pode escrever no título “Meu primeiro Bears x Packers foi…”, mas não posso. E o motivo é simples: eu não lembro. Não lembro ao certo quando comecei a curtir o futebol americano com mais afinco. Eu lembro que a assiduidade aumentou entre 2005 e 2006, quando morava sozinha e, vira e mexe, esbarrava com alguma transmissão. Mas não lembro o primeiro jogo que me chamou atenção. Não fui arrebatada pelo esporte: fui cortejada. 

Conclusão: eu posso ter assistido a algum clássico nesse período sem me dar conta, afinal os dois times se encontram religiosamente duas vezes por ano. Naquele tempo, eu não fazia ideia da rivalidade entre as duas equipes. Na verdade, eu sequer tinha noção de que a história do esporte que eu começava a acompanhar estava totalmente atrelada a estas duas palavras: Bears e Packers. Tola. 

Mas eu me lembro que não demorou muito para que eu me deixasse hipnotizar pela onda Orange & Blue. Talvez pela familiaridade de vê-la sempre representada na cultura pop, talvez a memória afetiva com o impactante Chicago Bulls dos anos 90. Mas o fato é que o Chicago Bears me seduziu aos poucos, como quem não quer nada. No início eu achava que era apenas simpatia, que seríamos amigos com benefícios. Imagina se eu gastaria energia torcendo para time gringo? Logo eu! 

Eu imagino que, se foi televisionado aqui na terrinha, o CHI 26 x 0 GB de setembro de 2006 – coincidentemente o jogo de abertura daquela temporada para as duas equipes – possa ter sido um dos responsáveis por me conquistar. Afinal os locutores e comentaristas devem ter pirado ao ver, ou melhor, não ver Brett Favre marcar ponto algum; era algo inédito. Se eu assisti essa partida, provavelmente testemunhei Devin Hester marcar seu primeiro touchdown retornando um punt como atleta profissional. Céus, como odeio minha memória fraca! 

E assim seguiram-se minhas noites de domingo e segunda, vendo o jogo que estivesse passando e torcendo para os Bears quando eles apareciam. As regras iam perdendo o mistério e a fascinação pelo esporte começava a transparecer. Brian Urlacher, Charles Tillmann, Desmond Clark, Alex Brown, Lance Briggs e Devin Hester deixaram de ser nomes aleatórios e eu comecei a perceber que os outros times não importavam tanto. E quando veio a certeza? Nos Playoffs daquela temporada. Acho que mais precisamente no divisional contra o Seattle Seahawks, numa virada que só foi concluída com um field goal (quem diria? mas na época tínhamos Robbie Gould!) e onde precisamos do time como um todo para vencer: ataque, defesa, especialistas e o barulho insuportável da torcida! O Troféu George Halas veio com uma vitória razoavelmente tranquila sobre o New Orleans Saints, do novato Sean Payton e voilà: eu veria as cores azul e laranja no Super Bowl. Sim, é verdade que Peyton Manning colocou os Bears no bolso naquela noite, mas o retorno (mais um) do Devin Hester para touchdown logo no kickoff da partida ninguém tira de mim!

Vince Lombardi e George Halas
no Wringley Field.

Voltando à rivalidade desta noite, depois disso eu sei que não perdi mais nenhum clássico. Entendi a relação entre as duas histórias. Descobri que foi George “Papa Bear” Halas que, em 1922, disse que o nome “American Professional Football Association” não era forte o suficiente para o esporte e o mudou para “National Football League”. Ao conhecer Papa Bear mais a fundo foi inevitável conhecer Vince Lombardi. “Só existe um homem a quem eu abraço quando nos encontramos e a apenas um eu chamo de Coach” teria dito Lombardi sobre Halas. Papa Bear foi incansável na defesa da importância dos Packers para a comunidade de Green Bay. Sem a comunidade – que futuramente financiaria o Lambeau Field – não haveriam os Packers. E sem Packers, não existiriam os Bears. Papa Bear dizia os Packers eram nossos rivais mais “felizes”. Nunca entendi bem o que ele queria dizer com isso, mas o legado da rivalidade passou a ser levado muito a sério, em todos os níveis. Ao mesmo tempo que respeitava Lombardi, ele sequer apertava as mãos de Curly Lambeau. Se não havia controvérsia, Papa Bear não estava feliz.

A competitividade e a combatividade foram inseridas e motivadas sistemicamente na centenária história do Chicago Bears. Naqueles tempos os jogadores tinham seus empregos, mas em semana de jogos contra os Packers, Papa Bear marcava treinos extras e pagava qualquer quantia que os jogadores perdessem pelas faltas ao trabalho. Formava-se um time de Monstros, um time de defesas lendárias. Tudo começava a fazer sentido pra mim.

Bears e Packers são os dois times que mais se enfrentaram nesses cem anos e não existe “cumprir tabela”. Todo jogo significa alguma coisa. Em 1999, por exemplo, vencemos os Packers no dia seguinte ao funeral de Walter Payton ao bloquear, milagrosa e inexplicavelmente, o field goal que lhes daria a vitória quando faltavam 7 segundos para o fim do jogo e acabando, assim, com a sequência de dez derrotas para os rivais. “Acho que Walter Payton me levantou porque eu sei que não pulo tão alto assim” disse Bryan Robinson ao fim da partida.

Bryan Robinson no momento do bloqueio mágico que evitou o field goal da vitória do GB Packers.

Não seria honesto falar do que representa essa rivalidade para mim sem falar das derrotas dolorosas. Os tempos não estavam generosos com o torcedor do Chicago Bears. Virginia McCaskey uma vez disse: “Cresci esperando pela aposentadoria do Don Hutson. Depois passei a esperar pela aposentadoria do Brett Favre e agora eles têm Aaron Rodgers. Isso não acaba!” E isso resume bem a doce agonia de torcer pelos Bears. Enquanto somos defesa, eles são puro ataque. A final da Conferência Nacional em 2010 refletiu bem o drama. O primeiro encontro dos rivais em playoffs desde 1941 e nossa primeira aparição em playoffs desde o Super Bowl XLI. Por três períodos da partida, foi jogo de um time só: os Packers. Olin Kreutz jogando machucado porque não tínhamos quem jogasse de center, Jay Cutler saindo no terceiro quarto com uma lesão no joelho e o placar 14×0 para eles em nossa casa. Pra encurtar a tortura desta cronista, os Bears reagiram, Earl Bennett conseguiu uma recepção de 35 jardas e o placar mostrava GB 21×14 CHI mas Sam Shields interceptou Caleb Hanie faltando segundos para o fim da partida. Fim do sonho. Pulando para 2014, na última partida da temporada regular, precisávamos apenas vencer para voltar aos playoffs. Aaron Rodgers também não deixou e perdemos por 55×14.

Vencemos uma partida de Thanksgiving em 2015 no Lambeau Field apenas para estragar o momenttum de Brett Favre, que entrava naquele dia no Ring of Honor. Em 2017 os “cabeça-de-queijo” finalmente viraram o placar geral da rivalidade. Hoje estão com duas vitórias à frente (97, contra 95 vitórias dos Bears e 6 empates). Chegamos a 2018 abrindo a temporada mais uma vez contra os rivais, no Lambeau Field, como parte das comemorações de 100 dos Green Bay Packers. Roy Robertson-Harris tirou Rodgers do jogo e, no susto, abrimos uma vantagem de 20×0. Uou! Teve pick six de Khalil Mack sobre DeShone Kyzer e eu estava em casa apenas curtindo os ventos de Chicago arrasando Green Bay. Foi quando Rodgers resolveu voltar e nossos ventos viraram brisa. O cara com meia perna conseguiu virar o jogo (23×24) e jogar dúvidas sobre a nossa temporada. Ledo engano. Respondemos vencendo o segundo jogo, em nossa casa, protegendo o Soldier Field e, de quebra, garantindo nosso lugar nos playoffs e eliminando as chances de redenção da temporada perdida: Green Bay estava fora dos playoffs pelo segundo ano consecutivo. 

Aaron Rodgers e Khalil Mack no Lambeau Field, Semana 1 da temporada 2018.

O jogo de hoje não é apenas o kickoff de uma temporada festiva. Ele traz toda essa carga histórica. São 22 títulos e 65 membros do Hall of Fame. Todas as cartas estarão na mesa. Rodgers com aquele olhar de “vou estragar sua festa” e Matt Nagy de viseira respondendo com olhar de “manda ver”. Nesses quase quinze anos acompanhando o Chicago Bears, eu nunca os vi tão prontos, tão motivados, tão monstros. Pela primeira vez Aaron Rodgers teve que estudar um playbook e se preparar de fato para nos enfrentar como um adversário que não pode ser subestimado. Estaremos mais uma vez com as quatro unidades no Soldier Field hoje: ataque, defesa, especialistas e a Nação Bears e todo a sua paixão e gritaria e camisas do Dick Butkus, Walter Payton, Gale Sayers, Mike Ditka, Bryan Urlarcher, Matt Forte, Devin Hester. Chicago pulsa por esse jogo e por essa temporada. E esse jogo começou 100 anos atrás. 

BEAR DOWN!

Obs: Post originalmente publicado no NFL de Bolsa.

Nolite te Bastardes Carborundorum

Todo fã da série The Handmaid’s Tale conhece a expressão em Latim acima. É uma espécie de trocadilho com a própria língua – uma piada interna das aulas de Latim da escritora Margaret Atwood – e significa algo como “Não deixe os idiotas te oprimirem“. Dentro da série, a frase tem todo um contexto de resistência e resiliência, um aviso, um lembrete pessoal diário, quase um mantra, de que – a despeito dos idiotas – existe uma saída.

Não precisamos de uma distopia para pensar nesse termo como algo aplicável ao nosso dia a dia. Muitas vezes nos sentimos mal porque deixamos que alguém nos coloque para baixo (ou fazemos isso com um amigo) com um comentário que talvez nem tenha sido maldoso. Não que estejamos cercados de idiotas. Mas às vezes soamos como se o fôssemos. É um desafio enorme identificar essas situações e superá-las sem trauma.

Hoje me deparei com o discurso do saudoso Stan Lee numa formatura da UCLA. Adivinha sobre o que ele falou? Sim: “If you have an idea that you genuinely think is good, don’t let some idiot talk you out of it.

* Se você tem uma ideia e sabe que ela é genuinamente boa, não deixe um idiota te convencer do contrário.*

Em tempos de tamanha polaridade tóxica, precisamos nos lembrar disso.

Excelsior!

Primeiras impressões sobre o Tratado de Livre Comércio UE x Mercosul

Após 20 anos de negociações, o Mercosul e a União Europeia enfim chegam a um consenso sobre o Acordo de Livre Comércio entre os dois blocos. Nunca foi uma negociação fácil e a conclusão dos trabalhos, anunciada ontem (28) em Bruxelas, traz a mensagem de que grandes negociações ainda são possíveis. Em meio à tensa e polarizada conjuntura atual, os dois lados da mesa tem estado à margem das grandes negociações protagonizadas entre a China e os Estados Unidos desde a posse de Trump e, para o Mercosul especificamente, a preferência dos europeus para o nosso mercado consumidor é um claro recado de que o bloco não é um participante inóquo no sistema internacional. Outros países devem passar a olhar para o bloco de forma diferente.

Com números atuais, estamos falando de €88 bilhões em mercadorias (com equilíbrio bilateral) e €34 bilhões em serviços (70% favorável à UE) num grande mercado econômico que representa 25% do PIB mundial e envolve 780 milhões de pessoas. Além do agronegócio e da indústria, o acordo abrange segmentos de serviços, como comunicação, construção, distribuição, turismo, transportes, serviços profissionais e financeiros e permitirá que mais de 90% dos produtos sejam comercializados entre os blocos com tarifa zero, gerando uma economia estimada superior a €4 bilhões por ano em impostos. 

Acho importante salientar que não é auspicioso se deslumbrar apenas com tais números ou com as manchetes que, obviamente, ressaltam que esse é o maior acordo comercial que a União Europeia já concluiu e, no caso do Brasil, o impacto pode ser maior que as aberturas econômicas alavancadas por Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Isso é fato. Porém, o fim de tão longas negociações também reflete o cenário político de cada um dos envolvidos: a proximidade do fim do mandato da atual Comissão Europeia, por exemplo, e até mesmo as eleições na Argentina. Em ambos os casos, numa eventual vitória das respectivas oposições, este tratado estaria fadado a mais alguns muitos anos de discussão. As duas décadas de negociações se justificam pela enorme assimetria entre os blocos, suas prioridades diferentes e pelos interesses próprios que até dentro do Mercosul eram complicados de serem equalizados. Logo, não se deve negar nem subestimar o peso de diversas pressões políticas nas premissas concedidas pelas partes. 

Agora os grupos técnicos iniciarão as tratativas legais para a devida redação e necessárias vinculações jurídicas. É preciso ter muito cuidado para não cair da tentação da adivinhação do futuro mas, com base no pouco que já foi liberado de oficial sobre o tratado, é possível sim fazer algumas considerações sem medo de leviandade.

O agronegócio do Mercosul talvez seja um dos grandes beneficiados do tratado. Isso explica boa parte da festa por parte dos governistas, obviamente impulsionada pela bancada ruralista. No entanto, somente poderemos bater esse martelo depois de analisar dois pontos:

1) O tratado deve seguir os padrões europeus no que diz respeito à legislação sanitária e fitossanitária além de adotar o “precautionary principle”. O princípio de precaução sempre foi inaceitável, um dealbreaker para os negociadores do Mercosul. Pelas regras atuais da OMC, o país importador precisa provar a existência de algum dano (seja no tocante à saúde humana, animal ou ambiental) antes de restringir a importação. Agora, com o princípio de precaução, um governo poderá impor barreiras – mesmo se baseando em estudos não conclusivos – e é o exportador que deve provar que a respectiva exportação não causa dano. Como disse o ex-negociador Pedro Camargo Neto: “há um importante caráter simbólico ao cedermos em uma questão de princípio“.

2) A questão das cotas de produtos ainda não foi detalhada. O que sabemos hoje remete às negociações de 2004, por exemplo, quando – também segundo o ex-negociador Pedro Camargo Neto – o Brasil exigia cota de no mínimo 300 mil toneladas de carne contra a oferta de 99 mil toneladas por parte da UE. Era um ponto tão forte para as partes que paralisou a negociação por anos. Em maio, o Chanceler Ernesto Araújo fez a seguinte declaração em entrevista: “É importante mencionar que do caso do Mercosul, e muito especificamente do Brasil, nesses últimos meses temos feito grandes esforços para renovar nossas posições e atualizá-las de uma maneira que permitam a conclusão do acordo”. Isso indica que um dos esforços pode justamente ter sido o recuo no posicionamento relativo às cotas (assim como recuamos na questão de abandonar o Acordo de Paris). Mesmo sendo o agronegócio um setor altamente rentável, com menor valor agregado e pouca utilização de mão de obra, não sabemos o impacto das cotas nessa equação. O tratado garante ao Mercosul o acesso preferencial para a exportação de carnes bovina, suína e aves, açúcar, etanol, arroz, ovos e mel, entre outros, mas será que as cotas serão suficientemente satisfatórias para compensar a as importações que receberemos dos produtos industrializados europeus notoriamente mais competitivos do que os nossos? 

Já que chegamos aos produtos industrializados, o sentimento inicial é de que os industriais do Mercosul saem como os maiores prejudicados do tratado pois devem perder para os europeus o mercado latino-americano que tinham. Os parques industriais tanto do Brasil quanto da Argentina estão longe do auge de suas saúdes financeiras e apresentam um baixíssimo nível de competitividade. Além disso, um ponto importantíssimo também foi levantado pelo Daniel Rittner – do jornal Valor Econômico – sobre as regras de origem: “Para ser considerado original, um produto feito no Mercosul precisa ter no mínimo 60% de peças, insumos ou componentes locais. A UE costuma ser mais flexível com esse percentual. Como ficou no acordo? Se a regra de origem for muito baixa, corremos o risco de importar produtos travestidos de ‘europeus’, com tarifa zero, que são na verdade japoneses, vietnamitas, egípcios ou sabe-se lá de onde.” E finalmente, para equalizar os diferentes padrões técnicos, o tratado deverá considerar apenas os padrões internacionais – o que é bom para o Mercosul – porém não estão descartados o uso de medidas de salvaguarda que qualquer das partes pode lançar mão quando achar conveniente. Ponto que também deve ser detalhado no futuro.

Um outro ponto de atenção diz respeito à questões de propriedade industrial/intelectual e indicação geográfica. O acordo inclui disposições que cobrem Direitos de Propriedade Intelectual sobre direitos autorais, marcas, desenhos industriais, indicações geográficas e variedades de plantas. A seção sobre Direitos de Propriedade Intelectual também cobrirá a proteção de segredos comerciais. Teoricamente, nada mais justo. Mas como manteremos, por exemplo, a quebra das patentes que originou todo o programa de medicamentos genéricos do Brasil? Sobre a indicação geográfica, estamos falando daqueles produtos que, de tão famosos, são batizados com sua denominação de origem: champagne, queijo parmesão, mortadela bologna, presunto de parma, queijo minas e até a nossa cachaça (que foge à regra do nome mas está nesse grupo) entre outros. Não é uma questão de exportá-los ou importá-los apenas, mas pelo tratado, nenhum produto produzido fora de sua região original poderá levar esse “nome” na embalagem. Se seguir como está rascunhado, o Mercosul protegerá 357 Indicações Geográficas Europeias para vinhos, destilados, cervejas e produtos alimentícios. Será uma enorme dor de cabeça para brasileiros e argentinos e seus muitos imigrantes europeus. 

O tratado possibilita também que empresas dos blocos participem de licitações e concorrências para o fornecimento de mercadorias e serviços para compras governamentais. Nesse caso, estima-se que empresas do Mercosul terão acesso ao mercado de licitações da UE, estimado em US$ 1,6 trilhão, segundo os negociadores brasileiros. Por contrapartida, governos do Mercosul também deverão abrir suas concorrência para empresas européias. Todos deverão competir em pé de igualdade e todos os processos devem zelar pela total transparência e cada país membro (no caso do Mercosul) deverá garantir que todos os processos poderão ser acessados em um único ponto de acesso. Como isso será feito na prática – considerando todas as instâncias envolvidas – eu não consigo imaginar no curto prazo.  

Alguns números já foram estimados e estão sendo comemorados pelo governo Brasileiro: 

  • Até 2035 as exportações brasileiras para a UE devem ter ganhos de US$100 bilhões.
  • O PIB brasileiro deve crescer US$87,5 bilhões em 15 anos, podendo chegar a US$125 bilhões.
  • O aumento de investimentos no Brasil será da ordem de US$ 113 bilhões no mesmo período.

Volto a ressaltar que o anúncio do tratado é apenas o primeiro passo de uma caminhada que pode ser tão longa quanto foram as negociações. Agora vem o esforço de redação e vinculação jurídica, as traduções e a ratificação em cada um dos Parlamentos envolvidos. Lembrando de como o Parlamento Europeu quase derrubou o acordo UE-Canadá, a ratificação deste pode vir a enfrentar obstáculos políticos muito maiores, principalmente se a bancada verde aliar-se com a bancada nacionalista. 

Para os brasileiros. Bom, estamos todos testemunhando a euforia governista, porém eu creio que o uso político do acordo pelo Presidente e sua base de apoio não deve durar muito. O tratado deve fazer com o que o midiático político retraia seu discurso liberal em pontos que ele vendeu como promessa de campanha ou mesmo como barganha para aliados. Questões como proteção ao meio ambiente, liberação de agrotóxicos, relações trabalhistas (incluindo a liberdade de associação), transparência, entre outros são temas que não poderão ser tratados levianamente ou provocarão as devidas sanções aos envolvidos. 

O próprio tratado indica que caberá à sociedade civil – através de organizações não-governamentais ou mesmo sindicatos – uma participação fundamental: tais grupos poderão expressar seus pontos de vista e fornecer contribuições e discussões sobre como o tratado será implementado. 

Acho que não é dessa vez que o Presidente conseguirá “acabar com o ativismo”.

[Texto publicado originalmente no LinkedIn]

A Vertigem

Sim, eu também já assisti o documentário Democracia em Vertigem da Petra Costa disponível desde quarta (19) na Netflix e a vertigem veio com força. Petra narra todo o documentário, dando um toque pessoal ao fazer paralelos com sua vida e, de alguma forma, nos convidando a fazê-lo também. Junto com o filme na telinha, outro filme passava na minha mente e acredito que assim tenha sido com a maioria arrasadora dos espectadores.

A diretora tampouco esconde sua posição política de esquerda nem sua origem burguesa. No filme, ela se proprõe a contar a história da recente democracia brasileira pela ótica da ascendência e derrocada do PT no poder, e vai muito além, ao provocar a contextualização histórica do nosso quadro social. Chega mesmo a fazer uma crítica ao próprio PT que abandonou seus princípios e sua base popular ao escolher suas alianças para a governabilidade. Todo o fio é bem conduzido e as idas ao passado bem contextualizadas.

Chorei em várias passagens e, no fim, posso dizer que me causou profunda melancolia. Imagino que tenha sido assim com qualquer um que esteja à esquerda no espectro político. Somos chamados ao sonho integratório que Brasília deveria representar e ao pesadelo em que seu distanciamento dos grandes centros se transformou. Do brilhantismo simbólico abraçado em seu projeto arquitetônico (a proximidade dos três poderes e a sua total independência) a todos os pecados capitais (desculpe o trocadilho) cometidos para sua entrega. Também somos lembrados do flerte entre a política e o capitalismo na construção da capital e esse é, inclusive, um dos ganchos para o salto à realidade atual do filme.

O que vemos ali na tela, cena após cena, é nosso passado recente e, portanto, com pouquíssimo distanciamente histórico. O que me causou tristeza foi ver o filme acertar ao mostrar como, ponto a ponto, a classe trabalhadora brasileira evoluiu na luta política, ganhou protagonismo, foi traída por seus representantes mais caros, se equivocou no revide, optou por recuar na luta histórica e permitiu que a classe média a convencesse de tercerizar suas pautas escolhendo um governo distante de sua realidade. O governo do liberalismo de oportunidade ou de ocasião. De conveniência.

Nem vou entrar no mérito do real liberalismo (não esse que temos aí). Apenas me refiro à realidade brasileira: nossa jovem repúplica e nossa ainda mais jovem democracia não tem a menor chance de ser completamente liberal. Acredito nisso com toda a força do meu ser. Entendo – como já publiquei aqui anteriormente – que é preciso que haja uma conciliação entre os interesses coletivos e os interesses individuais, assim como os interesses públicos e privados. O Estado precisa ter o tamanho exato para prover educação, saúde e segurança a todos porque não temos saúde institucional para o Estado mínimo. E isso não quer dizer que aceito a máquina administrativa inchada, burocrática e inoperante que temos hoje.

Mas voltando ao filme e ao pseudo-liberalismo que compramos nesse pacote “pós PT”. Me parece que tudo o que vivemos atualmente – e mais no que nunca em nossa história – é o “qualquer coisa de conveniência”: além do liberalismo de conveniência, temos o processo legal de conveniência, o combate à corrupção de conveniência, o impeachment de conveniência! É a era do “fim justifica os meios”, mas que fim? Apenas o fim que convém a alguns. Isso também aparece no filme, quando ele mostra os já notórios áudios do “grande acordo nacional, com o supremo, com tudo”. E reforça nossa melancolia ao perceber que, mesmo validados, seu conteúdo não espantou quem bateu palmas e panelas para o impeachment. Afinal, era contra o PT. E para tirar o PT vale tudo: “vamos acabar com o ativismo!”, “vamos fuzilar os petralhas!”.

Representar qualquer parte do grande espectro da esquerda praticamente voltou a ser subversivo. Homo homini lupus (Hobes deve estar dando pulos onde estiver). O brasileiro transformou aquele que não pensa como si em inimigo. Também está no documentário: a senhorinha comemorando a prisão dos ativistas contrários à sua causa apenas por isso, por serem contrários à sua causa. Não debatemos mais ideias: atacamos as pessoas. Essa é uma das lições de um guru astrólogo – fisólofo de araque – passada boca à boca (ou zapzap a zapzap) e colocada em prática por seus asseclas sem questionamento. E pior: aceita pelos populares.

Acho que o grande mérito do documentário é a sua fé de que sua missão seja que, entendendo o que aconteceu, podemos voltar a acreditar num futuro melhor. Nesse momento, talvez pela falta do já citado distanciamento histórico, ou mesmo por conta das lamentáveis e super questionáveis desmontrações individuais de falta de humanidade e cidadania validadas pelo novo governante e sua trupe, eu ainda não partilho desse nobre sentimento. Espero voltar ao modo Polyana em breve.

Escolha curiosa: o Pavão Misterioso

Ontem uma arroba anônima de vida curta usou o pseudônimo “Pavão Misterioso” para atacar o jornalista Gleen Greenwald e seu The Intercept Brasil no twitter. Nem vou entrar no mérito da fanfic em forma de denúncia tosca da história toda. Apenas fiquei encafifada pela escolha da alcunha.

Pavão Misterioso – a música – foi escrita pelo cearense Ednardo em 1974 – em plena vigência da didatura militar – e ganhou o Brasil ao entrar na trilha da novela Saramandaia (1976). A música é lindamente ritimada e ganhou mais de 20 regravações (Amelinha, Belchior, Elba, Paul Mauriat, etc). O que pouca gente sabe é que ela é baseada num cordel: O Romance do Pavão Misterioso de José Camelo de Melo Rezende, de 1923 – esse aí da imagem do post. Não se trata de um folheto qualquer, mas do mais vendido de todos os tempos e considerado o maior clássico da literatura de cordel

O romance de 141 sextilhas conta a história de um jovem turco chamado Evangelista que, através de uma foto trazida pelo seu irmão João Batista, instantaneamente se apaixona por Creusa, uma jovem condessa grega que vive reclusa em um sobrado e aparece apenas uma vez ao ano para os turistas e curiosos que lhe aguardam abaixo da janela da propriedade de seu pai. Convencido de que está apaixonado e de que deve tomar Creusa por esposa, Evangelista cata sua pequena fortuna (metade da herança deixada por seu pai) e parte para Atenas, onde aguarda a aparição anual da donzela e confirma seu desejo. O jovem analisa suas possibilidades e resolve contratar um “artista”, alguém que lhe ajude no estratagema de chegar ao quarto da moça. 

Ele vai até a “Rua dos Operários” e conhece Edmundo, um “engenheiro profundo” (“Para inventar maquinismo / Ele é o maior do mundo“). O engenheiro-artista desenha então um mecanismo alado. Em suas palavras: “Eu fiz um aeroplano/ Do formato de um pavão/ Que se arma e se desarma/ Comprimindo em um botão/ E carrega doze arrobas/ Três léguas acima do chão.” E, voilà, temos nosso pavão misterioso! Aquele que é “pássaro formoso, tudo é mistério nesse seu voar“. 

Notamos aqui que não se trata de uma ave mítica, de mágica ou mesmo de ilusionismo, tática normalmente usada por colonizadores contra suas colônias. É justamente o contrário. Trata-se de ciência e tecnologia usadas contra um opressor. Sim, opressor, afinal, a jovem reclusa implora ao pai por liberdade após conhecer Evangelista e o conde ameaça matá-la por isso. Ele não ouve a filha, não considera suas vontades ou seus argumentos e apela à opressão (seus guardas) e ao medo (a ameaça de matar qualquer empregado que fale com a filha) para manter seu status quo.

O romance – de grande apelo popular – retrata uma uma aventura de amor e até de heroísmo, onde um jovem herdeiro se dispõe a abrir mão de suas posses pelo amor da donzela e acha, na Rua dos Operários, sua solução. Ao transcrever o cordel para a música, Ednardo capturou brilhantemente essa metafóra para, em versos, atacar o autoritarismo e a limitação das liberdades individuais vigente no regime militar. Com maestria ele despejou ambiguidade aos versos “Me poupa do vexame / De morrer tão moço / Muita coisa ainda / Quero olhar” assim como em “No escuro dessa noite / Me ajuda, cantar / Derrama essas faíscas / Despeja esse trovão / Desmancha isso tudo, oh! / Que não é certo não” e finalmente em “Não temas minha donzela / Nossa sorte nessa guerra / Eles são muitos / Mas não podem voar”.

Em tempo, dizem até que índios do Xingu adotaram a canção para um de seus ritos sagrados. Escolheu bem, nosso amigo acusador direitista, não?

#EleNão

[Disclaimer: Esse texto foi postado no Facebook, uma forma de desabafo durante o período eleitoral. Veio para o blog pela vontade de registrar meus pensamentos para além da bolha.]

Eu queria muito saber que desespero é esse de atacar as pessoas com quem não se concorda. Eu tô aqui vendo as coisas e achando tudo lindo e OK, pois afinal AINDA é uma democracia e AINDA temos esse direito. Posso não concordar mas jamais eu te confrontaria, no seu espaço. Apenas expresso, aqui no meu espaço, meu apoio ou não para essa ou aquela pauta. Então, brother, quer conversar, vem de boa. Eu converso. Tem um monte de gente aí de centro e de direita que tá contestando na elegância e tá maneiro. Se alguém chama pra conversa eu até vou no post alheio palpitar mas, com raras exceções, normalmente me aborreço. Por que? Porque só vejo os mesmos esperneios que vemos em toda parte. Então não traz isso pra cá, não, ok? Não vem com memezinho lacrador que nasceu num grupo de Whatsapp que tem resposta pronta pra tudo. Sou essa insuportável rata de internet que conhece o fluxo e a vida de um meme. Então sei que o que você tá compartilhando nasceu num Reddit de uma força tarefa que só tá fazendo isso: preparando respostas em forma de MEME pra serem usadas pela massa de manobra para desacreditar adversários.

Vamos facilitar: 
1) Já disse aqui que fiz uma limpa e quero usar essa rede fechada de amigos e conhecidos com gente com a qual eu me importo, que tenho carinho e que me faz bem. Se você ler essa mensagem, não tem mais nenhum filtro ou configuração misteriosa não: é porque você já passou por essa triagem e, em bom carioquês: te considero PRA CARALHO. Estou longe e amaria continuar acompanhando sua vida e seus momentos, suas lutas, seus pensamentos nessa rede. Ponto.

2) Eu sou Esquerda. Às vezes me aproximo do centro-esquerda, mas normalmente é só um lapso e passa logo. AND sou um tanto progressista: eu aceito que haja uma conciliação entre os interesses coletivos e os interesses individuais. Nada é preto no branco como muita gente acredita: ontem mesmo saiu notícia de que nos Estados Unidos (a pérola dos olhos de todo liberal) existe um forte viés de regulamentação nos provedores de internet. Ou seja, nem a Deus nem ao diabo. Vamos conciliar essas pautas, esses interesses aí. Devagar com o andor que um dia a gente chega lá.

3) Não consigo me desassociar das pautas humanas e sociais. Já passei por muita coisa nessa vida (diria Serginho Meriti) e conheci gente de toda cor, raça de toda fé e que me ensinou muita coisa me transformando no que sou hoje e que vocês tanto amam (pelo menos eu acho né ^^). Por conta disso tudo e do supracitado alinhamento, eu também posso afirmar que apoio gays, bis existem, me comovo com xs trans e acho que se todo mundo assistisse Ru Paul’s Drag Race o mundo seria um lugar muito melhor. Consequentemente sou contra Escola sem Partido e isso não quer dizer que eu seja a favor que as crianças sejam erotizadas. Apenas que, a seu tempo, elas devem ter sim acesso à educação sexual por uma questão de saúde e segurança. Para que ela saiba exatamente o que é pedofilia e saiba pedir socorro se precisar. Para que ela aprenda subsequentemente o que assédio e tbm saiba se defender ou respeitar o outro. Sou a favor da descriminalização do aborto porque pra mim é uma questão de saúde pública. Sou a favor da Lava-a-Jato e lamento demais que a Lei não seja efetivamente para todos. Repito todos os dias o que Darci Ribeiro profetizou: “se os governadores não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios”. E estamos condenados a esse ciclo infinito de 20 anos ad eternum e ainda tenho que ouvir que “bandido bom é bandido morto”. Perceberam? Eu também sou contra a flexibilização do porte de armas. O que mais? Eu tenho zero respeito pelo MBL. Ah, e eu tbm amo Djavan e Oswaldo Montenegro, não falem mal deles perto de mim.

Bom, isto posto, devo concluir que estou muito mais próxima do PSOL e do PDT do que do PT. Então não me venha com esse nhenhenhen de MAS E O PT porque não é deles o meu voto. Tenho votado no PSOL praticamente sempre, desde que eles passaram a ter candidatos próprios. Sobre esses partidos mais recentes, ainda não formei opinião, logo, quando preciso vejo que são as pessoas envolvidas e guardo aqui na minha caixola para uso futuro pertinente. O importante aqui é que entendo que no primeiro turno, à exceção de brancos e nulos, todo voto é útil e importante.

Ok? Então só falta uma última e derradeira observação: eu nunca vou votar no Bolsonaro. É incompatível com tudo o que sou e que acredito. Assim, decidi postar e compartilhar em minha própria timeline os absurdos da sua candidatura porque eu acredito que temos muita diferença social para aplacar ainda e porque quero tentar mudar a cabeça de quem intenciona votar em branco ou nulo. Se mudar de mais alguém, excelente, mas se não mudar OK também. Mas se você tá de boa com a sua escolha, eu também estou de boa com você. Não é você meu público alvo.

Extrapolando para a grande probabilidade de segundo turno e é aqui o ponto crucial deste interminável oversharing: eu também não vou votar no Bolsonaro. E aqui sim, se tiver que votar no PT, paciência. Penso que agora – depois de tanto escândalo, tanta investigacao – nós conhecemos suas artimanhas. Conhecemos seus pontos fortes e fracos. Podemos domar essa fera com as ferramentas do Estado democrático. Posso ser ingênua mas acredito demais na democracia.

O que eu não conheço é Bolsonaro com poder. Dê poder a um homem e verás quem ele é. Não, passo. Conheço o seu histórico, sua personalidade pública que sempre foi alardeada e exaltada por ser radical por ele mesmo, seus filhos e seus próximos. Ninguém tá inventando ou distorcendo nada contra ele. Tudo está e esteve sempre disponível por aí e às claras só que agora querem que a gente acredite que ele é moderado. Que nunca quis dizer o que disse e repetiu tantas vezes. Ou seja, que por dentro ele é meigo. Quase fofo, certo. Sério? A verdade é que seu discurso legitima outros iguais ou piores que o seu próprio. Já fui ameaçada na internet por ser uma feminista vagabunda escrota. As pessoas perderam o medo de agredir. Também conheço sua baixíssima produtividade e seu corporativismo. E esse homem com poder, aliado à incompetência de uma equipe que não se entende agora que ainda estão em campanha e somados a esse exército de asseclas acéfalos – a parcela má intencionada do seu eleitorado, aquela que forja notícias, manipula vídeos e fotos, hackeia adversários – só me fazem acreditar que sem esses subterfúgios não há coisa boa, legítima e original a ser apresentada. Afinal eu também teria vergonha de compartilhar aquele ppt pífio e sem vergonha que chamam de programa de governo. Ah Cláudia, mas você não pode responsabilizá-lo pelo que seus eleitores estão postando. Posso sim quando ele faz o João sem braço e não só não repreende como ainda alimenta: tudo Fake News / Olha, se eu perder é fraude e por aí vai.

Não existe solução simples e ele está se vendendo como solução mágica e imediata pq estamos putos com o PT. Mas construir uma nação dá trabalho, gente. Não dá pra terceirizar e deixar de lado. A vigilância deve ser constante. Sempre.

Bom, é isso. Se depois de me conhecer mais esse tantão você concluir que sou algo entre uma ingênua insuportável e uma feminazi vagabunda escrota que você não pode tolerar, eu entendo. Vai lá e desfaz amizade, não precisa nem avisar que aí eu não vou perceber a dor de imediato. Vida que segue, um dia a gente se encontra. Eu não vou desfazer daqui pq se não desfiz até agora é pq do meu lado ainda está tudo xuxubeleza entre a gente e eu prometo, na saúde e na doença, sempre te respeitar. Só quero que me respeite também.

Se APESAR de tudo isso você ainda quiser minha companhia, u-hull tamujunto! Porque no fim a gente vai se entender e vai lutar junto independente da ideologia.

Flw, vlw quem leu até aqui, minha admiração eterna. #EleNao #Elenunca#VemMeVisitarEmGuaira #Pas

A Gata Comeu

Muitos de vocês ainda não tinham nascido, mas 1985 foi um ano bem joia. O Brasil fervilhava com as eleições indiretas (Tancredo derrotou Maluf) e a campanha das Diretas Já ao som de “Pro Dia Nascer Feliz“; Ayrton Senna vencia seu 1o. GP; nasciam Lewis Hamilton e Cristiano Ronaldo; no Cinema assistimos Os Goonies, De Volta para o Futuro, Coccon, Rocky IV e Mad Max – Além da Cúpula do Trovão; nas nosas vitrolas apareceram Guns, Ira!, Plebe Rude, Legião, Engenheiros entre um monte de outros tantos enquanto o Queen tocava no Live Aid o no Rock’n Rio; O Chicago Bears (que eu nem sonhava que acompanharia algum dia) vivia sua temporada mágica que culminaria na conquista do Super Bowl XX. E mais uma pá de coisa que eu nem lembro mais…

Na TV passava A Gata Comeu.

Eu tinha 12 anos e estava na 6a. série C com a Vanessa Andrade que fazia figuração na novela. Ela vai ficar sem graça mas ela virou uma espécie de celebridade no Santa Maria por conta disso. Acontece que numa tarde qualquer de 1985 eu estava na casa dela quando a Tia Sônia chegu avisando que tinham telefonado da Globo chamando para uma gravação que não estava programada. Ela olhou pra mim e disse: “você vai com a gente, depois me entendo com a Dalvinha”. E graças ao Canal Viva, taí o registro (com direito a Danton Mello e tudo).

Obrigada Vanessinha e Tia Sônia (in memoriam) por essa lembraça incrível!

PS: pra quem não reconhecer, sou a moreninha sorridente de gravatinha lilás. 

Gente que Importa

No princípio era o “e se”. E se fosse no Rio? Onde seria, como seria, quem viria? Sim, eu me fazia essas perguntas a cada edição dos Jogos Olímpicos que começava imponente na TV. Por mais que eu tivesse vários eventos prontos na cabeça para responder essas perguntas, se alguém dissesse à Cláudia de 8 anos (chorando com o Misha), para a Cláudia de 12 (emocionada com o Joaquim Cruz) ou mesmo para a Cláudia de 16 (que gritou e vibrou e chorou com a geração de Ouro do Vôlei) que um dia ela efetivamente organizaria uma edição dos jogos, eu duvido muito que ela acreditaria. Confesso que eu mal acreditei quando fui chamada para a entrevista de emprego. E toda a emoção que senti ao fim daquele processo é exatamente proporcional à grandeza da responsabilidade que me esperava: apenas imensa.

E aqui estou. Há 1369 dias numa rotina sem rotina. O grande desafio era fazer o que eu já sabia — importar — dentro do cenário dos jogos, com todos os clientes e stakeholders envolvidos no processo. Tive a sorte de chegar no momento certo, a gerência recém criada e ter tempo para entender a legislação específica, alinhar e desenhar os fluxos, ajudar na busca das parcerias e já começar a tratar o que já tinha que acontecer, lá naquele momento zero. Desde que a Logística destes jogos existe como departamento, já passou de tudo um pouco na minha mão: os primeiros pins colecionáveis, alguns vários brindes, os Macs e iMacs (para o pessoal de design fazer o trabalho incrível que vocês conhecem), os servidores que guardariam os diversos portais por vir (a começar pelo de Voluntários) e outros tantos itens de Tecnologia (incluindo sofisticados equipamentos de videoconferência que poupariam muito dinheiro em passagem aérea). Também vieram os Mascotes (que na época nem nome tinham ainda) e os amigos (aqueles antigos que vieram para o lançamento dos novos, lembram?) e foi incrível demais fazer parte disso e ver o quanto eles são queridos!

A coisa começou a ficar séria quando começaram os Eventos-Testes. O que desenhamos funcionaria? Os órgãos do governo cumpririam o alinhamento? Os fornecedores conseguiriam seguir nossas instruções? E a roda começou a girar. Nossa equipe já estava mais robusta — agora já existia a Logística Internacional — e meu foco já estava se concentrando nos equipamentos esportivos. Vieram os primeiros uniformes, os obstáculos para o Hipismo, barcos de apoio para arbitragem e jornalistas, barcos de competição, o trabalhoso deck e as compridas raias da Lagoa. Tudo muito complicado no começo e já tínhamos uma amostra de que a engrenagem demoraria um bocado ainda para rodar macia. Os embarques começavam a chegar concomitantemente e nossa margem de erro diminuía a cada dia (coisa nada rara no Comércio Exterior mas nos jogos, tudo toma uma dimensão hercúlea). Chegaram itens diversos de arbitragem (desde apitos até moedas de sorteio, equipamentos de vídeo e até binóculos!), todos os itens para as quadras de Tênis de Mesa e Badminton (tudo, de porta-toalhas a mesas!) e os velhos conhecidos equipamentos para o Vôlei (tanto o de quadra quanto o de praia). Trouxemos itens curiosos como as ambulâncias equinas (as primeiras jamais projetadas), um cavalo mecânico, os adesivos numéricos para identificação dos atletas da Maratona Aquática, o sistema de som subaquático para o Nado Sincronizado, os bonecos (dummies, com e sem pernas!) para treinamento de lutas, equipamentos antidoping de raquetes (?!), os portões de partida, cercas infláveis e marcadores de chão para as provas de Ciclismo (BMX e Mountain Bike). Fomos desafiados em todas as instâncias – a começar pelo fornecedor – para importar toda a madeira que se transformaria quase que artesanalmente na incrível pista de Ciclismo de Velocidade (sim, o Velódromo — aquele!!!) e as tintas para pisos e toda gama de pisos em si: para as diversas arenas fechadas, as do Riocentro, os tatames, os antiderrapantes dos esportes aquáticos e até mesmo o gramado sintético do Hóquei (aquele do azul lindo e hipnotizante). Com mais calma vieram os alvos e demais equipamentos do Tiro com Arco, os ringues e toda a gama de equipamentos e uniformes de treinamento e competição do Boxe (minha primeira importação do Paquistão), as anilhas para o Levantamento de Peso, as tabelas do Basquete — queridinho da galera — e inúmeras camas elásticas (não, elas não usadas apenas na Ginástica de Trampolim). Um belo embate comercial tomou forma quando pecisamos tocar o embarque de cargas compridas demais (que só cabiam em voos cargueiros) como os trampolins do Salto Ornamental e todas as traves — do Futebol, Handebol, Goalball e as enormidades do Rugby. Demandou um controle absurdo a importação de todos os colchões e pódios e todos, todos, todos os equipamentos das Ginásticas (sim, todos!) e fomos estrangulados nos equipamentos para o Tiro Esportivo, incluindo aqueles pratos-alvos que viram poeira colorida — exceto as armas e munições (ahhhhh!); boa parte dos equipamentos das modalidades diversas do Atletismo e mais de quinhentos itens que fazem parte das especificações do campo de Golfe (achou que era só grama, buraco e bandeirinha, né?). Mais uma vez precisamos respirar em meio ao vendaval para dar a atenção necessária para os caríssimos equipamentos médicos de diagnóstico de primeiríssima geração para a Policlínica da Vila de Atletas e os equipamentos super high-tech da Esgrima. E as bolas? Foram bolas e mais bolas — pra lá de cinquenta mil (yeah!) — para todos os esportes que usam bolas (ora bolas), menos o Futebol (ah, esse é comum demais, né?). Tive também a chance de coordenar e acompanhar a importação dos uniformes de toda a força de trabalho (50 contêineres), das nossas lindas tochas Olímpicas e Paralímpicas, e dos nossos valiosíssimos ingressos. Como se não fosse o bastante, agora, em tempos de jogos, ainda tenho o privilégio de ajudar — ainda que timidamente — na operação de Cavalos. É por isso que sou forçada a repetir: eu amo o meu trabalho!

Hoje é difícil imaginar uma instalação de treinamento ou competição sequer que não tenha um pouquinho ou um montão do meu suor (ou das minhas lágrimas, se você me conhece bem). E se você encarou o textão e chegou até aqui, certamente vai se lembrar de mim a cada competição que comparecer ou mesmo assistir. E vai sorrir por mim, que eu sei. E sorrindo por mim, vai sorrir também por uma equipe fantástica que fez um trabalho maravilhoso e da qual me orgulho muito de fazer parte: gente que importa!

Tem problema demais na nossa cidade? Sim. No nosso país? Demais! Não sou louca de negar nem tão pouco de pedir que os esqueçam. Nada disso. Peço apenas que vejam o que estamos entregando apesar de todos esses problemas! Os Jogos estão apenas começando para o mundo e nosso trabalho está muito longe de terminar, mas eu estou muito, muito feliz de ter chegado até aqui com essas metas atingidas, ajudando a mostrar que é possível sim — a despeito do momento delicadíssimo que vivemos — entregar aquilo que nos comprometemos e que existe sim uma grande chance de que os atletas — nossos clientes mais especiais — atinjam aqui no Rio a sua melhor performance e, assim, sigam nos inspirando a ir mais longe, mais alto e a sermos mais fortes.

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